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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Empalideci. E pareceu-me que nenhuma vantagem espiritual obteria minha alma, nenhuma inesperada aquisição enriqueceria o saber de Topsius - por irmos contemplar no alto de um morro, entre urzes, Jesus atado a um madeiro e sofrendo; era apenas um tormento para a nossa sensibilidade. Mas, submisso, segui o meu sapiente amigo pela escadaria das águas, que leva ao largo lajeado de basalto onde começam as primeiras casas de Acra. Vizinhas do santuário, habitadas por sacerdotes, elas ostentavam uma profusa devoção pascal, em palmas, lâmpadas, alcatifas penduradas dos eirados; e algumas tinham os umbrais salpicados com sangue fresco de um anho.

Antes de penetrar numa sórdida, andrajosa rua que se ia torcendo sob velhos toldos de esparto, voltei-me para o templo; agora só via a imensa muralha de granito, com bastiões no alto, sombria e inderrubável; e a arrogância da sua força e da sua eternidade encheu de cólera o meu coração. Enquanto sobre uma colina de morte, destinada aos escravos, o homem de Galiléia incomparável amigo dos homens, arrefecia na sua cruz, e para sempre se apagava aquela pura voz de amor e de espiritualidade - ali ficava o templo que o matava, rutilante e triunfal, com o balar dos seus gados, o estridor dos seus sofismas, a usura sob os pórticos, o sangue sob as aras, a iniqüidade do seu duro orgulho, a importunidade do seu perene incenso... Então, com os dentes cerrados, mostrei o punho a Jeová e à sua cidadela, e bradei:

- Arrasados sejais!

Não descerrei mais os lábios secos até chegarmos à estreita porta nas muralhas de Ezequiá, que os romanos denominavam a Judiciária. E logo aí estremeci, vendo colado num pilar de pedra um pergaminho com três sentenças transcritas - "a de um ladrão de Betebara, a de um assassino de Emá, e a de Jesus de Galiléia!" O escriba do Sanedrim, que conforme à lei ali vigiara para recolher, até que os condenados passassem, algum inesperado testemunho de inculpabilidade, ia partir, com os seus tabulários debaixo do braço, depois de traçar sobre cada sentença um grosso risco vermelho. E aquele corte final, cor de sangue, passado à pressa por um escriturário que recolhia contente à sua morada, a comer o seu anho, comoveu-me mais que a melancolia dos livros santos.

Sebes de cactos em flor bordavam a estrada; e para além eram verdes outeiros onde os muros baixos de pedra solta, vestidos de rosas bravas, delimitavam os hortos. Tudo ali resplandecia, festivo e pacífico. À sombra das figueiras, debaixo dos pilares das parreiras, as mulheres, encruzadas em tapetes, fiavam o linho ou atavam os ramos de alfazema e mangerona que se oferecem na Páscoa; e crianças em redor, com o pescoço carregado de amuletos de coral, balouçavam-se em cordas, atiravam à seta... Pela estrada descia uma fila de lentos dromedários, levando mercadorias para Jopé; dous homens robustos recolhiam da caça, com altos coturnos vermelhos cobertos de pó, a aljava batendo-lhes a coxa, uma rede atirada para as costas, e os braços carregados de perdizes e de abutres amarrados pelas patas; e diante de nós caminhava devagar, apoiado ao ombro de uma criança que o conduzia, um velho pobre, de longas barbas, trazendo presa ao cinto como um bardo a lira grega de cinco cordas, e sobre a fronte uma coroa de louro...

Ao fundo de um muro, coberto de ramos de amendoeiras, diante de uma cancela pintada de vermelho, dous servos esperavam, sentados num tronco caído, com os olhos baixos e as mãos sobre os joelhos. Topsius arou, puxou-me o albornoz:

- E este o horto de José de Ramata, um amigo de Jesus, membro do Sanedrim, homem de espírito inquieto, que se inclina para os essênios... E justamente, aí vem Gade.

Do fundo do horto, com efeito, por uma rua de murta e rosas, Gade descia correndo com uma trouxa de linho e um cabaz de vimes enfiados num pau. Paramos.

- O Rabi? – gritou-lhe o alto historiador, transpondo a cancela.

O essênio entregou a um dos escravos a trouxa, e o cesto que estava cheio de mirra e de ervas aromáticas; e ficou diante de nós um momento, trêmulo, sufocado, com a mão fortemente pousada sobre o coração para lhe serenar a ansiedade.

- Sofreu muito! - murmurou, por fim. - Sofreu quando lhe trespassaram as mãos... Mais ainda ao erguer da cruz... E repeliu primeiro o vinho de misericórdia, que lhe daria a inconsciência... O Rabi queria entrar com a alma clara na morte por que chamara!... Mas José de Ramata, Nicodemo, estavam lá vigiando. Ambos lhe lembraram as cousas prometidas uma noite em Betânia... O Rabi então tomou a malga das mãos da mulher de Rosmofim, e bebeu.

E o essênio, pregados em Topsius os olhos reluzentes, como para cravar bem seguramente na sua alma uma recomendação suprema, recuou um passo e disse com uma grave lentidão:

- À noite, depois da ceia, no eirado de Gamaliel...

(continua...)

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