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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— Que é isso, Loureiro! ralhava a Campelinho empinada, carregando os seus oito meses de prenhez.

Pensou em escrever à Maria lamentando o deplorável acontecimento, mas não sabia ao certo onde ela parava. Ouvia falar no Outeiro, na Aldeota, no Cocó... Se fosse possível, até iria, ela mesma, dar um abraço na sua amiga de escola, consolá-la. Imaginava-a muito triste, cortada de desgostos, num abandono pungente, em casa de alguma mulher à-toa, sem ter quem lhe aparasse as lágrimas...

Pobre Maria! É assim — uns tão felizes e tão maus, outros ao contrário, bons e infelizes...

E Lídia soltava uns suspiros vagos, transpassados de pena ao lembrar-se da sua velha companheira agora atirada ao desprezo como um ente nulo e prejudicial à sociedade!

— Este mundo, este mundo!...

Entretanto, corria-lhe a vida deliciosamente, não lhe faltava coisíssima alguma, o Loureiro a estimava cada vez mais, comia e vestia do melhor, tinha relações com as principais famílias da capital, ia ao teatro e freqüentava o Clube Iracema; gozava!

Se pudesse repartir a sua felicidade com a Maria, coitadinha...

Ultimamente andava muito preocupada com o enxoval do seu primeiro filho.

Até já havia escolhido um nome para ele, para o pequeno — chamar-se-ia Julieta ou Romeu. O Loureiro tinha-lhe dito que Romeu era nome de gato, mas ela teimava em batizar o filho com esse nome, se fosse “menino”. Os padrinhos também já estavam designados — o comendador Carreira e a esposa.

Por sua vez a mulher do juiz municipal correu logo à casa de João da Mata numa ânsia de saber como as coisas tinham se passado. Era da escola de S. Tomé — ver para crer. Vestiu-se às pressas, atabalhoadamente, e voou para o Trilho de Ferro, como uma seta, atirando-se nos braços de D. Terezinha, esfalfada, sem fôlego, o rosto quente do mormaço.

A mulher do amanuense saudou-a com o seu invariável — salvou-se uma alma! proferido entre beijos.

Sem esperar oportunidade, D. Amélia foi direito ao móvel da sua inesperada visita. — “Então era mesmo certo o que se dizia na rua?”

— De quê?

— Da Maria...

— Se era? Tão certo como dois com dois são quatro. Jurava sobre os Santos Evangelhos.

O demônio metera-se-lhe em casa com a rapariga, e por tal modo que, de certo tempo àquela parte, nem fazia gosto a gente viver.

A Amélia não fazia idéia — uma vergonha! criatura, uma vergonha! Ela, Terezinha, estava cansada de sofrer desapontamentos, nem sequer saía à rua para não ser olhada com maus olhos. Haviam de pensar que ela era outra...

— E onde está a Maria?

— Sei lá, menina, sei lá... No Cocó, na Aldeota, no inferno. Tomara que aquela peste não me entre mais em casa.

— E tu não viste logo se ela estava grávida?

— Vi lá o quê! Andava aqui toda espremida com um arzinho de mosca morta, metida no quarto que nem uma freira. Uma sonsa, Amélia, uma sonsa é o que ela é.

— O tal do Sr. Zuza, hein?!

— Qual Zuza, mulher, elas é que são as culpadas, porque não se dão ao respeito, não têm vergonha.

— E o que diz a isso o Sr. Joãozinho? Furioso, hein?

— É o que tu pensas, indiferente como se não fosse com gente dele...

E o diálogo continuou animado, sem que D. Terezinha revelasse à amiga as suas suspeitas acerca de João da Mata e Maria do Carmo.

Amélia falou sobre o José Pereira, queixando-se de que ele há muitos dias não aparecia em sua casa, “todo embebido com a outra, com a Lídia”. O redator da Província não tirava os pés do Benfica, e, às vezes, voltava depois das nove, no último bonde.

A Teté não achava feio isso, um homem ir diariamente, às mesmas horas, à casa duma senhora casada! Era feíssimo! Já andavam até dizendo coisas... E então o José Pereira que não era tolo e tinha fama...

— Queira Deus que a tal Sra. D. Lídia não vá se arrepender... É verdade, a mãe, a viúva Campelo, como vai?

— Naquilo mesmo, respondeu D. Terezinha com um sorriso de malícia, piscando um olho.

Riram baixinho e a conversa recaiu sobre D. Amanda àquela hora entregue ao seu delicioso farniente de mulher solteira que dispõe do tempo a seu bel-prazer e da algibeira de um capitalista generoso.

Toda a cidade vivia agora do escândalo, dando-lhe vulto, criando novelas de romance, esmiuçando pequeninos acidentes domésticos, com um olho na política e outro na normalista, à espera de chuvas e de novos acontecimentos sensacionais.

João da Mata não se inquietava muito, de resto, e continuava a sua vida inalterável de empregado subalterno, sem prestar ouvidos à maledicência, encantonado no seu absoluto desprezo à sociedade e à opinião pública, cada vez mais submisso à mulher que o cobria de injúrias e labéus.

— Sedutor de filhas alheias! dizia-lhe ela na cara, ameaçadoramente. Peste! Coisa-ruim! Sem-vergonha!

(continua...)

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