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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

— Quando o casamento traz este resultado, não há dúvida de que é uma delícia. Se eu encontrasse uma mulher, que por suas grandes qualidades tão valiosa prova oferecesse em favor do casamento, decididamente casava-me por que já me vai parecendo triste demais a solidão que reina em minha alma desde os primeiros anos da juventude.

— Na sua idade, é realmente para admitir que o coração ainda esteja sem o ídolo de que precisa para ser o verdadeiro templo da vida.

— Pois é verdade. Tenho ainda inteiro e virgem o meu amor; e conjeturo que será fácil àquela que se tornar digna dele exercer sobre mim a maior das tiranias; porque o meu amor tem em si todos os meus afetos, toda a minha alma.

Compreendendo os perigos desta conversação, Maurícia, que ia sentindo pelo bacharel afeição que a assustava, disse-lhe como para dissuadi-lo de prosseguir o caminho que haviam encetado.

— Parece que já não chegaremos com luz do dia à cajazeira. Está escurecendo rapidamente.

— Pois então voltemos, D. Maurícia – respondeu Ângelo.

— A estrada está perto, não?

— Está aqui, a nossa direita, obra de cem passos. Parece-nos estar mais longe, pelas sombras das árvores, que não nos deixam ver com exatidão a distância. — Vamos à Conceiçãozinha. Talvez já encontremos os noivos.

— Podemos atalhar o caminho por estes cajueiros. A cerca ali adiante está quebrada, e oferece fácil saída.

Ângelo não se enganara. Em poucos minutos, chegaram ao boqueirão. Na largura de uma braça, a cerca estava de fato aberta; mas a vara inferior, na altura dos joelhos de um homem, mostrava-se ainda suspensa pelos cipós que a traziam presa às estacas. Ângelo, apoiando-se sobre a vara, atravessou da outra banda, e daí ofereceu a mão à Maurícia para a ajudar a transpor a cerca. Mal tinha ela posto o pé na travessa, quando deu um grito, que não parecia arrancado somente pelo susto, mas também pelo terror; e, em vez de passar para o outro lado, recuou amedrontada e meteu-se por trás do tronco de um cajueiro próximo, como quem queria ocultar-se.

Ângelo, assustado, acudiu logo:

— Meu Deus? Que é que tem, D. Maurícia?

Esta respondeu, como quem cobrava os espíritos que um momento a tinham desamparado:

— Desculpe-me, Sr. Dr. Ângelo, Não tenho nada, não foi nada.

— Mas por que deu este grito?

Ângelo já estava ao pé de Maurícia, e ambos quase ocultos pela folhagem do cajueiro.

— Eu poderia dizer-lhe que tinha sentido uma cobra passar por cima dos meus pés, e tudo estaria explicado; mas não seria esta a verdade.

— Diga então o que foi.

Ângelo estava profundamente impressionado. Tinha ainda na sua a mão de Maurícia, e lhe sentia o frio e o tremor, conseqüências da violenta impressão.

— Estou deveras assustada, Sr. Dr. Ângelo. Veja como me bate o coração. Não vi uma cobra, vi um demônio.

Assim falando, ela levou a mão do bacharel ao seu peito e a apertou contra ele. Ângelo, através da onda de cambraia e rendas, sentiu as pulsações violentas desse coração que ele desejara pulasse, não de susto, mas de amor por ele.

— Mas o que foi que lhe ocasionou tamanho susto?

— Quando o senhor me estendia a mão para me ajudar a sair, não sentiu passar pela estrada um homem?

— Sim, sim; ele ainda ali vai.

— Nunca em vi em homem algum tamanha semelhança com meu marido.

— Com seu marido! exclamou o bacharel sentindo fel nos lábios. Meu Deus!

Tal não diga, por quem é. Seria a maior das desgraças.

— Para mim não há dúvida que seria isso o maior dos infortúnios.

— E para mim também - acrescentou o bacharel; por que... Oh, eu não devia dizê-lo, mas não está em mim prender no coração, como se prende uma cobra dentro de um frasco, o sentimento que a senhora veio despertar nesta morada de solidão e trevas.

— Saiamos já, Sr. Dr. Ângelo, disse Maurícia, como quem não tinha ouvido aquela perigosa revelação. E voltemos antes para casa; já não quero ir com as meninas da capela.

Do lado de fora, a estrada estava deserta como dentro do sítio.

— Havia de ser ilusão sua, minha senhora, disse Ângelo, oferecendo o braço a Maurícia. O homem que passou parece-me ser um que mora aqui adiante.

(continua...)

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