Por Coelho Neto (1906)
— Não. Vim apenas ver-te.
— Já vais?
— Tenho que fazer.
— Onde estás trabalhando agora?
— Por aí. Topo a tudo.
— Deixaste a jornal?
— Ora! Dias depois da tua saída.
— Por quê?
— Histórias...
Estendeu-lhe a mão.
— Espera, homem. Que pressa! — Levantou-se e, a correr, com um crespo ondular de rendas, foi ao quarto e voltou, momentos depois, com um envelope. — Dá isto á mamãe e dize-lhe que não seja má, que me venha ver.
— E tu, por que não vais até lá?
— Quando?
— Quanto quiseres.
— Só à noite.
— Pois sim, à noite. Hoje, por exemplo. Por que não vais hoje?
Ela pensou um momento, mordicando o lábio. Por fim disse:
— Pois sim. Hoje à noite.
— Eu previno-a para que ela não sofra um choque. Porque ainda não sabe que te encontrei.
— Ah! não?
— Não.
— Coitada!
— Às sete horas...
— Às sete, não; é muito cedo. Às oito e meia.
— Pois sim. Mas não faltes.
— Não falto.
— Então até logo. — Até logo.
Acompanhou-o à escada. Ainda de baixo ele insistiu:
— Olha lá!
— Não falto.
CAPÍTULO XVII
Na rua, Paulo respirou desafogadamente como se houvesse escapado a um perigo e, cheio ainda da volúpia que lhe inoculara aquele ambiente, deteve-se na calçada sem ânimo de partir, como se uma força misteriosa o prendesse, o atraísse, o arrastasse, solicitando-o para o amor.
Por que teria ela insistido em mostrar-lhe o quarto com tanto despudor? por simples vaidade ostentosa ou para martirizá-lo vingando-se, com uma tortura sensual, de tudo quando ele lhe fizera: das pirraças, das violências, das grosserias, de todas as afrontas? Não compreendia aquela visita ao aposento íntimo senão como uma premeditada provocação, ainda agravada com aquela roupagem leve que mal pousava sobre as carnes, deixando visíveis todas os contornos, realçando todos os relevos, numa excitante exposição, apenas velada pela discrição de um leve tecido, de umas rendas soltas.
Teve um vivo movimento de revolta; logo, porém, lembrando-se do envelope que recebera, abriu-o e desdobrou uma nota de duzentos mil-réis. Guardou-a de novo. Passava um bonde, tomou-o, saltando à porta de casa. Dona Júlia recebeu-o com recriminações carinhosas.
— Tu estás doido, meu filho!? Para que tudo isto? Nem eu tenho lugar para meter tanta coisa. Isto vai estragar-se. Imagina o dinheirão que está aqui.
A mesa estava abarrotada de latas, frascos, embrulhos, pacotes; grandes sacos de papel espocavam repletos. Pelo chão, junto à parede, havia caixotes, gordos sacos acaçapavam-se, empilhavam-se latas. Paulo, de mãos nos bolsos, sorria superiormente.
— Estamos livres dos caixeiros, pelo menos durante dois meses.
— Tu não podes ter dinheiro na mão. E como foi? Tiraste alguma sorte?
— Ganhei.
— Onde? — Por aí.
— Olha lá, Paulo...
Ele voltou-se arrebatadamente:
— Olha lá o quê, mamãe? Quem sabe se a senhora pensa que roubei?
— Não diga isto... Mas não quero que te sacrifiques por minha causa.
— Qual sacrifício! Fiz um bom negócio. Quando eu digo que a senhora não tem confiança em mim. Eu trabalho, mamãe, — afirmou com empáfia. — Entramos nos dias prósperos. Quer ver? Prepare-se para um choque. — E, tirando o envelope da bolsa, entregou-o. — Veja.
— Que é?
— Veja, insistiu.
Ela abriu, tirou a nota e, tomando-a em dois dedos, ficou a mirá-la.
— Duzentos mil-réis.
— Sim, senhora. Mas dou-lhe um doce se adivinhar de que mãos vem esse dinheiro.
— Do compadre. — Pois sim.
Pôs-se a passear pela sala fumando.
— Adivinhe.
— Eu posso lá adivinhar. — De Violante.
Ela estremeceu e, boquiaberta, os olhos escancelados, pálida, não teve uma palavra, não se arredou de junto da mesa, amparando-se, sentindo as pernas vergarem. Oscilava arquejando como se lhe faltassem o solo, o ar, a luz. Paulo precipitou-se, amparou-a:
— Então, que é isto, mamãe? Sente-se.
Foram-se-lhe os olhos enchendo d'água. De repente, dobrando-se sobre a mesa, rompeu a chorar, soluçando.
— Ora aí está! Trago uma notícia alegre e a senhora recebe-a assim.
Felícia apareceu à porta da sala atarantada, com a trunfa desfeita, olhando e sorrindo idiotamente. Contemplou um momento o grupo e, com um muxoxo, tornou para a cozinha. Dona Júlia levantou a cabeça e, fitando os olhos no filho, que a afagava, perguntou:
— Onde está ela?
— Em Botafogo.
— Boa?
— Forte e bonita como nunca!
— Como conseguiste descobri-la? — Encontrei-a ontem no teatro.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.