Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Hortênsia — Sim! Nós seremos sempre dignos do nome que temos, do sangue que gira em nossas veias, e da nobreza de nossas famílias.
CENA X Os precedentes, Anastácio, Felisberto, Henrique, e a seu tempo, Fanny e logo Petit.
Anastácio — Maurício! Mana Hortênsia! (Voltam-se todos). Aqui vos trago comigo o nosso irmão, o mestre marceneiro Felisberto, e o nosso sobrinho Henrique, pintor.
(Surpresa geral).
Hortênsia (Desmaiando) — Ah!...
Leonina (Correndo a Hortênsia) — Minha mãe!
Maurício — Hortênsia!...desmaiada! meu Deus! Um médico! Petit, um médico!...(Movimento geral: Felisberto e Henrique ao fundo: no meio da confusão
Anastácio tira do bolso uma carta, desdobra-a e prepara uma torcida de papel).
Fanny — Um médica! Monsieur Petit, um médica! Oh! este non se úse n’Ingliterre!
Petit — Le docteur! Le docteur! (Vai-se correndo).
Maurício — Hortênsia!
Leonina — Minha mãe!...
Pereira — Senhor Maurício, deite-lhe água fria na cabeça!
Reinaldo — Isto não é nada; deixem-me aplicar-lhe um globulozinho de beladona.
(Tira do bolso uma caixa homeopática).
Anastácio (Avançando com a torcida de papel) — Afastem-se! eu curo em um instante minha cunhada. (Introduz a torcida no nariz de Hortênsia, e esta espirra).
Espirrou!...está salva.
Hortênsia (Tornando a si) — Ah!...(Á parte) Malvado!...
Todos — Minha senhora!
Anastácio (Erguendo a torcida) — Viva a torcida!...a torcida é um específico infalível para o mal dos faniquitos!...
Leonina (À parte) — Marceneiro!...
FIM DO PRIMEIRO ATO
ATO II
O teatro representa um ponto do Jardim Botânico; ao fundo vê-se o lago e a pequena ilha; à esquerda grupos de bambus, à direita aparece sobre o seu outeiro um lado da casa de cedro; árvores e arbustos convenientemente dispostos.
CENA I
Maurício, Hortênsia, Leonina, Fabiana, Filipa, Frederico, Reinaldo, Lúcia e Pereira; uns contemplam o lago, descem outros da casa de cedro, etc: Anastácio, meio deitado na encosta do outeiro.
Hortênsia — Deveras que nunca vi rosa mais bela, nem mais perfeita.
Fabiana — Mas de quem seria a mão cruel que se atreveu a roubar aquela princesa do jardim? Vimos a rosa apenas alguns momentos, e quando voltamos a contemplála, tinha já desaparecido!
Reinaldo — A tal rosa tem dado que pensar às senhoras! oh! quem pudera transformar-me em um pé de roseira!
Hortênsia — É o mistério de uma flor, um começo de romance que enche de poesia o agradável passeio que nos proporcionou o comendador.
Pereira (Á parte) — Conheço agora que sou um homem muito espirituoso!
Lúcia — E não há quem rompa esse mistério?...
Filipa — Que mistério! Não há coisa mais simples: quem roubou a rosa foi o senhor
Anastácio.
Pereira — Não, não; sou capaz de apostar que a rosa se oculta junto de algum coração apaixonado, e está reservada para ser a palma da beleza.
Frederico — E que pensa Vossa Excelência?...(A Leonina) Nem mesmo o destino misterioso dessa rosa pode arrancá-la às tristes meditações, de que hoje se mostra apoderada?
Filipa — E quem tem culpa disso é ainda o senhor Anastácio. (Rindo-se)
Hortênsia — E desta vez adivinhou, Dona Filipa: o mano levou a conversar toda a noite com Leonina, e, certamente, lhe pregou tal sermão, que ainda hoje a faz estar pensativa e triste.
Maurício — Pois vençamos a sua melancolia obrigando-a a passear; creio que as senhoras já descansaram.
Frederico — Sim, e as flores esperam as borboletas.
Fabiana — Vamos, e eu quero ser o cavalheiro de Dona Leonina: hei de conseguir torná-la prazenteira e alegre. (Dá o braço a Leonina).
Pereira (Dando o braço a Hortênsia ) — Minha senhora! (Vão saindo Fabiana com Leonina pela esquerda e Frederico com Lúcia, Pereira com Hortênsia, e Reinaldo com Filipa pela direita).
CENA II
Maurício, que vai sair, e Anastácio, que o suspende.
Anastácio — Abre os olhos, Maurício, e atenta bem: não achas que aquela mulher, levando tua filha pelo braço, se assemelha muito a um algoz que arrasta consigo a sua vítima?...
Maurício — Mas, em tal caso, que papel entendes que eu represento?
Anastácio — Pior do que um pai tolo: o papel de um pai que desconhece os seus mais santos deveres.
Maurício —
Sempre impertinente, Anastácio!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.