Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Do rio de Camaratibe até a baía da Traição são duas léguas, a qual está em seis graus e 1/3, onde ancoram naus francesas e entram dos arrecifes para dentro. Chama-se esta baía pelo gentio potiguar Acajutibiró, e os portugueses, da Traição, por com ela matarem uns poucos de castelhanos e portugueses que nesta costa se perderam. Nesta baía fazem cada ano os franceses muito pau de tinta e carregam dele muitas naus. Desta baía da Traição ao rio Maguape são três léguas, o qual está em seis graus e meio. Do rio de Maguape ao da Paraíba são cinco léguas, o qual está em seis graus e três quartos; a este rio chamam — na carta de marear — de São Domingos, onde entram naus de 200 tonéis, e no rio de Maguape entram caravelas da costa; mas o rio de São Domingos se navega muito pela terra adentro, de onde ele vem de bem longe. Tem este rio um ilhéu da boca para dentro que lhe faz duas barras, e pela que está da banda do norte entram caravelões que navegam por entre a terra e os arrecifes até Ita-maracá, e pela outra barra entram as naus grandes; e porque entravam cada ano neste rio naus francesas a carregar o pau de tinta com que abatia o que ia para o Reino das mais capitanias por conta dos portugueses e porque o gentio potiguar andava mui levantado contra os moradores da capitania de Ita-maracá e Pernambuco, com o favor dos franceses, com os quais fizeram nessas capitanias grandes danos, queimando engenhos e outras muitas fazendas, em que mataram muitos homens brancos e escravos; assentou Sua Majestade de o mandar povoar e fortificar para o que mandou a isso Frutuoso Barbosa com muitos moradores, o que se começou a fazer com mui grande alvoroço dos moradores destas duas capitanias. Foi Deus servido que lhe sucedesse mal com lhe matarem os potiguares (em cuja companhia andavam muitos franceses), trinta e seis homens e alguns escravos numa cilada, com o qual sucesso se descontentaram muito os moradores de Pernambuco; e se desavieram com Frutuoso Barbosa, de feição que se tornaram para suas casas, e eie ficou impossibilitado para poder pôr em efeito o que lhe era encomendado, o que se depois efetuou com o favor e ajuda que para isso deu Diogo Flores de Valdez, general da armada que foi ao estreito de Magalhães.
C A P Í T U L O XII
Em que se trata de como se tornou a cometer a povoação do rio da Paraíba.
Na baía de Todos os Santos soube o general Diogo Flores, vindo aí do estreito de Magalhães, com seis naus que lhe ficaram da armada que levou, como os moradores de Pernambuco e Ita-maracá pediam muito afincadamente ao governador Manuel Teles Barreto, que era então do Estado do Brasil, que os fosse socorrer contra o gentio potiguar que os ia destruindo, com o favor e ajuda dos franceses, os quais tinham neste rio da Paraíba quatro navios para carregar de pau de tinta; e, posto este negócio em conselho, se assentou que o governador, naquela conjunção, não era bem que saísse da Bahia, pois não havia mais de seis meses que era a ela chegado, onde tinha por prover em grandes negócios convenientes ao serviço de Deus e de el-rei e do bem comum, mas que, pois naquele porto estava o general Diogo Flores, com aquela armada, e Diogo Vaz da Veiga com duas naus portuguesas da armada em que do Reino fora o governador, das quais vinha por capitão para o Reino, que um capitão e outro fossem fazer este socorro, indo por cabeça principal o capitão Diogo Flores de Baldez, o qual chegou a Pernambuco com a armada toda junta, com que veio o ouvidor geral Martim Leitão e o provedor-mor Martim Carvalho para, em Pernambuco, a favorecerem com gente e mantimentos, como o fizeram, a qual gente foi por terra e o general por mar com esta armada, com a qual ancorou fora da barra, e não entrou dentro com mais que com a sua fragata e uma nau das de Diogo Vaz da Veiga, de que era capitão Pedro Correia de Lacerda, em a qual o mesmo Diogo Vaz ia, e com todos os batéis das outras naus. Em os franceses vendo esta armada puseram fogo às suas naus e lançaram-se com o gentio, com o qual fizeram mostras de quererem impedir a desembarcação, o que não lhes serviu de nada, que o general desembarcou a pé enxuto, sem lho poderem impedir, e chegou a gente de Pernambuco e Itama-racá por terra com muitos escravos e todos juntos ordenaram um forte de terra e faxina onde se recolheram, no qual Diogo Flores deixou cento e tantos homens dos seus soldados com um capitão para os caudilhar, que se chamava Francisco Castrejon que se amassou tão mal com Frutuoso Barbosa não o querendo conhecer por governador, que foi forçado a deixá-lo neste forte, só, e irse para Pernambuco, de onde se queixou a Sua Majestade para que provesse sobre o caso, como lhe parecesse mais seu serviço. E sendo ausente Frutuoso Barbosa, veio o gentio por algumas vezes afrontar este forte e pô-lo em cerco, o qual sofreu mal o capitão Francisco Castrejon. E, apertado dos trabalhos, desamparou este forte o largou aos contrários, passando-se por terra à capitania de Itamaracá, que é daí dezoito léguas, e pelo caminho que lhe matou o gentio alguma gente que lhe ficou atrás, como foram mulheres e outra gente fraca. Mas, sabendo os moradores de Pernambuco este destroço, se ajuntaram e tornaram a este rio da Paraíba, com Frutuoso Barbosa e se tornaram a apoderar deste forte, o qual Sua Majestade tem agora socorrido com gente, munições e mantimentos necessários, a quem se juntou uma aldeia do gentio tupinambá, que se apartou dos potiguares, e se veio viver à borda da água, para ajudar a favorecer este forte. Este rio da Paraíba é mui necessário fortificar-se, uma por tirar esta ladroeira dos franceses dele, outra por se povoar, pois é a terra capaz para isso, onde se podem fazer muitos engenhos de açúcar. E povoado este rio, como convém, ficam seguros os engenhos da capitania de Itamaracá e alguns da de Pernambuco, que não lavram com temor dos potiguares, e outras se tornarão a reformar, que eles queimaram e destruíram. Dos quais potiguares é bem que façamos este capítulo, que se segue, antes que saiamos do seu limite.
C A P Í T U L O XIII
Que trata da vida e costumes do gentio potiguar.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.