Por Eça de Queirós (1887)
E outra vez desapareceu na rua fresca do horto, entre a murta e as roseiras. Topsius deixou logo a estrada de Jopé; e estugando o passo por um atalho agreste, onde o meu largo albornoz se prendia aos espinhos das piteiras, explicava-me que a bebida de misericórdia - era um vinho forte de Tarses, com suco de papoulas e especiarias, fornecido por uma confraria de mulheres devotas, para insensibilizar os supliciados... Mas eu mal escutava aquele copioso espírito. No alto de um áspero outeiro, todo de rocha e urze, avistara, destacando duramente no claro azul do céu liso, um montão de gente parada; e em meio dela sobrelevavam-se três pontas grossas de madeiros e moviam-se, faiscando ao sol, elmos polidos de legionários. Turbado, encostei-me à beira do caminho, num penedo branco que escaldava. Mas vendo Topsius marchar, com a sabia serenidade de quem considera a morte uma purificadora li-bertação das formas imperfeitas - não quis ser menos forte, nem menos espiritual; arranquei o albornoz que me abafava, galguei intrepidamente a colina temerosa.
De um lado cavava-se o Vale de Hinom, abrasado e lívido, sem uma erva, sem uma sombra, juncado de ossos, de carcaças, de cinzas. E diante de nós o morro ascendia, com manchas leprosas de tojo negro, e a espaços furado por uma ponta de rocha polida e branca como um osso. O córrego, onde os nossos passos espantavam os lagartos, ia perder-se entre as ruínas de um casebre de adobe; duas amendoeiras, mais tristes que plantas crescidas na fenda de um sepulcro, erguiam ao lado a sua rama rala e sem flor, aonde cantavam asperamente cigarras. E na sombra tênue, quatro mulheres descalças, desgrenhadas, com rasgões de luto nas túnicas pobres, choravam como num funeral.
Uma, sem se mover, hirta contra um tronco, gemia surdamente sob a ponta do manto negro; outra, exausta de lágrimas, jazia numa pedra, com a cabeça caída nos joelhos, e os esplêndidos cabelos louros desmanchados, alastrados até ao chão. Mas as outras duas deliravam, arranhadas, ensangüentadas, batendo desesperadamente nos peitos, cobrindo a face de terra; depois, lançando ao céu os braços nus, abalavam o morro com gritos - "oh meu encanto, oh meu tesouro, oh meu sol!" E um cão, que farejava entre as ruínas, abria a goela, uivava também, sinistramente.
Espavorido, puxei a capa do douto Topsius - e cortamos pelas urzes até ao alto, onde se apinhavam, olhando e galrando, obreiros das oficinas de Garebe, serventes do templo, vendilhões, e alguns desses sacerdotes miseráveis e em farrapos, que vivem de nigromancia e de esmolas. Diante da branca capa em que Topsius se togava, dous cambistas, com moedas de ouro pendentes das orelhas, arredaram-se, murmurando bênçãos servis. Uma corda de esparto deteve-nos, presa a postes cravados no chão para isolar o alto do morro; e, no sítio em que ficáramos, enrolada a uma velha oliveira que tinha pendurados, dos ramos, escudos de legionários e um manto vermelho.
Então, ansioso, ergui os olhos... Ergui os olhos para a cruz mais alta, cravada com cunhas numa fenda de rocha. O Rabi agonizava. E aquele corpo que não era de marfim nem de prata, e que arquejava, vivo, quente, atado e pregado a um madeiro, com um pano velho na cinta, um travessão passado entre as pernas - encheu-me de terror e de espanto... O sangue que manchara a madeira nova, enegrecia-lhe as mãos, coalhado em torno aos cravos; os pés quase tocavam o chão, amarrados numa grossa corda, roxos e torcidos de dor. A cabeça, ora escurecida por uma onda de sangue, ora mais lívida que um mármore, rolava de um ombro a outro docemente; e por entre os cabelos emaranhados, que o suor empastara, os olhos esmoreciam, sumidos, apagados - parecendo levar com a sua luz, para sempre, toda a luz e toda a esperança da terra...
O centurião, sem manto, com os braços cruzados sobre a couraça de escamas, rondava gravemente junto à cruz do Rabi, cravando por vezes os olhos duros na gente do templo, cheia de rumores e de risos. E Topsius mostrou-me defronte, rente à corda, um homem cuja face, amarela e triste, quase desaparecia entre as duas longas mechas negras de cabelo que lhe desciam sobre o peito - e que abria e enrolava com impaciência um pergaminho, ora espiando a marcha lenta do sol, ora falando baixo a um escravo ao seu lado.
- É José de Ramata - segredou-me o douto historiador. - Vamos ter com ele, ouvir as cousas que convém saber...
Mas nesse instante, dentre o bando sórdido dos servos do templo e dos sacerdotes miseráveis que são nutridos pelos sobejos dos holocaustos, rompeu um ruído mais forte, com o grasnar de corvos num alto. E um deles, colossal, esquálido, com costuras de facadas através da barba rala, atirou os braços para a cruz do Rabi, e gritou numa baforada de vinho:
- Tu que és forte, e querias destruir o templo e as suas muralhas, por que não quebras ao menos o pau dessa cruz?
Em torno estalaram risadas alvares. E outro, espalmando as mãos sobre o peito, curvado com infinito escárnio, saudava o Rabi:
- Herdeiro de Davi, oh meu príncipe, que te parece esse trono?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.