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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

O médico chegava da Europa, onde se tinha demorado quatro anos; e não sabia que a invasão do romance realista que nos vem de Paris, tem posto em moda certa gíria de cafés e bastidores, que algumas senhoras vão repetindo como linguagem de bom-tom sem consciência das enormidades que às vezes escondem tais ditos espirituosos.

O Dr. Teixeira deixou passar a observação da Amália; e, para não acentuá-la com uma pausa, continuou a referir a Borges o episódio da viagem de Hermano

— Pode acreditar no que lhe digo. Carlos não tem o menor sintoma de perturbação mental. Nesse mesmo dia da nossa visita ao Louvre emancipou-se da minha solicitude e viveu sobre si. Depois que voltou ao Rio de Janeiro entretivemos uma correspondência seguida; e nas suas cartas respirava certo contentamento íntimo e sereno, que eu vim encontrar na sua vida habitual.

— Então é feliz o seu amigo? perguntou Amália.

— Acredito que sim.

— E o senhor afirmou que ele não tinha esquecido a mulher e nem a esqueceria nunca?

— Afirmei, e posso prová-lo, acudiu Henrique Teixeira picado pelo remoque da moça.

— Há de ser difícil.

— Promete-me guardar reserva sobre o que lhe contar?

— Mais do que reserva. Prometo-lhe não acreditar nem uma palavra do seu romance, o que não me impedirá de aplaudi-lo, se for interessante como espero.

Nesse momento a sala enchia-se de convidados; e o piano dava o aviso da primeira quadrilha.

Amália, tomando o braço de seu par, separou-se do doutor com esta palavra, confeita em um sorriso:

— Depois.

Capítulo 5

Em meio da partida, quando servia-se o chá, Amália com um aceno do leque indicou a Henrique Teixeira uma cadeira que vagara a seu lado.

— E o nosso folhetim?

— Refleti, D. Amália; o melhor é falarmos de outra coisa.

— Confessa, portanto, que seu amigo é como os outros; mais um exemplar desse compêndio já muito conhecido que se chama marido.

— Não, senhora, não confesso; calo-me. Não devo expor à sua zombaria a vida íntima do amigo que mais prezo.

— Esta reflexão, devia tê-la feito em princípio, doutor. Depois de haver-me aguçado a curiosidade, está na obrigação de satisfazê-la, e é o mais prudente, porque o seu silêncio compromete o seu amigo.

— Em quê?

— Dá-me o desejo de fazer acerca dele, e acerca dessa vida íntima que não pode ser profanada, as mais extravagantes suposições.

— Esta razão me decide.

— A outra devia ter a preferência, por fineza ao menos.

— Qual outra?

— A de não duvidar da minha discrição.

— Perdão; eu a ofenderia se acreditasse nela. Seria suspeitar de seus dezoito anos, e fazer brancos ou grisalhos tão belos cabelos louros.

— Entretanto há pouco pedia reserva aos meus belos cabelos louros, observou Amália com um gesto encantador.

— Sem dúvida. A reserva que eu lhe pedia era a de contar a história tão enfeitada que já não fosse a mesma referida por mim.

— Terei esse cuidado; e até me incumbo de ilustrá-la com retratos. Mas antes de tudo preciso conhecê-la.

— Então quer ouvir?

— E dispenso o prólogo.

— Voltando da Europa, há três meses, passei os primeiros dias em casa de Carlos, que me esperava e foi buscar-me a bordo. Chegamos a São Clemente pela manhã; e depois do banho clássico, nos reunimos em uma sala, que fazia parte dos aposentos da mulher e onde esta mais assistia. Notei então que ele, algumas vezes, distraidamente, voltava-se para o sofá, permanecia por momentos com os olhos fitos na almofada de veludo a que habitualmente se recostava D. Julieta.

— E suspirava naturalmente ou enxugava a furto uma lágrima silenciosa que lhe queimava a face? perguntou Amália com seriedade picante.

— Não; ao contrário, sorria-se.

— Deveras! O seu herói tem um cunho original. Estou me interessando por ele

—A sala em que nos achávamos, e a presença de Carlos, a quem revia depois de anos de ausência, remontavam o meu pensamento aos primeiros tempos de seu casamento, em que tantas vezes nos reuníamos ali em família, ele, sua mulher e eu. Parecia-me ver ainda o talhe elegante de D. Julieta, que nos escutava, atenta, enlevada na voz do marido, e dando-nos de vez em quando, com uma observação espirituosa, o tema da conversação E essa evocação entristeceu-me. Entretanto Carlos estava contente; e no seu semblante respirava a satisfação d'alma. Supus que era o prazer da minha volta; mas não podia conciliá-lo com as recordações vivas que se estavam traindo nos seus gestos.

— Essas recordações eram puramente cacoetes de viúvo.

— Vai ver. Pouco depois o Abreu chamou-nos para o almoço. Carlos tomou o seu lugar do costume; eu sentei-me defronte e notei logo que havia um talher em frente à cadeira de honra, outrora ocupada pela dona da casa. Tínhamos pois uma terceira pessoa; talvez alguma velha parenta de Carlos.

(continua...)

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