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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Eu que tinha sido tudo quando se tratava da sua imaginação, não seria nada agoraporque se tratava do seu interesse? Não me exilara eu por ele, do paraíso doméstico? Por ele não renunciara às alegrias pacíficas da vida, e à sublime esperança de uma morte dig na? Como eu tinha sacrificado por ele a honra de um homem, não podia ele sacrificar por mimas esperanças romanescas de uma criança? Era justo ter-me trazido enganada, envolvida, como num arminho, nas aparências do amor, ter-me conduzido com os olhos vendados,atraída, suspensa do ritmo dos seus passos, a um lugar perigoso, a uma situação intolerável, e chegando aí dizer-me: «Adeus, agora! Eu vou para a felicidade. Tu, fica; mas cuidado, que para trás não podes voltar; e se deres um passo para diante, vais abismar-te na infâmia!».Não, isto não deve ser; o amor não é uma criação literária, é um facto da natureza: como tal produz direitos, origina deveres. E os direitos do amor não os abdico.

Pois quê! Por causa da outra! Hei-de dar tamanha considera ção às lágrimas quechoram dois olhos alheios, que nunca vi, que estão a duzentas léguas de distância e não heide apiedar-me das minhas lágrimas, que escorrem aqui na minha face, e que eu apa ro natremura das minhas mãos!

«És casada», dizem-me. O quê! Porque perdi mais, devo ser atendida menos! Eu, que vivo quase fora do mundo, sem estar li gada a nenhuma destas coisas superiores queamparam a vida, suspensa sobre a morte por um leve fio, por este amor único, é por isso que devo ir com as minhas mãos quebrar esse fio, quebrar esse amor!Há algum direito humano que exija isto de mim? Há alguma piedade que o veja friamente? Há alguma consciência que o justifi que? Se há, essa consciência poderia ensinar a serem duros os rochedos do mar!Mas, meu primo, tudo isto é aqui, neste papel em que lhe es crevo. Porque na realidade eu não podia lutar com ela! Ela era a miss, a que havia de ser esposa e mãe — vencia tudo!Elevava-se sobre as velhas afeições, sobre os velhos erros, como a imagem da Virgem sobre o globo feito de barro e de lama, onde se enrosca a ser pente.

Nem tentei lutar!E foi por esse tempo que recebi uma carta em que ele me dizia: Parto para Portugal. Que vinha fazer? O que era? Vinha despedir-se de mim? Vinha ver as minhas agonias?Vinha consolar-me? Vinha convencer-me? Vinha de novo dar-se cativo ao meu amor?

Vinha. Nem ele mesmo sabia mais nada!

V

Rytmel chegou. A primeira vez que o vi foi em minha casa.O conde estava então em Bruxelas. Era noite e na minha sala de música achavam-se reunidas algumas pessoas: a marquesa de..., velha legitimista, que fora a graça da corte toureira de D. Mi guel; o visconde de..., moço insignificant e e vagamente louro, que eu acolhia bem, porque sua irmã, que morrera, fora a minha ínti ma, a minha confidente de colégio.Viera também a viscondessa de..., pequenita criatura petulante e medíocre, que tinha a graça de ter vinte anos, junta com a des graça de os não saber ter, e cuja especialidade era o querer pare cer profundamente perversa, quando era apenas perfeitamente incaracterística.Mas ao pé de mim, sentado num sofá com um abandono asiático, estava um homem verdadeiramente original e superior, um nome conhecido — Carlos Fradique Mendes. Passa-va por ser apenas um excêntrico, mas era realmente um grande es pírito. Eu estimava-o, pelo seu carácter impecável, e pela feição violenta, quase cruel, do seu talento. Fora amigo de Carlos Baudelaire e tinha como ele o olhar frio, felino, magnético, inquisitorial. ComoBaudelaire, usava a cara toda rapada: e a sua maneira de vestir, de uma frescura e de uma graça singular, era como a do poe ta seu amigo, quase uma obra de arte, ao mesmo tempoexótica e correcta. Havia em todo o seu exterior o que quer que fosse da fei ção romântica que tem o Satã de Ary Scheffer, e ao mesmo tempo a fria exactidão de um gentleman. Tocava admiravelmente violon celo, era um terrível jogador de anuas, tinha viajado noOriente, estivera em Meca, e contava que fora corsário grego. O seu espíri to tinha um imprevisto profundo e que fazia cismar: fora ele que dissera da pálida duquesa de Morny: elle a la bêtise melancolique d'un ange. O imperador citava muitas vezes este dito, comosendo conjuntamente a critica profunda de uma fisionomia e de um carácter.

Carlos Fradique tinha por mim uma amizade elevada e since ra. Chamava-me seu querido irmão. Conhecia-me desde peque na, andara comigo ao colo. Em Paris tornou-secélebre; era o que se poderia chamar um filósofo de boulevard. Tinha sido l'ami de coeur de Rigolboche, e quando ela rompeu por se ter apaixonado por Capoul, Carlos Fradiquedeixou-lhe no álbum uns versos quase sublimes, de um desdém cruel, de um cómico lúgubre, uma espécie de Dies irae do dandismo... Prometia a Rigolboche que quando elamorresse ele velaria para que ainda além do túmulo ela vivesse no chique, sentindo Paris na sepultura. Algumas das estrofes que ele traduziu para mim, e que depois se publicaram, fizeram sensação e escola...



(continua...)

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