Por Inglês de Sousa (1891)
Padre Antônio também não se sentia a gosto, forçado a repousar na montaria, porque a ardente preocupação com que deixara o sítio de Guilherme não lhe dera a calma necessária para cuidar em todos os preparativos duma viagem que devia durar muitos dias por inóspitas regiões, e agora, naquela noite cálida de agosto, à margem alagadiça daquele trecho do Canumã, sem cômodo e sem abrigo, começava a convencer-se de que os inumeráveis inimigos do sossego noturno, de diversas espécies e famílias, mudos e canoros, visíveis ou ocultos, venenosos ou simplesmente incômodos que estavam perseguindo atrozmente o pobre Macário, nem sequer lhe permitiriam a ele uma meditação profunda e tranqüila. Os mosquitos, os carapanãs, os piuns, as muriçocas, os pernilongos atiravam-se com uma gana desenfreada à iguaria rara e delicada daquela epiderme branca e daquele sangue ardente, parecendo buscar na fácil empresa uma compensação da luta velha contra a pele grossa, oleosa e repintada do caboclo que habita os seus domínios. Não havia meio de dormir ou sequer estar quieto, com as ferroadas agudas dos sanguinários bichinhos que lhe deixavam no corpo ampolas e inflamações de mau agouro.
A noite corria plácida e serena, iluminada pelo brilho vivíssimo das estrelas. O calor era intenso, cessara a viração do mar por volta de oito horas, as águas do rio corriam mansamente, arrastando grandes troncos de árvore e periantãs flutuantes. Ao longe, na floresta, ouvia-se o urro da onça errante e faminta, cruzando-se de modo estranho, num contraste frisante, com o zumbido prolongado de milhares de milhões de carapanãs vorazes.
Macário cansado de agitar o corpo em todos os sentidos arrancara a camisa de riscado, e dava fortes palmadas nas costas, no peito, na testa, nas faces e no querido lombinho para matar os insetos que o torturavam. O sacristão lamentava-se amargamente. Logo ao chegar àquele miserável lugar um asqueroso puraquê o sacudira violentamente obrigando-o a enterrar a cara na lama da beira do rio. A eletricidade do peixe abalara-lhe os nervos, excitando-lhe o mau humor que já de véspera trazia contra padre Antônio de Morais e a sua louca empresa. A necessidade da fogueira para' evitar a aproximação das cobras, avivando-lhe a idéia do perigo a que se expunha, e ainda o urro longínquo da onça, que já lhe parecia estar a pequena distância, aumentavam-lhe a antipatia pela situação a que o forçara o receio absurdo de desobedecer ao senhor vigário. E agora, por mal dos seus pecados, por cúmulo de desgraças, os miseráveis insetos, teimando na cruenta lida de sugar-lhe o sangue todo, acabavam de esgotar-lhe a paciência, a santa paciência de que ele sempre timbrara nas épocas mais difíceis da sua acidentada existência.
Caía de sono, apesar de haver cochilado durante o dia sob os castanheiros, à moda dos pastores de Virgílio, como dizia o padre José, sempre que fazia a sua soneca debaixo da mangueira do sítio da Chiquinha do Urubus. O que provava que o tal Virgílio era um patrão acomodatício. Não podia dormir porque não lhe consentiam os carapanãs e as muriçocas! Que noite, senhor Deus, que noite aquela, de que' se lembraria toda a vida, ainda que vivesse cem anos, porque nunca passara uma noite assim nos trinta e cinco anos de moradia neste vale de lágrimas! Também quem o mandara meter-se naquela maluquice de padre Antônio de Morais?
Bem sossegadinho podia Macário estar àquela hora, dormindo o seu sono na sua rede americana na casinha de Silves... em vez disso, matava mosquitos! Ai, quem ele queria pilhar ali era o pateta do Valadão, que se gabava de não matar um carapanã! Por mal dos pecados nem sequer tinha uma rodela de tabaco, nem uma folha de tauari! Se ao menos pudesse fumar, talvez se distraísse, e sempre se defenderia daquela súcia de carapanãs de má morte. Indignava-se contra os tapuios que lhe haviam furtado o chicote de cheiroso tabaco com que contava regalar-se nas paragens de Guaranatuba. Rebelava-se contra padre Antônio, o causador único de todas aquelas desgraças, e suspirava triste e amargurado. Quem diabo metera na cabeça de S. Rev.ma a idéia de vir àquele sertão em busca de gentios para converter? Pensar que poderia ter ficado no sítio de Guilherme, a esperar que voltasse da pescaria, lá estava a tia Teresa para o divertir, que antes ela, apesar das tetas pendentes, do que aqueles safados carapanãs que o estavam forçando a duvidar de Deus. Mas qual! tivera pena do idiota do padre, pensando que se meteria sozinho na rascada! O Sr. Macário de Miranda Vale tivera pena de padre Antônio de Morais, que não era seu filho, nem seu irmão, nem nada!
— Forte besta, o Sr. Macário! dizia sacudindo-se todo como um endemoninhado no desespero de um novo ataque de piuns que lhe caíam em nuvem sobre as costas e o peito. E no auge da aflição, com violência crescente exclamava, batendo com os punhos no coxim de folhagem: — Burro, burro, burro!
Padre Antônio mal acomodado no único banco da montaria, começava a pensar que a empresa não era tão fácil como a princípio parecera ao seu ardor entusiástico. Já o impacientava a repetição das contrariedades da viagem que lhe tinha feito passar desapercebidas a preocupação do grande objetivo. A sua natureza exaltada e de repentes, irritava-se com os pequenos obstáculos, obrigando-o a desviar o pensamento da elevada missão a que se destinava.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.