Por Franklin Távora (1876)
Assim dizendo, José montava se literalmente na mameluca, e dava lhe com os restos da raiz da gameleira já sem serventia. A faca, que minutos antes reluzira em uma das mãos estava agora atravessada na boca do matuto, em quem o ignóbil vendeiro parecia ver, não uma figura humana, mas uma visão infernal que o ameaçava, a ele também, não com igual pisa, mas com a morte, que para ele era mil vezes pior.
De repente José colheu o ímpeto, pôs se de pé, e inquiriu de si para si:
— E o meu cavalo ?
Correu incontinente à margem e soltou um longo assobio que atroou o solidão mal desperta; a margem estava erma, e só o silêncio respondeu ao seu chamamento. Tornou ao pátio onde alguns vizinhos, finalmente atraídos pelos gritos, ao princípio furiosos, depois rouquenhos, e por último cansados e quase imperceptíveis da moribunda mulher banhada em sangue, tratavam de restitui-lá à casa.
— E o que te vale, cabra do diabo! — disse José, olhando para o volume inanimado que mãos tardiamente piedosas arrastavam ao casebre. — O que te vale é ter eu que ir em busca do meu cavalo. Se não fosse ele, nunca mais comias farinha.
Dias depois voltou José, montado no seu cavalo, trazendo uma espingarda nova na mão, uma faca de arrasto pendente da cintura, os caçuás cheios de peças de pano e outros objetos que se vendiam nas lojas da vila.
— Boa tarde, seu Timóteo — disse ele, pondo se em terra de um pulo e entrando sem cerimônia na tasca. — Dá me noticias de Chica ?
— Você ainda vem falar nisso ? — redargüiu o vendeiro com semblante hipócrita, mas na realidade sobressaltado.
— Por que não? Queria acabar de dar lhe a lição que principiei na quarta feira. Mas desta feita a coisa havia de ser de outra moda. Queria ver se lhe entrava nas banhas da barriga este facão, como entra nesta melancia.
— Pois não sabe que a Chica morreu da sua tirania ?
— Ah! fez esta bestidade? Pois então, para .celebrarmos o caso, bote aguardente e bebamos.
Timóteo encheu sem demora o copo que apresentou a José.
— Beba primeiro — disse este.
— Não, eu não bebo — respondeu o taverneiro.
— Não bebe ? Há de beber. E não se demore que tenho pressa. Atrás de mim vem alguém em minha procura, e eu não estou disposto a fazer mais carniça por hoje.
— Que imprudência a sua, menino! Não bebo, não quero beber, está acabado. Veja se me obriga.
A este rasgo de cobarde arrogância que seria digna do riso se não despertasse compaixão, José retrucou, fitando os olhos do colono:
— Seu Timóteo, você vai errado. Olhe que eu não posso demorar me nem sou de graças. Beba a aguardente por quem é.
O taverneiro, sem replicar, pôs o copo na boca, e, depois de haver sorvido alguns goles que lhe souberam a quássia ou jurubeba, restituiu o ao rapazito, que o esvaziou quase de um trago.
Então, sem cuidar de pagar a despesa, José saltou sobre a cangalha, pôs o cavalo a todo o galope e desapareceu no caminho como desaparece um raio na atmosfera.
Com pouco uma escolta subiu a ponte e foi fazer alto na vendola de Timóteo. Vinha na batida de José, que havia cometido um roubo considerável na praça, tendo, para escapar se, assassinado um caixeiro e deixado às portas da morte com um sem número de golpes, dois soldados que diligenciaram prendê-lo.
Pertencem estas ao número das primeiras proezas do Cabeleira. Não contava ele então dezesseis anos completos. Perpetrava entretanto, destes crimes, e com esta firmeza que daria renome aos mais hábeis e audaciosos assassinos.
Não obstante o modo por que o tratara desta o vez o jovem Cabeleira, nunca Timóteo ficara mal ou se arrufara sequer com ele. Quem não descobre a razão de tal segredo ? O colono respeitava e temia o matuto. Por detrás, dizia, àqueles de cuja fraqueza estava certo, que o José era uma oncinha que se estava criando e que era preciso, enquanto não passava de tempo, tirar do pasto; na presença do rapaz, que já lhe tinha mostrado por duas vezes de quanto era capaz, só tinha ele atenções e baixezas que bem denotavam os quilates do seu espírito.
José cresceu, reformou, pôs se de todo homem. Perdeu a cor terrena e pálida com o que vimos da primeira vez na taverna, e tornou se robusto de corpo e bonito de feições. Cabelos compridos e anelados, que lhe caíam nos ombros, substituíram a penugem que mal lhe abrigava a cabeça nos primeiros anos.
Timóteo fora testemunha de todas estas transformações. O rapaz tinha escolhido para seu ponto de operações contra a vila a taverna dos Afogados. Esta taverna passara a ser um como entreposto onde ele depositava o que roubava com o pai e, mais tarde, com o Teodósio que viera associar lhes nos perigos e nos proveitos. O taverneiro achara se assim em condições de acompanhar dia por dia as diferentes fases, os variadíssimos sucessos de uma das existências mais admiráveis que se conhecem na carreira do crime.
Por sua vez José vira o florescer e o declinar do taverneiro. Quando o livrara da companhia da Chica achava se Timteo nos seus quarenta e oito anos. Agora orçava pelos cinqüenta e cinco. Tornara lhe o cabelo branco; distendera lhe o abdome, caíram lhe um pouco as faces, sumiram lhe os olhos debaixo das espessas sobrancelhas, que pareciam espinhos de cardeiro.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.