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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Da frente da capela por uma extensa e íngreme ladeira, desce uma rua extremamente irregular e tortuosa, que vai terminar à margem do pequeno rio Maranhão, que divide o arraial em dois, comunicando-se por uma ponte de madeira.

Na parte superior dessa rua, que forma um espaçoso largo vêem-se algumas cúpulas ou pequenas rotundas de pedra, dentro das quais se acham figurados os passos da paixão de Cristo em imagens de tamanho natural, e são especial objeto da veneração e curiosidade de quantos visitam aquela localidade.

O arraial derramado em ruas irregulares pelo pendor das colinas em uma e outra margem do rio, tem um aspecto alegre e pitoresco, e seus arredores monticulosos apresentam às vezes risonhas paisagens e aprazíveis perspectivas.

Eis o novo cenário, a que havemos transportado o nosso herói. O espetáculo não podia, deixar de ser curioso e interessante, e nem a nova fase de vida em que ia entrar deixaria de ter encantos para um menino que tanto gostava das práticas de devoção religiosa, e tão forte tendência mostrava para o misticismo. Contudo, aquele filho do sertão, acostumado a percorrer os campos e bosques da fazenda paterna, não pôde a princípio deixar de estranhar a severa reclusão e imprescritível regularidade daquela vida monótona e compassada do seminário. Mas, o gênio pacato e a extrema docilidade de Eugênio, ajudados pela bossa da beatividade ou veneratividade, que a tinha muito desenvolvida, fizeram com que em menos tempo do que qualquer outro se habituasse e tomasse gosto mesmo pelo seu novo gênero de vida, como se fosse o elemento em que nascera.

Só uma coisa perturbava o seu bem-estar, e lançava uma sombra na limpidez e serenidade do seu horizonte. Era a saudade imensa, que tinha, do lar paterno e especialmente de Margarida, saudade que nem o tempo, nem os seus novos hábitos e ocupações puderam jamais arrancar-lhe do coração.

Nas orações, na igreja, no recreio, nas horas de estudo e de repouso, Eugênio encontrava sempre mil motivos que lhe avivavam na idéia a imagem de Margarida.

Na missa, ao entrar na igreja na fila de seus companheiros, se perpassando um olhar rápido e furtivo pelo grupo das mulheres ajoelhadas abaixo das grades divisava entre elas alguma linda e graciosa menina, se lhe afigurava ver Margarida, e se não fora o regente, que postado por detrás dos estudantes passeava sobre eles olhares severos e vigilantes,

Eugênio não resistiria à tentação de olhar para trás algumas vezes, a fim de iludir as saudades de Margarida contemplando uma criatura que com ela se parecesse.

De madrugada aos domingos, Eugênio acordava em sua cama ao som dos hinos sagrados, que o povo assistindo à missa matinal entoava na capela. No meio daquela multidão de vozes de todos os timbres e volumes, que faziam restrugir o santuário e ecoavam por fora em acentos melancólicos e solenes, ele distinguia uma voz argentina, fresca e suave, Margarida lhe acudia ao pensamento. Margarida, quando defronte do pequeno oratório entoava esses cânticos singelos e tocantes, repassados de mística piedade, que ambos sabiam de cor desde a mais tenra infância. Era assim que Margarida cantava! Eugênio abandonava-se a uma espécie de êxtase cheio de voluptuosidade; sua alma subia ao céu nas asas do amor e da devoção, porém envolta em uma sombra de melancolia.

Depois do meio-dia e à tardinha, a sineta do seminário tangia alegre a hora do recreio.

Então, a turba dos seminaristas com suas batinas e barretes negros, divididos em quatro turmas segundo as idades — grandes, médios, submédios e meninos — despenhava-se fora das portas como uma nuvem de melros pretos a quem se abriu a entrada do viveiro, e se derramava pelo pátio, pelo quintal, pelo adro da capela e pelas colinas vizinhas, uns tagarelando, outros assobiando ou cantando, outros tocando variados instrumentos de sopro, fazendo uma algazarra confusa, imensa, atroadora.

O regente dos submédios, entre os quais se achava Eugênio, costumava dirigir sua turma para o lado do quintal a uma extensa esplanada ou terraço formado por um muro, que serve de cerco à quinta, cujo terreno mais elevado fica, a cavaleiro sobre uma rua erma e quase sem casas, que corre ao lado do seminário.

Há nessa esplanada um belo grupo de magníficas castanheiras silvestres, e viam-se também ali naquele tempo frescos e sombrios caramanchões de maracujá, e lindas latadas de flores trepadeiras. Gozava-se um ambiente fresco e perfumado, e a vista, se expandia ao longe por alegres e formosos horizontes.

Enquanto seus companheiros brincavam, corriam, saltavam, balouçando-se em gangorras ou trepando pelas árvores, Eugênio se isolava, e sentado no paredão olhava para os outeiros e espigões que se desdobravam diante de seus olhos.

(continua...)

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