Por Padre Antônio Vieira (1669)
Na cidade de Belém curou Cristo outro cego, como este de Jerusalém, mas não o curou pelo mesmo modo, porque as mesmas enfermidades, quando os sujeitos não são os mesmos, muitas vezes requerem diversa cura. Pôs o Senhor a mão nos olhos a este cego, e perguntou-lhe se via. Olhou ele, e disse: Video homines velut arbores ambulantes (Mc. 8,24); Senhor, vejo os homens como umas árvores que andam de uma parte para outra. – Torna Cristo a aplicar-lhe outra vez a mão, e diz o texto que desta segunda vez começou o homem a ver: Iterum imposuit manus super oculos ejus, et coepit videre. Neste coepit videre reparo, e é muito para reparar. Este homem é certo que começou a ver da primeira vez que Cristo lhe pôs a mão nos olhos, porque até ali não via nada, e então começou a ver os homens como árvores. Pois se o cego, da primeira vez começou a ver os homens como árvores, como diz o evangelista que não começou a ver senão da segunda vez: Iterum imposuit manus super oculos ejus, et coepit videre? Porque da primeira vez via as coisas como não eram, da segunda vez já as via como eram; da primeira vez, via os homens como árvores, da segunda vez, via as árvores como árvores e os homens como homens. E ver as coisas como são, isso é ver; mas vê-las como não são, não é ver, é estar cego.
Sim. Mas este homem estava cego quando não via nada, e se estava também cego quando via as coisas como não eram, quando estava mais cego? Quando as via ou quando as não via? Quando as via estava muito mais cego, porque quando não via nada tinha privação da vista; quando via as coisas às avessas, tinha erro na vista, e muito maior cegueira é o erro que a privação. A privação era um defeito inocente, que não mentia nem enganava; o erro era uma mentira com aparência de verdade, era um engano com representação de certeza, era um falso testemunho com assinado de vista. E se não, vamos ao caso. É filosofia bem-fundada de Filo Hebreu que os olhos não só vêem a cor, senão a cor, afigura e o movimento, e em todas estas três coisas errou a primeira vista daquele homem, representando-lhe os homens como árvores. Errou na cor, porque as árvores são verdes e os homens, cada um é da cor de seu rosto e do seu vestido. Errou na figura, porque as árvores têm um pé, e os homens dois; os homens têm dois braços e as árvores muitos. Errou no movimento, porque os homens movem-se progressivamente e mudam de lugares, e as árvores estão sempre firmes, e se movem com o vento, não mudam de lugar. Eis aqui quantos erros, quantos enganos e quantas cegueiras se envolviam naquela primeira vista. Por isso o evangelista disse que quando o cego via desta maneira, ainda não tinha começado a ver; porque ver umas coisas por outras não e vista, é cegueira, e mais que cegueira.
Os mais cegos homens que houve no mundo foram os primeiros
homens. Disse-lhes Deus, não por terceira pessoa, senão por si mesmo, e não por
enigmas ou metáforas, senão por palavras expressas, que aquela fruta da árvore,
que lhes proibia, era venenosa, e que no mesmo dia em que a comessem haviam de
perder a imortalidade em que foram criados, não só para si, senão para todos
seus filhos e descendentes; e contudo comeram. Há homem tão cego que coma o
veneno conhecido como veneno para se matar? Há homem tão cego que dê o veneno
conhecido como veneno a seus filhos para os ver morrer diante de seus olhos?
Tal foi a cegueira dos primeiros homens, e não cegueira de olhos meio abertos,
como a daquele cego, senão de olhos totalmente abertos, porque tudo isto viam
muito mais clara e muito mais evidentemente do que nós o vemos e admiramos.
Pois, como caíram em uma cegueira tão estranha; como foram, ou como puderam ser
tão cegos? Não foram cegos porque não viram, que tudo viam; mas foram cegos
porque viram uma coisa por outra. O mesmo texto o diz: Vidit mulier, quod bonum
esset lignum ad vescendum (Gên. 3,6): Viu a mulher que aquela fruta era boa
para comer. – Mulher cega, e cega quando viste, e porque viste: vê o que vês, e
não vejas o que não vês. Assim havia de ser. Mas Eva, com os olhos abertos,
estava tão cega, que não via o que via e via o que não via. A fruta vedada era
má para comer e boa para não comer. Má para comer, porque, comida, era veneno e
morte; boa para não comer, porque, não comida, era vida e imortalidade. Pois se
a fruta só para não comer era boa, e para comer não era boa, senão muito má,
como viu Eva que era boa para comer: Este homem não é de Deus (Jo. 9,16). Este
homem não é de Deus (Jo. 9,16). Vidit quod bonum esset ad vescendum? Porque era
tão cega a sua vista, ou tão errada a sua cegueira, que, olhando para a mesma
fruta, não via o que era e via o que não era. Não via que era má para comer,
sendo má, e via que era boa para comer, não sendo boa: Vidit quod bonum
esset.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.