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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— Idem, idem, atalhou o Perneta embaralhando as cartas. Essa é a minha opinião.

— E que fosse verdade, continuou João da Mata partindo o baralho, e que fosse verdade, não era da conta de ninguém!

— Que dúvida! confirmou o Guedes.

— Mando copas, rosnou a amanuense.

E o jogo continuou sem que o Guedes soubesse a verdade.

Mas, ao retirarem-se cerca de meia-noite, interpelou novamente o amanuense na esquina, à luz de um lampião. João da Mata cambaleava, equilibrando-se, a praguejar contra o calçamento das ruas e contra a Câmara Municipal. A rua do Trilho perdia-se na escuridão, silenciosa como um subterrâneo.

O Guedes tinha tomado pouco nessa noite e fumava o seu cigarro com um grande ar de superioridade, pisando forte, o gesto largo e o paletó aberto num abandono frouxo de boêmio.

— Cuidado, não vá cair, avisava com as mãos nos ombros do outro.

— Qual cair nada, homem! Pensas tu que estou bêbado, hein? Estás muito enganado! O diabo dos óculos escuros é que não me deixam ver bem...

— Por aqui, por aqui, guiava o Guedes, cauteloso. Espera, vais fumar um cigarrinho fino...

Pararam. Um polícia passou do outro lado da rua, sonolento e lúgubre.

Então o redator da Matraca abraçando o amigo pelo pescoço, depois de lhe ter dado o lume:

— Tu não me quiseste ser franco ainda agora na presença do Perneta, mas nós somos amigos... tu sabes... Aonde diabo meteste tu a rapariga?

João cuspinhou para o lado.

— Hein?

— A Maria do Carmo, onde anda ela?

— Ah! seu marreco, você quer saber onde está a rapariga, hein? Pois não lhe digo, não...

— Fala sério, homem. Dizem que está no Cocó, que teve um filho?... Juro-te como esta boca não se abrirá... Sentemo-nos aqui um pouquinho, que ainda não deu meia-noite.

Sentaram-se à beira da calçada, debaixo do gás, e o amanuense, encostando-se à coluna do lampião, o chapéu, o inseparável chile enterrado na cabeça, foi dizendo à meia voz.

— A coisa não é como se diz, seu Guedes, a verdade é esta, que eu lhe confio, porque sei que você é meu amigo: a menina está no Cocó, mas ainda não teve a criança...

— Ah!

— Sim, quero dizer, você bem sabe o que eu quero dizer...

O Guedes era todo ouvidos.

Luziam-lhe os bugalhos no fundo das órbitas, parados, imóveis, caindo sobre o amanuense com a fixidez de clarabóias de vidro. Sentia um prazer especial, uma comoçãozinha esquisita, um extraordinário bem-estar ao ouvir a história, a verdadeira história do escândalo, narrada por João da Mata, pela própria boca do padrinho da rapariga, gente de casa, testemunha ocular.

Encolhia-se todo de gozo, ante aquelas maravilhosas palavras do amanuense.

— E o pai?

— Que pai? O pai morreu no Pará...

— Não, homem, o pai da criança...

— Sim... o pai da criança, o Zuza? Pois não se foi embora para o Recife? Aquilo é um infame, um biltre.... Eu cá previa tudo quando proibi formalmente que a pequena lhe mostrasse o nariz, logo a princípio, mas que querem? encontravam-se na Escola Normal, no Passeio Público, e, afinal, foi o que resultou...

Soaram doze badaladas graves e dormentes na Sé. João contou uma a uma.

— Meia-noite, seu compadre, vou-me embora, adeus. Perdi hoje tanto como dez pintos.

E separaram-se friamente, como dois desconhecidos.

Perto de casa o amanuense esbarrou com um vulto que se movia no escuro — era um burro, o pobre animal babujava a rama da coxia, solitário e mudo. Uma vez senhor do segredo, o Guedes não se conteve, disse-o ao ouvido do Perneta e com pouco ninguém ignorava na cidade “que a normalista do Trilho fora desembuchar, ao Cocó, um filho do Zuza”.

— Do Zuza!? exclamou o José Pereira ao saber a novidade na redação da Província, pela manhã.

— Sim, do Zuza, confirmou o Castrinho pousando a pena atrás da orelha. É o que diz o público, Vox populi... — E esta!

José Pereira arrepanhou as abas da sobrecasaca, e, passeando o olhar sobre a banca de trabalho, onde destacavam dois grandes dicionários de Aulete, sentouse vagarosamente, voltando para o poeta.

— Admira-se você, tornou este. Oh! homem, pois um fato que toda a gente previa!...

O outro recomendou que falasse mais baixo por causa dos tipógrafos...

E o Castrinho, à meia voz, estrangulado por uns colarinhos extraordinariamente altos:

— Qual! O fato está no domínio público, não há por aí quem não o saiba. Dizem que o velho Souza Nunes só falta perder a cabeça.

Em todo caso sempre era prudente guardar certo sigilo, negar mesmo, se possível fosse, uma vez que se tratava da reputação do Zuza...

Meninos de bolsa a tiracolo questionavam com o agente da folha, do outro lado do tabique que dividia a sala da redação e onde se viam empilhamentos de jornais sobre uma velha mesa gasta.

(continua...)

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