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#Sermões#Retórica

Sermão do Santíssimo Sacramento

Por Padre Antônio Vieira (1674)

Esta é, senhores, a representação que vos prometi do vosso problema: Utrum diligatis eum, an non, disputado na história do Jordão, e resoluto diversamente por ambas as partes: uma que parou reverente à presença da Arca; outra que voltou as costas e correu ao mar. Veja agora cada um qual destas partes ou partidos se resolve a seguir. E porque toda a tentação de amar ou não amar a Deus nestes dias se vem a resumir no que se resume a religião ou vaidades deles, que é sacrificar ou não sacrificar o riso, disponhamo-nos animosamente para o sacrifício, e tomemos por exemplar dele um vencedor famoso de semelhante tentação, e tentação também de Deus, como a nossa.

Tentou Deus a Abraão para provar seu amor. São os termos com que fala a Escritura: Tentavit Deus Abraham (Gên. 22, 1). A tentação foi que lhe sacrificasse Isac, o seu amado. E diz S. Paulo que esta tentação de Abraão e sacrifício de Isac foi parábola de Deus: Unde eum in parabolam accepit. Mas como foi parábola, se é história verdadeira? Não quer dizer o apóstolo que não fosse verdadeira história. Quer dizer que foi história e parábola juntamente: história pelo que era, parábola pelo que significava. Saibamos agora. E que significa Isac e o seu sacrifício? Isac significa riso. E ainda que pareça matéria de riso, este riso, na significação de Deus, é a matéria de toda a tentação, e este riso é o que Deus nos manda sacrificar. S. Bernardo: Dicitur tibi, ut immoles Isaac tuum, Isaac enim interpretatur risus: Sabeis, diz Bernardo, o que Deus manda que lhe sacrifiquemos quando manda sacrificar Isac? Manda que lhe sacrifiquemos o riso. Quando mandou a Abraão que sacrificasse o seu Isac, mandou-lhe que sacrificasse o seu filho, e esta foi a história. Quando nos manda que sacrifiquemos o nosso Isac, manda-nos que sacrifiquemos o nosso riso, e esta foi a parábola: Eum in parabolam accepit.

Todos estamos tentados por Deus, como Abraão: Tentat vos Dominus Deus vester. Todos estamos tentados, como ele, para fazer prova do nosso amor: Ut palam fiat utrum diligatis eum, an non. Se há quem se atreva a sacrificar o seu Isac, suba com Abraão ao monte para o imitar. E note bem a gentileza daquele grande coração e daquele braço. O formidabile spetaculum! Amor in prolem, Deique dilectio judicio contendunt, et judex ensifer instat Abrahamus; et gladio jus dicit: O formidável espetáculo! – diz S. Basílio de Selêucia. Litigavam no coração de Abraão dois amores, ambos grandes, ambos fortes, ambos dificultosos de vencer: o amor de Deus, e o amor de Isac. Por parte de Deus advogava a fé; por parte de Isac contradizia toda a natureza. E Abraão, posto no meio destes dois afetos, era o juiz que com a espada havia de pronunciar a sentença. – Tal é a controvérsia, ó cristão, que tu hás de decidir neste ponto: Utrum diligatis eum, an non. Se amas verdadeiramente a Deus, há de morrer Isac; se Isac vive, não amas a Deus. O céu por parte de Deus, a terra por parte da mundo, esperam suspensos a tua resolução. Tu és o juiz: dá a sentença. Que dizes? Sim ou não? Oh! como me parece, fiéis amadores de Cristo, estar vendo em cada um de vós outro Abraão com o braço e com a espada levantada, para cortar a cabeça a este Isac, não inocente, mas réu, não legítimo, mas adulterino, não digno de viver, mas de morrer de uma vez e acabar para sempre. Morra, morra Isac; viva, viva Cristo, viva o Diviníssimo Sacramento. Mas que é o que vejo? Não um anjo do céu, como o de Abraão, mas um anjo do inferno, que da parte do mundo e do apetite vos brada, vos tem mão no braço e vos faz cair a espada. Tal é a fraqueza de nossa fé, tal a covardia de nossos corações. Enfim este ano será como os demais, e se cumprirá a parábola inteiramente. Viverá Isac, e o sacrificado será o Cordeiro. Vós, Senhor, sereis o deixado, e o mundo o buscado e o seguido. Vós estareis aqui quase só, e Roma no corso e nos teatros.

Notou o mesmo S. Basílio, como já o tinha escrito Josefo, que Abraão teve sempre o caso em segredo, e nem quando recebeu o mandamento de Deus, nem quando aparelhou e partiu ao sacrifício, deu conta ou notícia dele a Sara. E a razão foi, diz o santo, porque ainda que Abraão venerava e tinha grande conceito da fé, da devoção e da piedade de Sara, considerou contudo o gênio feminil, e temeu que, como mulher e mãe, não tivesse valor para consentir no sacrifício: Ego quidem ejus animum suspicio, sed genium vereor. Conheceu o ânimo, mas temeu o gênio. Esta é também a razão da minha desconfiança: reverencio, mas receio: Suspicio, sed vereor. Abraão era o pai dos crentes, e Sara a mãe. O pai dos crentes teve valor para fazer o sacrifício: a mãe dos crentes não. E quem é a mãe dos crentes, senão tu, ó Roma?

§VI

O autor, com S. Jerônimo, incita Roma para que interprete seu nome. As águias e o corpo de Cristo.



(continua...)

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