Por José de Alencar (1853)
Essa praia tinha dois outeiros que lhe serviam como de atalaias, um olhando para a barra, o outro para a cidade. Era ao sopé d'este ultimo que ficava a abra, onde fundeou a escuna Maria da Gloria, á sombra das grandes arvores e do outeiro, que mais tarde devia tomar-lhe o nome.
Ahi serviu-se lauto banquete aos convivas, e levantaram-se muitos brindes ao heróe da festa, Ayres de Lucena, o íntrepido corsario, cujos rasgos de valor eram celebrado com um enthusiasmo sincero, mas de certo afervorado pelas iguarias que trascalavam.
É sempre assim; a gula foi e ha de ser para certos homens a mais fecunda e inspirada de todas as musas conhecidas.
Ao toque de trindades, cuidou Ayres de voltar à cidade, para desembarcar os convidados; mas com pasmo do commandante e de toda a maruja não houve meio de safar a ancora do fundo. Certos sujeitos mais desabusados asseguravam que sendo a praia coberta de arvores, na raiz de alguma fisgára a ancora, e assim explicavam o accidente. O geral, porém, vendo nisso um milagre, o referiam mais ou menos por este teor.
Segundo a tradição, Nossa Senhora da Gloria agastada por terem-n'a escolhido para padroeira de um navio corsario, tomado aos hereges, durante o banquete abandonára o seu nicho da prôa e se refugiára no cimo do outeiro, onde á noite se via brilhar o seu resplendor por entre as arvores.
Sabendo o que, Ayres de Lucena botou-se para a praia e foi subindo a encosta do morro em demanda da luz, que lhe parecia uma estrella. Chegado ao tope, avistou a imagem da Senhora da Gloria, em cima de um grande seixo, e ajoelhado defronte um ermitão a rezar.
— Quem te deu, barbudo, o atrevimento de roubares a padroeira de meu navio, gritou Ayres irado.
Ergueu-se o ermitão com brandura e placidez.
— Foi a Senhora da Gloria quem mandou-me que a livrasse da fabrica dos hereges e a trouxesse aqui onde quer ter sua ermida.
— Ha de tel-a e bem rica, mas depois de servir de padroeira á minha escuna.
Palavras não eram ditas, que a imagem abalou do seixo onde estava e foi sem tocar o chão descendo pela encosta da montanha. De bordo viram o resplendor brilhando por entre o arvoredo, até que chegado á praia deslisou rapidamente pela flôr das ondas em demanda da prôa do navio.
Eis o que ainda no seculo passado, quando se edificou a actual ermida de Nossa Senhora da Gloria, contavam os velhos devotos, coevos de Ayres de Lucena. Todavia não faltavam incredulos que mettessem ocaso á bulha.
A crêl-os, o ermitão não passava de um mateiro beato, que se aproveitára da confusão do banquete para furtar a imagem do nicho, e leval-a ao cimo do outeiro, onde não tardaria a inventar uma romagem, para especular com a devoção da Virgem.
Quanto ao resplendor era em linguagem vulgar um archote que o espertalhão levára de bordo, e que servíra a Ayres de Lucena para voltar ao navio conduzindo a imagem.
VIII
A VOLTA
Dezeseis annos tinham decorrido.
Era sobre tarde.
Grande ajuntamento havia na esplanada do largo de S. Sebastião, ao alto do Castello, para ver entrar a escuna Maria da Gloria.
Os pescadores tinham annunciado a proxima chegada do navio, que bordejava fóra da barra á espera de vento, e o povo concorria para saudar o valente corsario cujas sortidas ao mar eram sempre assignaladas por façanhas admiraveis.
Nunca elle tornava do cruzeiro sem trazer uma presa, quando não eram tres, como n'essa tarde em que estamos.
Tornara-se Ayres com a experiencia um consummado navegante, e o mais bravo e temivel capitão de mar entre quantos sulcavam os dois oceanos. Era de recursos inesgotaveis; tinha ardís para lograr o mais esperto maritimo; e com o engenho e intrepidez multiplicava as forças de seu navio a ponto de animar-se a combater naus ou fragatas, e de resistir ás esquadras de pichelingues que se juntavam para dar cabo d'elle.
Todas estas gentilezas a maruja bem como a gente do povo as lançava á conta da protecção da Virgem Santissima, acreditando que a escuna era invencivel, emquanto sua divina padroeira a não desamparasse.
Ayres tinha continuado na mesma vida dissipada, com a differença que a sua façanha da tomada da escuna lhe incutíra o gosto pelas emprezas arriscadas, que vinham assim distrahil-o da monotonia da cidade, além de lhe fornecer o ouro que lle semeava a mãos cheias por seu caminho.
Em sentindo-se aborrido dos prazeres tão gozados, ou
escasseando-lhe a moeda na bolsa, fazia-se ao mar em busca dos pichelingues que já o conheciam ás leguas e fugiam d'elle como o diabo da
cruz. Mas dava-lhes caça valente corsario, e perseguia-os dias sobre dias até
fisgar-lhes os harpéos.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.