Por Eça de Queirós (1878)
Ela ria, meio despida, com um riso cantado e libertino.
- Lili adora Bibi!... É doida por Bibi!
E queria saber se pensava nela; o que tinha feito na véspera. Fora ao Grêmio; jogara uns robbers, viera para casa cedo; sonhara com ela...
- Vivo para ti, meu amor, acredita!
- E deixava-lhe cair a cabeça no regaço, como sob uma felicidade excessiva.
Outras vezes, mais sério, dava-lhe certos conselhos de gosto, de toalete: pedira-lhe que não trouxesse postiços no cabelo, que não usasse botinas de elástico.
Luísa admirava muito a sua experiência do luxo; obedecia-lhe, amoldava-se suas idéias: - até afetar, sem o sentir, um desdém pela gente virtuosa, para imitar as suas opiniões libertinas.
E lentamente, vendo aquela docilidade, Basílio não se dava ao incômodo de se constranger; usava dela, como se a pagasse! Acontecera uma manhã escrever-lhe duas palavras a lápis que não podia ir ao Paraíso, sem outras explicações! Uma ocasião mesmo não foi, sem a avisar - e Luísa achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou pela fechadura, esperou palpitante - e voltou muito desconsolada, quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar.
Não aceitava o menor incômodo, nem para lhe causar um contentamento. Luísa tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos à sua casa, passar a noite; viriam Sebastião, o Conselheiro, D. Felicidade quando estivesse melhor; era uma alegria para ela, e depois dava às suas relações um ar mais parente, mais legítimo.
Mas Basílio pulou:
- O quê! Ir cabecear de sono com quatro caturras... Ah! Não!...
- Mas conversa-se, faz-se música...
- Merci! Conheço-a, a música das soirées de Lisboa! A Valsa do Beijo e o Trovador. Safa!
Depois duas ou três vezes falara de Jorge com desdém. Aquilo ofendera-a.
Ultimamente mesmo, quando ela entrava no Paraíso, já não tinha a delicadeza amorosa de se levantar alvoroçado: sentava-se apenas na cama, e tirando preguiçosamente o charuto da boca:
- Ora viva a minha flor! - dizia.
E um ar de superioridade quando lhe falava! Um modo de encolher os ombros, de exclamar: "Tu não percebes nada disso!" Chegava a ter palavras cruas, gestos brutais. E Luísa começou a desconfiar que Basílio não a estimava, apenas a desejava!
Ao princípio chorou. Resolveu explicar-se com ele, romper se fosse necessário. Mas adiou, não se atrevia: a figura de Basílio, a sua voz, o seu olhar dominavam-na; e acendendo-lhe a paixão tiravam-lhe a coragem de a perturbar com queixas. Porque estava convencida então que o adorava; o que lhe dava tanta exaltação no desejo, se não era a grandeza do sentimento?... Gozava tanto, o amava muito!... E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se neste raciocínio sutil.
Ele tinha às vezes uma secura áspera de maneiras, era verdade; certos tons de indiferença, era certo... Mas noutros momentos, quantas denguices, que tremuras na voz, que frenesi nas carícias!... Amava-a também, não havia dúvida. Aquela certeza era a sua justificação. E como era o amor que os produzia, não se envergonhava dos alvoroços voluptuosos com que ia todas as manhãs ao Paraíso!
Duas ou três vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia também apressada o Moinho de Vento.
- De onde vinha você? - perguntara-lhe em casa.
- Do médico, minha senhora, fui ao médico.
Queixava-se de pontadas, palpitações, faltas de ar.
- Flatos! Flatos!
Com efeito, Juliana agora fazia todos os arranjos pela manhã; depois apenas Luísa, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito espartilhada no seu vestido de merino, de chapéu e sombrinha, vinha dizer a Joana:
- Até logo, vou ao médico.
- Até logo, Sra. Juliana - dizia a cozinheira radiante.
E ia logo fazer sinal ao carpinteiro.
Juliana descia por São Pedro de Alcântara, e tomando para o Largo do Carmo ia à ruazita, defronte do quartel. Ali morava num terceiro andar a sua íntima amiga, a tia Vitória.
Era uma velha que fora inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancela, numa placa de metal, com letras negras: "VITÓRIA SOARES, INCULCADEIRA". Mas nos últimos anos a sua indústria tornou-se mais complicada, muito tortuosa.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.