Por Adolfo Caminha (1893)
Daí a pouco entrou o Elesbão, outro redator, um sujeito lúgubre, muito pálido, faces encovadas, olhar triste, tossindo devagar. Foi perguntando, numa voz sumida e lenta, de que se tratava.
O Castrinho disse, impertigando-se na cadeira, que se tratava “dos brios da sociedade cearense”. O outro arregalou os olhos com ar de espanto. — Como assim? E explicou: Tinha estado fora, na Guaíuba, a leites, não sabia as novidades. — Um fato muito natural, disse José Pereira, nada mais que a reprodução de fatos velhos... Não valia a pena tocar na ferida...
Mas o Elesbão estranhou que “os colegas” tivessem segredos para ele. E depois de saber “o mistério”:
— Magnífico assunto para folhetim realista, hein?
Escrevia folhetins realistas para o rodapé da Província e trabalhava num livro de fôlego, os Mistérios de Arronches, com que, dizia, pretendia fundar uma escola
“mais consentânea com o estado atual da ciência”.
A sua opinião sobre o novo escândalo que preocupava agora a população cearense era que “nós ainda não tínhamos compreendido o importante papel da mulher na civilização”.
— A educação feminina, acrescentou com cansaços na voz, a educação feminina é um mito ainda não compreendido pelos corifeus da moderna pedagogia. Queríamos introduzir no Ceará os dissolventes costumes parisienses, a forciori, mas não eram essas as tendências do nosso povo essencialmente católico e essencialmente crédulo. Não admitia a teocracia tal como aceitavam os padres — “essa corja de especuladores” — mas era preciso respeitar as crenças populares, o verdadeiro sentimento religioso, sem hipocrisia, sem preconceitos.
De quando em quando a tosse o interrompia, uma tossezinha seca e pigarreada; levava a mão ao peito e expectorava. — “Diabo de catarro não o deixava em paz!”
E, continuando:
— O que é a Escola Normal, não me dirão? Uma escola sem mestres, um estabelecimento anacrônico, onde as moças vão tagarelar, vão passar o tempo a ler romances e a maldizer o próximo, como vocês sabem melhor que eu...
José Pereira contestou, lembrando o Berredo, “uma ilustração invejável”, o padre Lima, “um excelente educador em cujas aulas as raparigas aprendiam ao mesmo tempo a ciência e a religião”.
— Mas não têm método, não fazem caso daquilo, vão ali por honra da firma, por amor aos cobres, rebateu o Elesbão, forcejando por falar alto.
Aquilo é uma sinecura, não temos educadores, é o que é.
— Você deste modo ofende o atual diretor da Escola Normal, tido e havido como um pedagogista de primo cartello! advertiu o Castrinho, que se conservara calado.
— Não ofendo a ninguém, ao contrário, folgo em reconhecer nele um homem estudioso e bem-intencionado, mas isto não basta, meu caro...
Novo acesso de tosse desta vez mais prolongado.
— ...É preciso orientação e muito bom senso, isto é, justamente o que falta aos nossos corpos docentes...
— Tudo isso é inútil, Elesbão, tudo isso é completamente inútil quando uma mulher tende fatalmente para um homem. Foi o que se deu com a Maria do Carmo...
— É verdade, gabou o Castrinho roendo as unhas desesperadamente. Dizem que é inteligente e bem-educada.
— E além disto, acrescentou José Pereira, uma rapariga até morigerada...
— Não creio, duvidou o Elesbão batendo com o pé, curvado, já com uma poça de cuspo ao lado da cadeira, no chão. O amor tem suas exigências incontestavelmente, mas, quando a mulher é bem-educada e tem noções exatas da vida, dificilmente se entregará a qualquer mariola que se lhe chegue.
E sentenciosamente:
— Todo fenômeno é conseqüência de uma causa. Não há efeito sem causa. No caso vertente a causa é a falta de educação, a falta absoluta de quem saiba dirigir a mocidade feminina. A nossa educação doméstica é detestável, os nossos costumes são de um povo analfabeto.
Um tipógrafo aproximou-se e pediu licença ao Sr. José Pereira para perguntar uma palavra.
— O que é?
O rapaz mostrou o original. — “Está aqui”, disse apontando com o dedo sujo de tinta.
— Crápula, disse o José Pereira.
O tipógrafo foi repetindo — crápula, crápula...
— Que é isso? inquiriu Elesbão curioso.
Era um artigo contra o Pedro II, uma formidável descompostura a um dos redatores da folha oposicionista.
Entraram a falar do novo presidente da província.
A notícia do escândalo chegou até ao Benfica, à casa do Loureiro. A Lídia ficou estupefata.
— A Maria, hein?! Tão calada, tão sonsa...
E repetia:
— Este mundo, este mundo!...
Ao mesmo tempo apoderava-se dela um pesar sincero pela amiga. Tão moça ainda, coitada, tão boazinha...
— São coisas, são coisas, rosnava o Loureiro. Eu nunca me enganei com aquela gente. Uma súcia de doidos, a começar pelo tal Sr. João da Mata, um tipo que anda caindo nas ruas bêbado como uma cabra.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.