Por Franklin Távora (1878)
- Eles as têm, e tenho-as eu próprio a meu alcance.
Melhor, melhor. Servirão para atravessar ou degolar os mesmos que as guardam em seus esconderijos.
- Veremos qual de nós se engana, respondeu Coelho.
- Veremos, veremos, mascate – disse Cosme descendo com seu séquito.
Os olhos de Coelho despediam insólito brilho. Na face que a ira fazia subitamente contrair-se e dilatar-se, havia certos tons de ferocidade felina.
Miseráveis! Exclamou ele quando ainda o juiz não tinha descido de todo a escada. São ineptos na própria hostilidade com que pretendem impor seu ridículo poderio.
Então, voltando-se para um dos caixeiros:
- Vai já, já, em procura de Jeronimo Paes – disse. É preciso que ele me fale sem perda de tempo.
- Patrão, precisa de mim? perguntou-lhe Bartolomeu.
- Hoje não, amanhã, talvez. Podes sair. Espera. Quando passares pela porta do Lauriano, dize-lhe que venha falar-me agora mesmo.
Coelho deu alguns passos pela sala, penetrou no gabinete, voltou e logo após tornou a tomar para o interior. Antes de transpor a porta que dava para o quarto secreto, parou e perguntou ao segundo dos seus caixeiros se havia ainda soldados pela rua. Quando o rapaz tomava para a sacada, entrava na sala Luiz de Gouveia, mulatinho musico, de violento e desvairado patriotismo. Vinha acompanhado por diferentes homens do povo, trazia as feições demudadas, os cabelos revoltos.
Que novos ultrajes e atentados nos vens anunciar, Luiz? Inquiriu o negociante, antes que o musico falasse.
Um atentado nefando. Seu Jeronimo Paes acaba de ser ferido de um tiro de pistola, que lhe dispararam da rua, quando estava falando.
Eu esparava por isso, tornou o negociante. É natural que ao ultraje se seguisse o assassinato. Mas enganam-se. supondo aniquilar-nos, não fazem mais do que apressar a sua própria queda.
- Mas que mais esperamos, Sr. Coelho? Interrogou Luiz. Não será ainda tempo de armar o povo e atirá-lo contra os fidalgotes? Havemos de morrer às mãos deles, e só então nos meterão nas mãos as armas? Vamos com isso, senhor, vamos com isso. O povo não pede senão armas, não quer senão ir contra os nobres. E há muito povo pelas ruas?
A vila inteira está nas ruas. O tiro desfechado irritou todos os ânimos. Homens e mulheres correram à botica a saber o que tinha sucedido. Se apanham o assassino, fazem-no em postas. Dizem que é um escravo de João da Cunha.
- Há de ser, há de ser. Não tem ele mandado fazer tantas mortes? Não é useiro e vezeiro nesse oficio? Não é ele o gran senhor desta herdade, e não somos nós seus servos? Mas que a façam bem feita, porque se assim a não fizerem, com seu sangue serão lavados os insultos e agravos com que todo o dia nos batem às faces.
Coelho foi interrompido neste ponto por uma voz rouca e tremula, que partia do meio da rua. - É a voz de Jeronimo – disse ele.
Todos correram à sacada.
- Ali vem ele – disse o musico.
Querem a perturbação, o sangue, a morte? Dizia o marchante. Pois hão de ter todas estas calamidades. Sou o procurados do povo de Goiana. Ainda há pouco vos dizia eu que da nobreza só tínhamos que esperar desdens e despotismos. Agora já posso acrescentar que temos também que esperar o assassinato às escurinhas e traiçoeiramente. Não me mataram; apenas feriram-me no ombro; mas a morte dos que defendem os direitos do povo e a autoridade real, essa eles a têm decretado como meio de consolidarem o seu poder, filho da violência e do artificio. São réus de crime de primeira cabeça. Ah! o que nos fazem – tenham certeza – não o botam em saco roto.
Antes de ser ferido pelo tiro que lhe foi disparado por mão até hoje desconhecida, Jeronimo Paes tinha já encaminhado parte do povo para o movimento insurrecional.
Quando chegou à botica, ainda estava ai o Ricardo perorando em favor da nobreza. Ricardo era um rapaz de condição obscura, que à proteção de um nobre devia certo emprego de que vivia. Não tendo podido completar a carreira sacerdotal, que encetara em vida do pai, viu-se obrigado, por morte deste, a voltar à Goiana onde esperava por ele a família acéfala.
Jeronimo não teve para ele a menor cortesia na linguagem, e muito menos no gesto.
- Tuas palavras são suspeitas, rufião – disse ele ao rapaz, rudemente, mostrando-lhe um punho cerrado. Cada uma delas representa uma das migalhas com que teu protetor te matou a fome, dando-te o emprego que tens. Disseste há pouco que não temos nem armas nem dinheiro. Enganas-te, vilão. Em nossos armazéns temos armas para levantar a vila inteira contra a nobreza sem freio que jurou aniquilar-nos. Quanto a dinheiro, olha daí, e dize lá se já viste rosas tão bonitas como estas que me caíram das alturas.
Assim falando, Jeronimo Paes fez saltar as dobras ao ar e as aparou com o açafate.
Ao sonido das moedas, um sem-número de mãos se estendem para sua banda, e diferentes vozes dizem à porfia:
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.