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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

A onça marrada a um pau pelas quatro patas e carregada aos ombros de dois possantes negros, que gemiam debaixo do peso do truculento animal, e aos lados e atrás dela a cáfila dos cães arquejando de cansaço com as línguas dependuradas, ganindo e uivando com um choro fúnebre; em seguida o caçador cuidadosamente acomodado em um cobertor, de que armaram uma rede, conduzida por outros dois pretos; atrás dele imediatamente o velho fazendeiro e sua filha pálida e desgrenhada; depois o cavalo do caçador, que um escravo levava pela rédea, e logo em seguida os companheiros de caça do ferido conduzindo igualmente pela rédea suas cavalgaduras, e por fim os escravos do fazendeiro com seus machados ao ombro, rematando como uma guarda de honra toda aquela comitiva, tal era o singular e curioso préstito, que por uma formosa tarde de agosto desembocando de escura e espessa mata desfilava pelo lançante de um risonho espigão ao longo de um buritizal, dirigindo-se à casa do capitão Joaquim Ribeiro, que ficava como a meia légua do lugar do sinistro.

Capítulo II

A fazenda

Formosas e risonhas são as campinas no município da Uberaba, profundas e gigantescas as florestas, e os horizontes sempre afogueados pelos raios de um sol abrasador são esplêndidos e deslumbrantes. Vastíssimas colinas se estendem com suaves ondulações por distâncias sem-fim, orladas de verde-negros capões, que ensombram o leito de caudais e límpidos ribeirões. Extensas linhas de buritis se enfileiram pela macega ao longo dos brejais até se perderem nas profundidades do horizonte. Lisos e viçosos vargedos vão terminar ao pé de um cordão de boleados outeiros de pouca elevação, que se desenham fumacentos no fundo do painel à semelhança de uma nuvem cinzenta fixa na orla extrema do céu.

Nem são essas campinas como as desabridas e monótonas pampas das regiões do sul, onde a vista em vão se cansa procurando em derredor um ponto, em que repouse, um pequeno cômoro sequer e que interrompa a insípida uniformidade dos horizontes; nem como essas savanas e chapadões intermináveis, como os há nas províncias do norte e do centro, que o viajante palmilha de sol a sol sem que jamais lhe afaguem os ouvidos o ramalhar da folhagem, nem o consolador murmúrio das torrentes, sem ver mais que campo e céu, e ouvindo apenas o zunido dos ventos, e o enfadonho zumbido das cigarras. De espigão em espigão varia a perspectiva, e apresenta novos e sempre risonhos panoramas.

No meio desses plainos por entre as manadas de gado sem conto vagueiam os veados, e as emas passeiam em bandos erguendo o esbelto e altaneiro colo até a altura de um cavaleiro. O canto do campeiro, que anda pelos rincões arrebanhando o gado, os trinos agudos da siriema, o pio melancólico da perdiz, e o monótono chiar do carro de bois, que atravessa os chapadões carregado dos produtos de pingues colheitas, eis os únicos sons, que de ordinário quebram o silêncio daquelas afortunadas e risonhas solidões.

As vivendas dos fazendeiros são comumente construções toscas e singelas, ainda que cômodas e vastas. Mas em compensação a situação delas é quase sempre aprazível e pitoresca, ao pé de algum suave lançante, ouvindo o marulho da torrente, que corre à sombra dos buritizais, e olhando ao longe pelos descampados espigões.

Em frente à casa há sempre um vasto curral ou terreiro, em torno do qual estão o engenho, o moinho, o paiol e mais outros acessórios da fazenda. Por detrás se estende um vasto pomar, um verdadeiro bosque sombrio e perfumoso, onde a laranjeira, o limoeiro, a jabuticabeira, o jambeiro, o genipapeiro, o mamoeiro, o jaracatiá, as bananeiras e coqueiros de diversas espécies crescem promiscuamente e cruzam suas ramagens em uma espessa abóbada cheia de fresquidão, de murmúrios e perfumes. Os cercados são latados de maracujá com seus doces e aromáticos frutos, ou renques de piteiras, eriçando em torno as longas e agudas hastes como uma floresta de baionetas, do meio das quais se ergue como um estandarte o comprido pendão coroado de brancas flores, O jasmineiro, a cocleária, o bogari, a esponjeira também crescem em torno da casa, pelos cercados, junto às fontes, saturando o ambiente de suavíssimos aromas.

Aqueles céus sempre azuis e límpidos desconhecem os nevoeiros, os invernos, e essas brumas carregadas e úmidas, que costumam embuçar céu e terra em nossas montuosas e tristonhas regiões. Quando é chegada a estação das chuvas, as águas se precipitam do céu em violentas borrascas entre o estampido de horrorosas trovoadas; ao estouro de mil raios parece que a esfera abraseada rompe-se em estilhaços, e se despenha sobre a terra. A copiosa e grossa chuva em pouco tempo rega e lava os espigões, alaga as várzeas, e converte os menores ribeiros em torrentes caudalosas. Mas dura pouco aquela convulsão dos elementos; o mesmo tufão que trouxe a tempestade a varre em breve do firmamento, e o sol torna a dominar em toda a amplidão da esfera azul e resplendente.

(continua...)

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