Por Inglês de Sousa (1891)
A ação forte e dominadora duma fé ardente absorvera a vitalidade física de padre Antônio de Morais, causando-lhe um torpor profundo, mergulhando-o numa abstração completa. A recordação do martírio sobre-humano dos santos excitara no seu cérebro a sensação correspondente, que o sofrimento físico avivava, reagindo sobre a imaginação. Esquecera o presente. Via-se entre os mundurucus a pregar o Evangelho, a reduzi-los à civilização e à fé do catolicismo. O rio, a canoa, o céu estrelado, o Macário e os carapanãs varreram-se-lhe da memória. Mergulhara num sonho de catequese e de martírio em que, atado ao tronco dum gigantesco cedro, crivado de flechas ervadas, vertendo sangue por todos os poros, e sentindo a vida esvair-se pelas feridas ao passo que o veneno mortífero subia-lhe lentamente ao coração, falava ao gentio as doces palavras de Jesus.
Pouco a pouco aquele delicioso torpor fora-se apoderando de todas as suas faculdades, e o sonho continuara como realidade tangível, em que encontrava um gozo intenso. Recostara-se à popa da montaria.
Cerrara os olhos. Cruzara as mãos no peito e entregara-se à suprema felicidade de sentir-se martirizado por amor de Deus Crucificado. Os insetos, aproveitando a passividade daquele corpo, picavam-lhe o rosto, as mãos, o peito a meio descoberto pela abertura da camisa. Gotas de sangue vermelho cobriam-lhe as faces salpicadas de pontinhos pretos, uma nuvem de muriçocas aureolava-lhe a fronte, coroada de cabelos negros como a treva da noite que os envolvia.
À dúbia claridade das estrelas e ao reflexo das chamas da fogueira da praia, o sangue brilhava como rubis preciosos, e o vulto grande do padre destacava-se do fundo da humilde montaria numa atitude tranqüila e repousada, que o Macário invejava, como se houvera cedido ao sono embalado pelas auras da fresca madrugada, ao som duma música divina.
Um odor forte e balsâmico chegava da floresta, e misturando-se às emanações úmidas e agrestes da beira do rio, enchia o ar dum perfume oriental de nardo, sândalo e canela, que inebriava os sentidos, despertando vagos desejos dum gozo indefinido. A água corria docemente com um sussurro de regato coando por sobre leito de folhas, pelo leve embaraço que o estirão punha à correnteza desviada do seu curso; e as sardinhas, fugindo à voracidade dos peixes em caçada noturna, faziam às vezes estremecer a toalha do rio em pequenos círculos concêntricos que se desfaziam ao tocar na corrente, brilhando como lâminas de cristal à escassa luz do firmamento. Sobre uma moita de taquaris, perdida no meio dos aningais da outra banda, o reflexo da fogueira punha tons quentes de ouro queimado, e essa réstia de luz, caindo até meio rio, tonteava as piranhas pretas fazendo-as saltar fora da água em cardumes assustados.
Todos esses pequenos ruídos a modo que ainda tornavam mais profundo o grande silêncio do deserto, esmagador e terrível.
Sentindo-se num misto singular de ilusão e realidade, que no vago conhecimento do meio ambiente o conservava embebido no sonho de martírio, padre Antônio permanecia imóvel, impassível, sorrindo sob as dores agudas, fruindo inconcebível bem-estar, um prazer estranho, uma volúpia doce no castigo do seu corpo vigoroso por pequeninos insetos, que em miríades compactas cobriam-lhe o rosto e as mãos, saciando-se do seu sangue. As picadas eram um excitante do Amor Divino. E quando o sangue lhe corria vagarosamente pelo rosto abaixo, davalhe uma sensação de alívio e de frescura, que lhe punha nos nervos um agradável estremecimento. O calor ocasionado pelo afluxo do sangue ao rosto, o cansaço, a insônia forçada, o silêncio da noite e o cheiro sensual da floresta, trazido por uma brisa refrigerante, perturbando-lhe o cérebro desequilibrado, lançavam-no numa espécie de alienação mental, no puro subjetivismo dos mártires e dos loucos...
De repente o ruído dum corpo atirado ao rio arrancara-o à coma santa em que jazia.
Levantara-se e olhara para todos os lados, procurando reconhecer-se, e a custo voltara a si. Dores cruciantes no rosto e nas mãos chamaram-no à realidade das coisas e dos fatos. Sonhara, sem perder de todo a noção do meio. Vira o rio, o céu, as matas, ouvira os ruídos, respirara o odor balsâmico da floresta, mas não sentira aquelas horríveis dores que o estavam pondo quase louco, a agitar-se freneticamente no fundo da montaria. Isto não era sonho, sê-lo-ia o ruído que por último o despertara do letargo?
Macário não estava no lugar em que se assentara a vociferar contra os mosquitos, junto à fogueira, agora quase extinta. Essa ausência inquietava-o.
Chamara e ninguém lhe respondera. Que queria isso dizer?
Era de recear uma desgraça. Desembarcaria para procurar o companheiro.
Mas nesse momento, a algumas braças de distância, vira surgir de dentro da água uma cabeça humana, com os cabelos colados na fronte, e logo à luz das estrelas um braço agitara-se no ar, e um homem nadando entre duas águas, com perícia, aproximara-se da montaria, batendo com as pernas, fazendo barulho para assustar as vorazes piranha pretas.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.