Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)
Uma fruta se dá nesta terra do Brasil muito saborosa, e mais prezada de quantas há. Cria-se numa planta humilde junto do chão, a qual tem umas pencas como cardo, a fruta dela nasce como alcachofras e parecem naturalmente pinhas, e são do mesmo tamanho, chamam-lhes Ananases, e depois de maduros tem um cheiro muito excelente, colem-nos como são de vez, e com uma faca tiram-lhes aquela casca grossa e fazem-nos em talhadas e desta maneira se comem, excedem no gosto a quantas frutas há neste Reino, e fazem todos tanto por esta fruta, que mandam plantar roças dela, como de cardais: a este nosso Reino trazem muitos destes ananases em conserva. Outra fruta se cria numas arvores grandes, estas se não plantão, nascem pelo mato muitas; esta fruta depois de madura é muito amarela: são como pelos repinaldos compridos, chamam-lhes Cajus, têm muito sumo, e cria-se na ponta desta fruta de fora um caroço como castanha, e nasce diante da mesma fruta, o qual tem a casca mais amargosa que fel, e se tocarem com ela nos beiços dura muito aquele amargor e faz empolar toda a boca; pelo contrario este caroço assado, e muito mais gostoso que amêndoa; são de sua natureza mui quentes ao extremo. Há na terra tantos destes caroços que os medem aos adquires. Também há uma fruta que lhe chamam Bananas, e pela língua dos indios Pacovas: há na terra muita abundância delas: parecem-se na feição com pepinos, nascem numas arvores mui tenras e não são muito altas, nem têm ramos senão folhas mui compridas e largas. Estas bananas criam-se em cachos, algum se acha que tem de cento e cinqüenta pela cima, e muitas vezes e tão grande o peso delas que faz quebrar a árvore pelo meio; como são de vez colhem estes cachos, e depois de colhidos amadurecem, e tanto que estas árvores dão uma fruta, logo as cortam porque não frutificam mais que a primeira vez, e tornam a rebentar pelos pés outras novas. Esta e uma fruta mui saborosa e das boas que há na terra, tem uma pele como de figo, a qual lhes lançam fora quando as querem comer e se come muitas delas fazem dano a saúde e causam febre a quem se desmanda nelas. E assadas maduras são muito sadias e mandam-se dar aos enfermos. Com esta fruta se mantém a maior parte dos escravos desta terra, porque assadas verdes passam por mantimento e quase tem sustância de pão. Há duas qualidades desta fruta umas são pequenas como figos berjaçotes, as outras são maiores e mais compridas. Estas pequenas têm dentro em si uma cousa estranha, a qual e que quando as cortam pelo meio com uma faca ou por qualquer parte que seja acha-se nelas um sinal à maneira de Crucifixo, e assim totalmente o parecem. Também há uma fruta que se chama Bracases, são como nêsperas posto que comam muita não fazem mal a saúde. Há muita pimenta da terra, come-se verde, queima muito em grande maneira Outras muitas frutas há por mato dentro de diversas qualidades, e são tantas que já se acharam pela terra dentro algumas pessoas e sustentaram-se com elas muitos dias sem outro mantimento algum. Estas que aqui escrevo são as que os portugueses têm entre si em mais estima e as melhores da terra. Algumas frutas deste Reino se dão nestas partes, scilicet, muitos melões, pepinos e figos de muitas castas, romãs, muitas parreiras que dão uvas duas, três vezes no ano, e tanto que umas se acabam, começam logo outras novamente. E desta maneira nunca está o Brasil sem frutas.De limões e laranjas há muita infinidade; dão-se muito na terra estas árvores de espinho e multiplicam mais que as outras.
CAPÍTULO VII
DA CONDIÇAO E COSTUMES DOS INDIOS DA TERRA
(continua...)
GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil.