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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

A prima e companheira de infância de Emília era uma moça muito galante, Parecia-se com a mãe somente no rosto: o talhe não o tinha, nem alto nem esbelto, mas admiravelmente torneado. 

Julinha nunca foi loureira; faltava-lhe para isso o orgulho de sua formosura, e a inveja da formosura alheia. Mas educada na sala, aos raios da galanteria materna, perdera cedo o casto perfume. Desde menina habituou-se a ser amimada ao colo e beijada por quantos frequentavam a casa. 

Deus a tinha feito nimiamente boa e compassiva; por isso quando chegou a idade do coração, ela não soube recusar ao amor as carícias, que foram brincos da infância. Suas afeições eram sempre sinceras e leais; nunca traiu nem por pensamento o seu escolhido; mas também se este a esquecia e mudava, ela facilmente se consolava, porque em naturezas como a sua o amor não cria raízes profundas, e só vegeta à, superfície d'alma. 

Continuei a frequentar a casa de D. Matilde. Ali durante um mês, Emília não perdeu ocasião de crivar-me o coração com os alfinetes de sua cólera feminina. 

Uma noite de reunião, servia-se o chocolate. Ela ia tomar uma xícara na bandeja que passava, quando o criado sem perceber o movimento seguiu. Se visses o meigo império do olhar que me lançou, compreenderias porque, apesar de meu ressentimento, apressei-me a servi-la. 

Entretanto quando lhe ofereci o chocolate, recebeu inteiramente distraída, sem me olhar. 

—Muito agradecida! disse-me, atirando a palavra da ponta do beiço o mais lindo, e também o mais desdenhoso. 

Retirei a mão, julgando que ela sustinha entre os dedos delicados a xícara; mas esta acabava de espedaçarse no chão manchando a saia achamalotada de seu rico vestido de seda azul. 

Emília ficou impassível. Volvendo lentamente o rosto, atirou-me por cima do ombro estas duas palavras que vieram afogadas no escárnio: 

—Com efeito!... 

E retirou-se da sala. 

Ela tinha deixado cair a xícara de propósito; mas naquela ocasião estava bem longe de suspeitá-lo. Lancei toda a culpa sobre mim; e tive-me em conta do maior desastrado. 

Procurei-a: já tinha partido. Na próxima quinta-feira, logo que cheguei, dirigi-me a ela para lhe pedir perdão de minha inadvertência: 

—Peço-lhe mil desculpas, minha senhora, pelo que sucedeu! —Quando? —Quinta-feira passada. 

—Não me lembro. 

—Aquela minha distração de deixar cair a xícara... 

—Ah! foi o senhor?... Nem reparei! disse-me com a maior indiferença. 

Esta palavra me ofendeu mais que tudo quanto me tinha feito essa moça. Nem sequer com seu ódio ela se dignava me distinguir! De dia em dia a sua aversão tornou-se mais clara. Ela procurava sempre esquivarse ao meu cumprimento, e quando de todo não podia evitá-lo, recebia com fria altivez. Se estava ao piano e eu chegava, erguia-se, deixando suspensos os que a ouviam tocar ou cantar. Inventava então qualquer dos pretextos em que era fértil seu espirito vivaz; porém o verdadeiro motivo deixava-o bem transparente. Se eu me aproximava do círculo onde ela conversava, chamado por alguma palavra amável de D. Leocádia, calava-se imediatamente, e no primeiro momento favorável eclipsava-se. 

Duas ou três vezes, chegando à casa de D. Matilde, achei-a entretida a brincar com a prima e algumas amigas. Vendo-me entrar na sala, levantou-se bruscamente, e despediu-se das outras, surpresas: 

—Adeus! Adeus!... Vamos, Geraldo! Tomava o chapéu; o irmão contrariado a seguia; entravam no carro, e partiam para a chácara, apesar de ter ela prometido passar o dia com Julinha, e serem já horas do jantar. 

Tudo isso me convenceu afinal que o procedimento de Emília não era filho de uma simples antipatia, mas de um propósito firme de humilhar-me. 

Parecia um sistema de perseguição acintosa. O instinto da defesa acordou em mim, e com ele o desejo da vingança. De longe e disfarçadamente comecei a estudar essa moça, resolvido a descobrir o seu ponto vulnerável. 

Desde que a Duarteazinha, como a chamavam nos salões, apareceu nas reuniões de D. Matílde, foi logo cercada por uma multidão de admiradores. Sua nobre altivez os mantinha em respeitosa distância. Ela conservava sempre na sala, como na intimidade, um mimo de orgulhosa esquivança, que afastava sem ofender. 

Quando porém algum mais apaixonado ou menos perspicaz de seus admiradores, ousava transpor aquela régia altivez e casta auréola em que ela resplandecia, então sua cólera revestia certa majestade olímpia que fulminava. 

Emília não valsava; nunca nos bailes ela consentiu que o braço de um homem lhe cingisse o talhe. Na contradança as pontas dos seus dedos afilados, sempre calçados nas luvas, apenas roçavam a palma do cavalheiro: o mesmo era quando aceitava o braço de alguém. 

(continua...)

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