Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
ADRIANO – Impacientas-me... (Ruído dentro: soa o piano)
CINCINATO – Em? lá está a velha no ofício. Quadro segundo: esta sala, escarpa do precipício, caminho do inferno, passagem do desespero, gabinete que medeia entre o frontispício da hipocrisia, e o interior da furna do vício, e uma vez por outra em cada noite, gaiola de passarinhos, a quem a moça, que canta, dá abraços e beijos por engodo, e os deixa com água no bico depois de depená-los muito à sua vontade.
Exemplo: certo episódio que vi ainda há pouco.
ADRIANO – Cincinato... pensas que algum outro homem...
CINCINATO – Não respondo: porque me perguntas no singular. Quadro terceiro: sala resplendente de luzes e carregada de sombras negras; mesa grande e cercada de jogadores risonhos poucos, turvos muitos, sinistros alguns, desconfiados todos; se não estão ao pau, estende-se a tripa: é o mesmo; voltam-se as cartas... há pulmões que não respiram... o estrabismo da suspeita entorta todos os olhos... a atmosfera é pesada... ouvem-se juras, insultos, rugidos... rola o dinheiro e evaporam-se fortunas, e na mesa horrível sem que o vejam, sem que o sintam, prepara-se o roubo do amo pelo caixeiro, a perversão do filho-família, que furtará as jóias de sua mãe e a firma de seu pai, a miséria da família pela ruína do seu chefe, a prevaricação do empregado público, a falência inexplicável do negociante, a desonra, a chave da prisão, o punhal ou o revólver do suicida... (Um jogador atravessa a cena em desespero e vai-se.) Vês aquele que furioso se retira? Adriano! é talvez esposo da mais honesta senhora, a quem reduz à miséria pelo jogo, e a desesperado abandono pela paixão adúltera e vergonhosa...
ADRIANO – Cincinato! (Sussurro dentro.)
CINCINATO – Escorreguei para o romantismo sentimental, mas volto ao meu elemento no quadro quatro que é o melhor. Quadro quarto: palácio do sono perpétuo na solidão da indolência; na sala do desmazelo há um leito de papoulas, e dorme nele per omnia secula seculorum... adivinha quem... (Sussurro.)
ADRIANO – Quem? (Aumenta o sussurro.)
CINCINATO – A polícia. (Forte ruído.)
ADRIANO – E tu!... como estás aqui!...
CINCINATO – Eu quebro louça em toda parte. (Grande ruído.) Oh, lá! gritem sem receio que a polícia dorme sempre como o animal condenado por Maomé! (Voltando da direita.) O Demétrio já tem um dos olhos vermelho-brasa e o outro azul, como sangue de fidalgo puro. (Estrepitoso ruído.) ADRIANO – Que tempestade... vou ver...
CINCINATO (Segurando-o.) – Não hás de ir...
CENA XI
ADRIANO, CINCINATO e BRÁULIO; canto e piano, alarido e movimento até o fim do ato.
BRÁULIO – Que é isto? (Vai à direita, volta à porta do fundo.) Fortíssimo!
fortíssimo!... (A Adriano e Cincinato.) Que homens loucos! (Ao fundo.) Fortíssimo!...
CINCINATO – Não tenha medo, a polícia não desperta.
BRÁULIO (Ao fundo.) – Fortíssimo! (Corre à direita e quase o lançam por terra os que saem em tumulto.)
CENA XII
ADRIANO, CINCINATO, BRÁULIO, D. DONALDO, DEMÉTRIO, FÁBIO,
JOGADORES: confusão, grita e música até o fim
D. DONALDO – Caramba!... hei ganhado honestamente.
VOZES – Não! sim! ladrão! é falso! silêncio! (Vozes encontradas.)
DEMÉTRIO – Silêncio! ouçam-me! quero falar! (Silêncio). Este homem roubounos e deve restituir-nos o nosso dinheiro... aqui está a tripa, onde há cartas falhas... podem examinar... houve além disso feitos e olheiros... e todos viram há pouco a empalmação do... (Mostrando as cartas.)
D. DONALDO – O senhor mente!...
DEMÉTRIO – Larápio!... (Atira com o monte de cartas sobre d. Donaldo, os jogadores seguram e separam os dois: confusão.)
D. DONALDO – Perro! encomenda a tua alma, que eu hei de te matar dez vezes!...
BRÁULIO – A ceia! a ceia está na mesa! a ceia! a ceia! (Confusão.)
CINCINATO (Na frente.) – A ceia!... o governo da casa contém os furores da maioria, falando-lhe à barriga! está em regra: a ceia! a ceia!
FIM DO PRIMEIRO ATO
ATO II
Salão da frente do Teatro Provisório: portas ao fundo comunicando com
o corredor dos camarotes da segunda ordem.
CENA I
FÁBIO E ÚRSULA, que entram
FÁBIO – Que é isto, Úrsula?... deixaste arrebatada o camarote, como se fugisses ao bote de uma serpente.
ÚRSULA – Sim... eu vi, não uma serpente, mas um homem que eu supunha bem longe daqui: é ele... eu o reconheci no fundo do camarote de Adriano.
FÁBIO – Quem? ...
ÚRSULA – Clarimundo... o antigo tutor de Helena...
FÁBIO – Clarimundo! então chegou hoje no paquete do Rio da Prata: mas... que comoção, Úrsula! estás convulsa... (Chega uma cadeira.)
ÚRSULA (Sentando-se.) – A surpresa... eu não esperava... oh!... esse homem...
FÁBIO – Tão profunda sensação!...(Úrsula estremece.) ah! já compreendo: receias que ele venha destruir a minha obra...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.