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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- Dê-me uma rosa.

Uma ao menos dessas rosinhas amarelas, seu Jeronimo Paes. Cosme Cavalcanti, a quem foram logo levar a declaração, imprudentemente feita por Jeronimo, de que havia armamento nos armazéns dos mascates, corre a cercar a casa de Coelho que vareja, segundo vimos.

Entretanto Jeronimo, no ardor da exaltação e calculando o efeito da sua generosidade, distribui, pelos que lhe parecem mais dignos do presente, uma por uma, as dobras tentadoras.

E ao mesmo tempo que com a mão as distribui, segreda com os lábios quase à puridade, ao que as recebe: Quando sair daqui vá a casa de Coelho, José. Não deixes de ir, Antonio. Vê lá o que fazes, Martinho. Ele tem que falar a vocês acerca de uma diligencia importante e rendosa. Não faltes, Justino, nem tu, Jacinto; nem tu Sebastião.

Todos estes sujeitos respondiam afirmativamente e embolsavam a moeda.

O ouro dá calor e eloquência; dos tímidos faz audazes, dos prudentes temerários. A corrupção é feia, mas eficaz no momento; que tem que depois semelhe chaga podre, nojenta, mortal? Quando o tiro feriu o marchante, todos aqueles que tinham na algibeira uma rosa, tomaram imediatamente parte pelo ofendido e em altas vozes pediram armas para o desagravarem. Era mais o cheiro da flor do que o impulso da indignação natural o que lhes dava esta animação.

- Armas, armas, meu amigo, eis as primeiras palavras de Jeronimo quando entrou em casa de Antonio Coelho. Armas ao povo! Ele as pede; ele as quer. A vila é por nós.

Em menos de meia hora Goiana estava nos braços da anarquia. As paixões populares, exacerbadas e açuladas por Jeronimo Paes, por seus filhos, que correram em seu favor tanto que souberam do acontecido, por Belchior – o rabula, Manoel Gaudencio – o alfaiate, Romão da Silva – o meirinho, Manoel Rodrigues – o taverneiro, e por outros conhecidos e desconhecidos parciais, desafogavam em gritos, ameaças, insultos.

O sinos e os tambores deram logo sinal de rebate.

Dos moradores, uns, manifestado o motim, correram a tomar parte nele; outros, já escarmentados das violências praticadas por ocasião dos motins anteriores, fugiam, como podiam, com suas famílias, para fora da vila; outros, não tendo para onde ir, ou receando por pé na rua com tanto povo revolto, se deixavam ficar em suas casas, resolutos a defender-se ou a resistir se acaso fossem atacados pelas turbas. Dos que se atiravam na vertigem muitos não o faziam tendo a mira em outro alvo que o de ser sua casa respeitada pelo saque – epilogo negro de quase todos os motins populares.

Gritos contrários começaram a ressoar de pontos diferentes.

Daqui se ouvia este:

- Vivam os mascates! Morram os nobres!

D’acolá já era est’outro:

- Viva a nobreza de Goiana! Viva a nobreza de Pernambuco! Morra pé-de-chumbo.

Os adjuntos donde partiam estes últimos gritos, eram menos numerosos e menos densos. Dir-se-ia que estavam ainda em formação ou que tinham medo de formar-se. ressoavam à porta de fidalgos conhecidos e daí não se alongavam muito.

Quando algum forte bando se aproximava deles, as manifestações diminuíam ainda mais. Era medo, desdém, ou prudência?

- Silencio, escravos! Respondiam de cá os mais exaltados. Os de lá não retorquiam.

E o dragão popular passava revolto, espumante, vertiginoso, cuspindo injurias e obscenidades contra os que considerava seus adversários, e pensando no desforço pessoal e no roubo publico.

XXV

Cosme Bezerra voltou a esquina, acompanhado de ordenanças e parciais, entrou na Rua-da-matriz e foi descavalgar no Pátio-do Carmo, à porta de João da Cunha.

- Ufa! Ufa! O ladrão do mascate é insolente, mas não tem armas, por mais que diga que tem. E onde as teria ele que me escapassem? Não houve escaninho que não batessemos.

Tais foram as palavras que dirigiu às pessoas que se achavam reunidas na sala de visitas do senhor-deengenho, onde fez a sua entrada já com luzes acesas.

Então contou miudamente tudo o que acabava de acontecer, e de que ai já tinha chegado vaga e confusa noticia.

(continua...)

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