Por Franklin Távora (1878)
- Não tenho filho. Tratarei deste desgraçado que não tem quem por ele se doa. Farei conta que é meu filho. Espero em Deus que me há de ajudar a fazer dele um homem que sirva a gente.
Sem saber explicar como nem porque, Francisco sentia-se satisfeito com o presente que levava á sua mulher, não obstante os prantos e os uivos de que Lourenço ia enchendo o caminho no ultimo desespero.
III
Uma légua antes de Goiana, a estrada geral que vai do Recife á Paraíba, atravessa um lugar de presente aumentado, mas ao tempo desta historia apenas formado de uma casa de barro, e duas ou três palhoças espalhadas não longe dela, por dentro dos matos circunvizinhos, sem regular alinhamento, a uso das casas que, para assim escrevermos, se improvisam nas entranhas das florestas.
A casa de barro ficava á embocadura da mata de Bujari, a qual por então tinha, não como hoje, meia légua, mas quase uma de comprido. O lugar supramencionado, já nesse tempo aprazível e risonho, era alguns anos antes um como prolongamento dessa mata, menos fechado – é certo - , mas não menos ermo e desabitado do que ela. De um cajueiro velho que se mostrava, na beira do caminho, ao que saia da espessura, adveio-lhe o nome, que hoje designa o lugar, e tem por se a autoridade da consagração do povo e do tempo.
Fizera-se subitamente a transformação daquela seção da floresta como nos contos antigos mudam as situações ao puro querer de um gênio ou de uma fada. Eis como a coisa se deu.
Um matuto passando por ali, de jornada para Tejucupapo, ficou encantado pela amenidade e beleza da situação. Do cajueiro para dentro estendia-se larga planície coberta de arvores meãs, sombrias e graciosas. Em arvores semelhantes há algum tanto das donzelas faceiras e namoradas com que se arreiam os salões e que são as graças mimosas do lar. Era o intermédio entre a espessura úmida e medonha, e a campina nua, fresca, monótona, que se seguia á planície adornada com a vegetação moderada e pitoresca. Emgim era, em escala ascendente, a transição natural para a mata virgem.
Na volta entendeu-se o matuto (que não era outro senão Francisco) com o senhor do engenho Bujari a quem as terras pertenciam, e que consentiu em que ele levantasse casa de morada e abrisse roçado.
Francisco cortou madeiras, aparelhou-as e arrumou a casa ao pé do cajueiro. Havia barro perto. As palmeiras mais formosas daquela zona estavam agitando suas longas folhas verde-negras na espessura vizinha. Enfim, em menos de uma semana, aqueles que, de passagem para o Recife, tinham visto a casa apenas envarada ou encaibrada, vinham encontra-la agora fechada e coberta; e os que, tendo passado por ali antes destes últimos, voltavam ao mesmo tempo que eles da capital, ficavam admirados e satisfeitos de verem uma habitação nova e risonha, onde quinze dias atrás tinham deixado a solidão e o mato fechado.
Esta novidade era obra das mãos abençoadas de Francisco, homem de trabalho e paciência.
Forte de constituição física; ajudado, senão animado, pela energia de seu espirito; afeito desde os mais verdes anos a ganhar pela força de vontade, que era o seu primeiro dote natural, a vida honesta, os dias suados mas tranqüilos, as noites sem remorso, o sono solto e largo, estava o matuto habilitado a levar efeito prodígios semelhantes, e outros ainda maiores e mais admiráveis.
Francisco era semi-branco, corpulento, espadaúdo e de boa estatura. Tinha no semblante a expressão da virilidade e da resignação do que luta quase incessantemente com a pobreza, e a vence a pouco, por ventura mais forte, mas nunca invencível.
Os matutos podem dividir-se em diferentes espécies, mas as mais comuns são as dos lavradores e almocreves. Os primeiros são os que dispõem de alguns meios, a saber, escravos, cavalos, terras, os quais sem darem para ter um engenho ou, ao menos, para move-lo, por se sós habilitam o que os possuem, a cultivar a cana nas terras do engenho alheio, posto que sujeito a dividir com o respectivo proprietário o açúcar apurado em cada safra. Os últimos são os que se alugam com sua pessoa e seu cavalo para a condução de cargas, por ajustado frete. Os lavradores são matutos limpos, que entram muitas vezes nos negócios íntimos do grande proprietário, merecem a estima deles, a pesam com seu conselho na decisão dos interesses comuns. Aos almocreves já não sucede o mesmo. Paga-lhes o senhor de engenho o salário, e eles retiram-se a seus casebres onde vão comer, com a mulher e com a ninhada de filhos que ordinariamente contam, o escasso pão que lhes deram o cavalo magro e o trabalho puxado e cansado.
E pois o cavalo é, para assim escrevermos, a primeira riqueza do almocreve, visto que por ele é que vem a sua sustentação e a de sua família; ter um cavalo é a primeira aspiração do pobre no mato. O almocreve não vota mais afeto á sua mulher do que a seu animal. Por ele dá muitas vezes a vida. Para o reaver, se lho furtam, vai ao fim do mundo e mata o ladrão.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.