Por Eça de Queirós (1901)
-Um teatro, não. Mas tenho a idéia duma sala, com projeções de lanterna mágica, para ensinar a esta pobre gente as cidades desse mundo, e as coisas de África, e um bocado de História.
E também me ensoberbeci com esta inovação! – e quando a contei ao tio Adrião, o digno antiquário bateu, apesar do seu reumatismo, uma palmada tremenda na coxa. “Sim, senhor! Bela idéia! Assim se podia ensinar àquela gente iletrada, vivamente, pôr imagens, a História Romana, até a História de Portugal!...” E voltado para a prima Joaninha, o tio Adrião declarou um “homem de coração!”
E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Príncipe. Naquele, “guarde-o Deus, meu senhor!” com que as mulheres ao passar o saudavam, se voltavam para o ver ainda, havia uma seriedade de oração, o bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As crianças a quem ele distribuía tostões farejavam de longe a sua passagem – e era em torno dele um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, já não tinham medo. Como o cavalo de Jacinto uma tarde se chapara, ao desembocar da alameda, numas grossas pedras que aí deformavam a estrada, logo ao outro dia um bando de homens, sem que Jacinto o ordenasse, veio pôr dedicação ensaibrar e alisar aquele pedaço perigoso de caminho, aterrados com o risco que correra o bom senhor. Já pela serra se espalhava esse nome de “bom senhor”. Os mais idosos da freguesia não o encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos desdentados:
-Este é o nosso benfeitor! Pôr vezes, alguma velha corria do fundo do eido, ou vinha à porta do casebre, ao avistá-lo no caminho, para gritar, com grandes gestos dos braços magros: “Ai que Deus o cubra de bênçãos! Que Deus o cubra de bênçãos!”
Aos domingos, o padre José Maria (bom amigo meu e grande caçador) vinha de Sandofim, na sua égua ruça, a
Tormes, para celebrar a missa na Capelinha. Jacinto assistia ao ofício na sua tribuna, como os Jacintos de outras eras, para que aqueles simples o não supusessem estranho a Deus. Quase sempre então ele recebia presentes, que as
filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe à varanda, e eram vasos de manjericão, ou um grosso ramalhete de cravos, e pôr vezes um gordo pato. Havia então uma distribuição de cavacas e merengues de
Guiães, às raparigas e às crianças – e, no pátio, para os homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silvério já sustentava com espanto, e redobrado respeito, que o Sr. D. Jacinto em breve disporia de mais votos nas eleições que o
Dr. Alípio. E eu próprio me impressionei, quando o Melchior me contou que o João Torrado, um velho singular daqueles sítios, de grandes barbas brancas, ervanário, vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador misterioso duma cova no alto da serra, a todos afirmava que aquele senhor era El-Rei D. Sebastião, que voltara!
XII
Assim chegou Setembro, e com ele o meu natalício, que era a 3 e num Domingo. Toda essa semana a passara eu em Guiães, nos preparos da vindima – e de manhã cedo, nesse Domingo ilustre, me fui debruçar da varanda do quarto do saudoso tio Afonso, vigiando a estrada, pôr onde devia aparecer meu Príncipe, que enfim visitava a casa do seu Zé Fernandes. A tia Vicência, desde a madrugada, andava atarefada pela cozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Príncipe “o pessoal” da serra, convidar para jantar algumas famílias amigas, dos arredores, as que tinham carruagens ou carroções, e podiam, pelas estradas mal seguras, recolher tarde, depois dum bailarico campestre, no pátio, já enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas. Mas logo às dez horas me desesperei, ao receber, pôr um moço da Flor da Malva, uma carta da prima Joaninha, em que dizia “a pena de não poder vir porque o Papá estava desde a véspera com um leicenço, e ela não o queria abandonar”. Corri indignado à cozinha, onde a tia Vicência presidia a um violento bater de gemas de ovos dentro duma imensa terrina.
-A Joaninha não vem ! Sempre assim! Diz que o pai tem um incenço... Aquele tio Adrião escolhe sempre os grandes dias para Ter leicenços, ou para Ter a pontada...
A boa face redondinha e corada da tia Vicência enterneceu-se.
-Coitado! Será em sítio que não se pudesse sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, diz-lhe que ponha um emplastrozinho de folhas de alecrim. Era com que teu tio se dava bem.
Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao burro no pátio:
-Diz à Srª D. Joaninha que sentimos muito... Que talvez eu lá apareça amanhã.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.