Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)
Mas agora...
Não posso olha-lo, ai, não! !...
Junto dele bisonha
O pejo me devora,
Sou toda olhar no chão...
Tenho tanta vergonha!
Cena IV
Inês e Benjamim, que desce a escada.
BENJAMIM – Este momento é um milagre de amor...
INÊS – Ah! (Medrosa) mamãe... (Olhando).
BENJAMIM – Não tarda; é por isso que tenho pressa. Quisera ficar aqui vestido de mulher toda a minha vida; mas tanta dita não dura: esperam-me perseguição, tormentos...
INÊS – Corre algum perigo?...
BENJAMIM – Pouco importa: resistirei à mais cruel adversidade, se merecer levar comigo a esperança do seu amor. Eu amo-a!
INÊS – Senhor...
BENJAMIM – É que sua mãe não tarda... não tarda... (Toma-lhe a mão).
INÊS – Tenho muita vergonha...
BENJAMIM – Entre duas moças, como nós somos, não devem haver essas vergonhas! eu amo-a! e mamãe não tarda...
INÊS – Não sei... não ouso...
BENJAMIM (Larga a mão de Inês) – Ora está... aí vem sua mãe... (Triste) sou muito infeliz!
INÊS (Voltando o rosto e abaixando os olhos) – Amo-o.
BENJAMIM – Ah! brilhou a luz do meu futuro! a mamãe agora pode chegar... pode chegar...
Cena V
Inês, Benjamim, Joana e Brites.
JOANA (A Benjamim) – Que fazia aqui junto de Inês?
BENJAMIM – Não fazia nada, não senhora: como ainda sou Antonica da Silva, tratava de salvar as aparências.
JOANA – Creio que apertava a mão de minha filha...
BENJAMIM – Qual! não apertava, não senhora: as moças, quando passeiam no jardim, costumam às vezes dar-se as mãos. Eu estava fingindo costumes de mulher.
JOANA (A Inês)— Que te dizia este se... esta senhora?
INÊS – Eu me sentia muito vexada... não sei bem... penso que me falava... de Macacu...
BENJAMIM – Exatamente: falava de Macacu.
JOANA – E que dizia? (Senta-se, e Brites a seu lado; Inês em outro banco).
BENJAMIM (Em pé) – Descrevia as festas pomposas lá da vila: então as da igreja dos franciscanos! quando o guardião sobe ao púlpito, grita com uma eloqüência que faz dor de ouvidos (Senta-se junto de Inês) E as procissões!...
JOANA – Brites, senta-te ao pé de Inês; venha o senhor... a senhora para cá (Brites e Benjamim trocam os lugares).
BENJAMIM – Eu apenas salvava as aparências: as moças gostam de sentar-se juntinhas. Mas... os franciscanos.
JOANA – Os franciscanos? (À parte) Quem sabe?... (A Benjamim) quero ouvi-lo; ainda não me contou a sua história verdadeira (Leva-o para o fundo).
BRITES – Inês, mamãe já desconfia que gostas do Benjamim, e opõe-se...
INÊS – Para mim oposição é estímulo: sim! amo este moço e vou dizê-lo a meu padrinho...
BRITES – Ai, cabeça de novelas, vê lá, se te fazes heroína!...
INÊS – Se fosse preciso...
BRITES – Tonta! olha meu pai!...
INÊS (Encolhendo os ombros) – Tenho meu padrinho.
BRITES – Que faremos até ao meio-dia?... vou mandar trazer almofadas e banquinhas: quero ver se a Antonica da Silva faz rendas (Sobe a escada, dá ordens e volta).
JOANA (Voltando com Benjamim) – Ainda bem que não o prenderam.
BENJAMIM – Fugi, mas só à vingança do potentado; ao medo da guerra, não: as senhoras podem acreditar, que metido nestas saias está um homem.
JOANA – Provou-o, dando a bofetada no capitão-mor.
INÊS – Mamãe, ele deu bofetada em algum capitão-mor?...
JOANA – E por isso o perseguem, querem assentar-lhe praça de soldado... mas é preciso não falar nisto: segredo!...
BRITES – Recrutamento malvado! Em pouco tempo só ficarão velhos para noivos das moças. E para desesperar!
JOANA – (Vendo escravos que trazem quatro banquinhas e quatro almofadas) – Faremos rendas?... lembraram bem (Sentam-se nas banquinhas e tomam as almofadas).
INÊS (À parte) – Recrutamento e vingança... é horrível! (Senta-se).
JOANA (A Benjamim) – O senhor parece que não é novo na almofada!
BENJAMIM – O pior é que eu faço rendas; mas não as tenho.
BRITES – A senhora Antonica da Silva aprendeu a fazer rendas com os frades? (Trabalham todas).
BENJAMIM – Com os frades? não senhora; aprendi com as freiras; ora... eis aí...
estou atrapalhado (A Inês) Pode ensinar-me como se trocam os bilros neste ponto?...
JOANA – Ensino eu... deixe ver...
BENJAMIM (À parte) – Mamãe Joana não me deixa salvar aparência alguma! (A Joana) Muito obrigado, já acertei (Troca os bilros com ardor).
BRITES – Vamos cantar?... (A Benjamim) a senhora Antonica da Silva que sabe tudo, sabe cantar o romance de Dagoberto?...
BENJAMIM – Canto, mas não sei se entôo.
BRITES – Cantemo-lo pois... ouviremos a sua voz... olhe que
deve ser de tiple .
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Antonica da Silva. 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=213 . Acesso em: 02 jan. 2026.