Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Plácido – Ainda bem! Oh! Luciano! Luciano! Mal sabes o que te espera!...Senhor Velasco, vá reunir-se aos nossos amigos, e...silêncio. (Vai para dentro).
Velasco – Acabo de lançar-me em um caminho perigoso; embora: quem não arrisca, não ganha. Se eu perder no jogo, terei pelo menos feito beber fel e vinagre a esse revolucionário que detesto, a esta família estúpida que não me aprecia bastante, e ao senhor Plácido, que, sendo meu patrício, me havia posto de lado para casar a filha e dar a sua riqueza a um brasileiro!... Ânimo! O dia é para mim de jogo forte. Vou jogar. (Entra).
CENA IX
Afonsina e logo Luciano
Afonsina – Como sou feliz! O horizonte da minha vida é um quadro de flores: amo, sou amada; meus pais abençoam o meu amor e meus votos; meus juramento de envolta com os de Luciano vão ser levados ao céu nas asas dos anjos!Oh! Meu Deus! Meu Deus! O coração é muito pequeno para tão grande felicidade.
Luciano – Afonsina! Minha Afonsina!
Afonsina – Luciano...já sabes...
Luciano – Encontrei na casa do intendente nossa mãe, que tudo me disso, e vejo a coroa e o véu de noiva em tua cabeça patenteando a minha glória: oh! de joelhos!
de joelhos! Agradeçamos a Deus tanta ventura!
Afonsina – Sim... sim... é impossível mais felicidade do que a nossa.
Luciano – E ainda é maior do que pensas; errarei muito se não é verdade que saudaremos hoje a um só tempo o triunfo sincero do amor e o triunfo heróico da pátria: Afonsina, os cantos de amor vão misturar-se com os hinos da liberdade...
Afonsina – Como?
Luciano – Creio que um acontecimento grandioso teve lugar. O ministro José Bonifácio acaba de receber despachos e notícias do Príncipe; oh! o meu coração transborda de entusiasmo, e eu espero saudar hoje a pátria da minha Afonsina, como nação livre e independente.
Afonsina – Oh! praza ao céu que a glória da pátria venha refletir seus raios brilhantes sobre a pira do nosso himeneu.
Luciano – E a pátria será tua única rival; a amada única que terei além de ti!
Afonsina – Mas a essa minha rival eu amo, eu adoro também! Nem eu te quisera para meu esposo se não a amasses tanto! A essa minha rival...Oh! meu Luciano, amo-a! adoro-a tanto, como a mim! Ainda mais do que a mim!...
Luciano – Afonsina!
Afonsina – (Correndo a abraçar-se) – Luciano!
CENA X
Os precedentes, e Plácido aparecendo.
Plácido – Separai-vos!...
Afonsina – Meu pai!...
Luciano – Senhor!...
Plácido – Separai-vos, disse: Afonsina, o teu casamento só mais tarde terá lugar, e outro será teu esposo, porque este senhor é...um...infame...
Luciano – Infame! Infame!...oh! meu Deus! Eu mataria outro qualquer homem que ousasse dizê-lo!
Afonsina – Luciano!... é meu pai!
Luciano – Estás vendo que o não esqueci.
Plácido – Nada mais há de comum entre nós: o senhor sabe que praticou uma infâmia,e tanto basta. Seja feliz...suba...conquiste posição...honras...fortuna; pressinto que terá um futuro imenso... é hábil...conseguirá tudo, menos ser esposo de minha filha.
Afonsina – Meu pai, caluniaram a Luciano.
Plácido – Não; foi ele que se desonrou.
Afonsina – É calúnia, meu pai!
Luciano – Obrigado, Afonsina; juro-te pela nossa pátria, que me faze justiça. (A Plácido) Senhor, ninguém no mundo, e nem vossa mercê, é mais honrado do que eu.
Plácido – Acabemos com isto (Falando para dentro). Venham todos, entrem, senhores!
Afonsina – Oh! meu Deus!...Luciano...Luciano – Sossega.
CENA XI
Os precedentes, Prudêncio, Velasco, Senhoras, Cavalheiros.
Prudêncio – São horas do casamento?...
Plácido – Justiça seja feita!
Prudêncio – Justiça! Tenho muito medo desta senhora, porque padece da vista, e às vezes dá pancada de cego.
Plácido – Senhores, tenho de cumprir um ato de solene justiça; ouçam-me.
Afonsina – Eu tremo!...
Plácido – Sejam todos testemunhas do que vou dizer, e do que se vai passar.
Senhores, acabo de romper o casamento que devia celebrar-se hoje. O senhor Luciano é indigno da mão de minha filha.
Prudêncio – Então como diabo foi isso?
Plácido – Esse
mancebo, a quem sempre servi de pai desvelado, atraiçoou-me, feriu-me com a
mais perversa calúnia. Esperando, sem dúvida, ficar de posse dos meus bens e
riqueza, denunciou-me ao governo como inimigo do Príncipe e da causa do Brasil,
e pediu a minha imediata deportação.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Amor e Pátria. [S.l.]: [s.n.], s.d.. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16668 . Acesso em: 29 dez. 2025.