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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

E pensa que, por condenar estes amores triviais, eu me absol vo a mim? Não. Apesar de ter amado um homem de todo o ponto excelente, cuja superioridade de espírito o meuprimo conhecia e amava, de uma distinção tão perfeita e tão completa; posto que a nossa afeição tivesse vivido num meio tão elevado, tão nobre, tão altivo — apesar de tudo, eutenho-me por tão condenável como aquelas de quem falei — e julgando-me sem justiça e fora da graça faço penitência diante do mundo. IV

E quanto, quanto sofri então, na modéstia da minha vida, no apartamento do meusegredo! Quanto desejei ser uma pobre costureira que leva o seu filho pela mão! Dentro do meu coupé, puxado a largo trote à saída do teatro, en volvida num cachemire, com uma pele de marta nos pés, e um aro ma doce na seda das almofadas,quantas vezes invejei as pequenas burguesas que saíam das torrinhas, embrulhadas em disformes mantas de agasalho, pisando a lama!No dia em que recebia as cartas dele, saía de Lisboa, fugia, ia para o campo! Levavaas, amarrotadas e beijadas, ia para a quin ta de..., penetrava nas sombras espessas, ali ficava longo tempo, envolta no calor tépido do sol, entorpecida pelo rumor sereno das ramagens, epelo murmuroso correr da água nas bacias de pedra!

Oh doce vida das árvores e das plantas! passividade da relva, irresponsabilidade daágua, pacífico sono dos musgos, suave pousar da sombra! Quantas vezes me consolastes, e me ensinastes a sofrer calada! Quantas vezes invejei a imobilidade do vosso ser!

Era ali só, relendo essas cartas cruéis, que eu sentia o amor da quele homem fugir-mecomo a água de um regato que se quer to mar entre os dedos.

Que me restaria então?Voltar outra vez à serenidade legítima da vida? Não podia, ai de mim! Estava para sempre expulsa do paraíso pacífico da famí lia, da casta sombra do dever. Lançarme nas aventuras e na re volta? Meu Deus! Isso repugnava-me tanto ao meu carácter como ocontacto de um animal viscoso à pele do meu peito.

Ficava, pois, sem situação na vida. Não tinha nela um lugar de finido. Entrava nessa legião dolorosa e tristemente miserável — das mulheres abandonadas-A minha única honestidade agora devia ser conservar-me ca tiva daquele sentimento. A minha única absolvição estava na ver dade da minha paixão. Quanto mais me separasse domundo e me desse ao meu amor; mais me aproximava da dignidade. Nas situa ções definidas e corajosas há sempre um lado honesto; o que repug na ao instinto casto são as conciliaçõ es hipócritas. A posição que me restava, o dever que me restava, a virtude que me restava, eraser de Rytmel, só dele e para sempre: e eu sentia que ele se ia len tamente afastando de mim como eu me afastava de meu marido.Era a minha entrada na expiação.

Nestes amores, o castigo não vem só do mundo: eles mesmo contêm os elementos da justiça cruel. O coração é o primeiro castigado pela mesma paixão. A punição da falta contraa honra vem mais tarde pelos juízos dos homens.

Eu estava diante da maior miséria moral em que se pode encon trar uma mulher nestascondições lamentáveis. Eu amava Rytmel, Rytmel queria casar. Que faria, meu Deus? Iria em nome da minha paixão desviar aquela existência dehomem, da linha natural, simples, humana, que leva ao casamento, à família, ao dever?

Devia eu impedir que ele casasse? Mas não era isto impedir, abafar a legitimaexpansão da sua vida? Não era proscrevê-lo das fecundas e serenas alegrias da família, para o ter preso nos áspe ros, nos estéreis sobressalto e de uma paixão romântica?

Tinha eu o direito de sequestrar aquele homem para uso exclu sivo do meu coração,encarcerá-lo dentro de uma ligação ilegítima e secreta, onde ele se esterilizaria, onde os seus talentos e as suas qualidades se enferrujariam como armas inúteis, e toda a sua acção socialse limitada a seguir o frufru dos meus vestidos? Não dava isto ao meu sentimento um aspecto de egoísmo animal? Não tirava isto ao meu amor a melhor qualidade: a virtude do sacrifício?

Poderia eu privá-lo de ter um dia os filhos, que fossem a conti nuação do seu ser e a sua imortalidade? Podia eu privá-lo em nome do meu ideal de ter na velhice aquela doce e branca companheira, sob cujo olhar pacífico, o homem justo espera, sossegado, o nobremomento da morte?

E era só isto?... Pode um espírito sincero acreditar na duração destes amores exaltados, feitos de sensibilidades e de martírios, que não têm o dever por base, e têm a traição pororigem? E por dois ou três anos mais que esta aventura continuaria, tinha eu o direito de ir quebrar o destino da outra, dela, pobre rapariga, que o amava, que edificava a sua vida sobreo coração dele, que se preparava para ser no lar, e para sempre, a presença da graça e a consciência viva? Não: isto não podia ser.

Mas por outro lado, era justo que eu, tendo sacrificado por ele tudo, desde o pudorintimo até à honra social, fosse agora arremes sada como uma luva velha?



(continua...)

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