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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

— São duas filhas de uma senhora viúva, que também aí está, e que se chama a Ilma. Sra. d. Luíza. O meu defunto senhor era negociante e o pai de minha senhora é padre.

— Como se chama a senhora que está vestida de branco?

— A sra. d. Joana... tem dezessete anos, e morre por casar.

— Quem te disse isso?...

— Pelos olhos se conhece quem tem lombrigas, meu senhor!...

— Como te chamas?

— Tobias, escravo de meu senhor, crioulo de qualidade, fiel como um cão e vivo como um gato.

O maldito do crioulo era um clássico a falar português. Eu continuei:

— Hás de me levar um recado à sra. d. Joana.

— Pronto, lesto e agudo, respondeu-me o moleque.

— Pois toma sentido.

— Não precisa dizer duas vezes.

Ouve. Das duas uma: ou poderás falar com ela hoje, ou só amanhã...

— Hoje... agora mesmo. Nestas coisas Tobias não cochila: com licença de meu senhor, eu cá sou doutor nisto; meus parceiros me chamam orelha de cesto, pé de coelho e boca de taramela. Vá dizendo o que quiser, que em menos de dez minutos minha senhora saberá tudo; o recado de meu senhor é uma carambola que, batendo no meu ouvido vai logo bater no da senhora d. Joaninha.

— Pois dize-lhe que o moço que se sentar na última cadeira da 4ª coluna da superior, que assoar-se com uni lenço de seda verde, quando ela para ele olhar, se acha loucamente apaixonado de sua beleza etc., etc., etc.

— Sim, senhor, eu já sei o que se diz nessas ocasiões: o discurso fica por minha conta.

— E amanhã, ao anoitecer, espera-me na porta de tua casa.

— Pronto, lesto e agudo, repetiu de novo o crioulo.

— Eu recompensar-te-ei, se fores fiel.

— Mais pronto, mais lesto e mais agudo!

— Por agora toma estes cobres.

— Oh, meu senhor! Prontíssimo, lentíssimo e agudíssimo.

Ignoro de que meios se serviu o Tobias para executar sua comissão. O que sei é que antes de começar o 2º ato já eu havia feito o sinal, e então comecei a pôr em ação toda a mímica amantética que me lembrou: o namoro estava entabulado; embora a moça não correspondesse aos sinais do meu telégrafo, concedendo-me

apenas amiudados e curiosos olhares, isso era já muito para quem a via pela primeira vez.

Finalmente, sr. Augusto dos meus pecados, o negócio adiantou-se, e hoje, tarde me arrependo e não sei como me livre de semelhante entaladela, pois o Tobias não me sai da porta. Já não tenho tempo de exercer o meu classismo; há três meses que não como empadas e, apesar de minhas economias, ando sempre com as algibeiras a tocar matinas. Para maior martírio a minha querida é a sra. Joana, prima de Filipe.

Para compreenderes bem o quanto sofro, aqui te escrevo algumas das principais exigências da minha amada romântica.

1º Devo passar por defronte de sua casa duas vezes de manhã e duas à tarde. Aqui, vês bem, principia a minha vergonha, pois não há pela vizinhança gordurento caixeirinho que se não ria nas minhas barbas quatro vezes por dia.

2º Devo escrever-lhe, pelo menos, quatro cartas por semana, em papel bordado, de custo de 400 réis a folha. Ora, isto é detestável, porque eu não sei onde vá buscar mais cruzados para comprar papel, nem mais asneiras para lhe escrever.

3º Devo tratá-la por "minha linda prima" e ela a mim por "querido primo".

Daqui concluo que a sra. d. Joana leu o Faublas. Boa recomendação!...

4º Devo ir ao teatro sempre que ela for, o que sucede quatro vezes no mês; o mesmo a respeito de bailes. Esta despesa arrasa-me a mesada terrivelmente.

5º Ao teatro e bailes devo levar no pescoço um lenço ou manta da cor da fita que ela porá em seu vestido ou no cabelo, o que, com antecedência, me é participado. Isto é um despotismo detestável.

Finalmente, ela quer governar os meus cabelos, as minhas barbas, a cor de meus lenços, a minha casaca, a minha bengala, os botins que calço e, por último, ordenou-me que não fumasse charutos de Havana nem de Manilha, porque era isto falta de patriotismo.

Para bem rematar o quadro das desgraças que me sobrevieram com a tal paixão romântica que me aconselhaste, d. Joana, dir-te-ei, mostra amar-me com extremo, e, no meio de seus caprichos de menina, dá-me prova do mais constante e desvelado amor; mas que importa isso, se eu não posso pagar-lhe com gratidão?... Vocês com seu romantismo a que me não posso acomodar, a chamariam "pálida". Eu, que sou clássico em corpo e alma e que, portanto, dou os coisas o seu verdadeiro nome, a chamarei sempre "amarela".



(continua...)

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