Por Padre Antônio Vieira (1669)
Esta foi a razão ainda natural por que Pedro saiu do lugar onde via, e onde entrara para ver. Saiu para que as suas lágrimas saíssem: Et egressus foras, flevit amare. Entrou para ver, saiu para chorar, porque enquanto a vista tinha entrada, não podiam as lágrimas ter saída. E para que o mesmo S. Pedro nos prove a verdade desta filosofia, diz S. Marcos no texto grego, conforme a interpretação de Teofilato, que saindo S. Pedro do átrio, lançou a capa sobre o rosto, e então começou a chorar: Cum caput obvelasset, flevit (Mc. 14,30). Para Pedro poder chorar, cobriu primeiro os olhos para não ver. Saiu para não ver o que via, e cobriu os olhos para que nenhuma coisa vissem, e quando não viu, nem pôde ver, então pôde chorar, e chorou: Flevit. O pranto mais público que se viu na nação portuguesa, foi quando chegaram à Índia as novas da morte de el-rei Dom Manoel, primeiro e verdadeiro pai daquela monarquia. Estava o vice-rei na Sé, como nós agora, ouvindo sermão, e tanto que lhe deram a triste nova, diz a história que lançou a capa sobre o rosto, e que fazendo todo o auditório o mesmo, começaram a chorar em grito, e se levantou o maior, e mais lastimoso pranto que jamais se vira. Este era o uso dos capuzes portugueses, quando também se usava o chorar. Metiam os capuzes na cabeça até o peito, cobriam e escureciam os olhos, e assim choravam e lamentavam o defunto. Depois que as mortes se não choram, trazem-se os capuzes por detrás das costas, para que nem os olhos os vejam. Não foi assim o luto que Pedro fez pela morte da sua alma; mas porque a quis logo chorar, cobriu os olhos para não ver: Cum caput obvelasset, flevit.
§VI
Para onde se retirou S. Pedro depois da negação? Davi, o Pedro da lei escrita; Pedro, o Davi da lei da graça. As lágrimas de Pedro e o desejo de Jeremias.
Assim saiu Pedro do lugar da sua desgraça. Mas para onde saiu? Diz Nicéforo, e outros autores eclesiásticos mais vizinhos daquele tempo, que se foi S. Pedro meter em uma cova, entre Jerusalém e o Monte Sião. Tinha prometido morrer com Cristo, mas porque não tivera ânimo para morrer, teve resolução para se sepultar. Nesta sepultura triste, solitária, escura, como os olhos não tiveram luz para ver, tiveram maior liberdade para chorar. Só na suposição de um paralelo se pode conhecer este excesso, ou este artifício das lágrimas de S. Pedro. Os dois exemplares da penitência que Deus pôs neste mundo em uma e outra lei, foi S. Pedro e Davi. Davi foi o Pedro da lei escrita; Pedro foi o Davi da lei da graça. E assim como S. Pedro escolheu lugar porticular para as suas lágrimas, assim Davi escolheu tempo porticular para as suas. Mas qual escolheu melhor e mais finamente? Agora o veremos.
O tempo que Davi escolheu para as suas lágrimas, foi o que diz mais com os tristes: o tempo escuro da noite: Per singulas noctes, lacrymis meis stratum meum rigabo.41 De dia governava, de noite chorava: o dia dava aos negócios, a noite às lágrimas. Oh! que exemplo este para reis, para ministros, e para todos os que gastam o dia em ocupações, ou públicas, ou porticulares! As flores anoitecem murchas e quase secas, mas com o orvalho da noite amanhecem frescas, vigorosas, ressuscitadas. Assim o fazia Davi, e assim regava a sua alma todas as noites: Per singulas noctes, lacrymis meis stratum meum rigabo. Mas tornemos ao motivo desta eleição. E por que razão escolhia Davi o tempo escuro da noite para chorar? Porque de dia, com a luz, como está livre o uso do ver, fica embaraçado o exercício do chorar; mas de noite, com a sombra e escuridade das trevas, fica livre e desembaraçado o exercício do chorar, porque está impedido o uso de ver. A mesma razão seguiu S. Pedro na eleição da sua cova, mas com maior crédito da sua dor; e para maior excesso das suas lágrimas. Davi escolheu o tempo da noite, e assim chorava de noite, mas de dia não chorava; porém Pedro escolheu uma cova escura, em que de dia e de noite sempre fosse noite, para que de dia e de noite sempre chorasse. Os olhos de Davi, alternando o dia com a noite, alternavam também o ver com o chorar; porém os olhos de Pedro, metidos naquela noite sucessiva e continuada, nem de dia, nem de noite viam, e de dia, e de noite sempre choravam.
Só Pedro pôde conseguir para as suas lágrimas o que só Jeremias soube desejar para as suas: Quis dabit capiti meo aquam, et oculis meis fontem lacrymarum, et plorabo die ac nocte!42 Oh! quem dera fontes de lágrimas a meus olhos, dizia Jeremias, para chorar de dia e de noite! Vede quão discreta e quão encarecidamente pedia Jeremias. Não só pedia lágrimas, senão fontes de lágrimas: Fontem lacrymarum. E por que pedia fontes? Porque desejava chorar de dia e de noite: Et plorabo die ac nocte. As fontes não fazem diferença de noite a dia: de dia e de noite sempre correm, e como Jeremias desejava chorar de dia e de noite: Plorabo die ac nocte, por isso pedia fontes de lágrimas, ou lágrimas como fontes: Et oculis meis fontem lacrymarum. Tais eram as fontes dos olhos de Pedro naquela cova escura. Não havia ali diferença de noite a dia, porque não havia luz, e como a luz não interrompia a noite, a vista não interrompia as lágrimas: a noite suspendia perpetuamente o ver, as lágrimas continuavam perpetuamente a chorar. Chorava amargamente porque vira, chorava continuamente porque não via: fora do paço, onde vira, para não ver; dentro da cova, onde não via, para sempre chorar: Egressus foras, flevit amare.
§VII
Que dizem os olhos de Pedro? O concerto de Jó com seus olhos. As três tentações, representadas pelas ancilas e pelo soldado. O escândalo dos olhos e a admoestação de Cristo.
Até agora falamos com os olhos de Pedro: agora falem os olhos de Pedro com os nossos. Os olhos também falam: Neque taceat pupilla oculi tui.43 E que dizemos olhos de Pedro? Que dizem aqueles dois grandes pregadores aos nossos olhos? Olhos, aprendei de nós: nós vimos, e porque vimos, choramos; do nosso ver, aprendei a não ver; do nosso chorar aprendei a chorar. Oh! que grandes duas lições para os nossos olhos!
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.