Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Quantos na tempestade, bradando ao céu, foram comidos das ondas? Quantos no cativeiro, orando continuamente pela liberdade, acabaram a miserável vida nos ferros e nas masmorras? E para que não vamos mais longe, no mesmo caso do nosso texto temos a mãe dos filhos de Zebedeu pedindo, e pedindo de joelhos: Adorans, et petens aliquid ab eo. E a resposta da sua petição, sendo o mesmo Cristo a quem pediam, foi um não muito desenganado e muito liso: Non est meum dare vobis. Pois se é verdade certa e evangélica, experimentada, ordinária e manifesta que muitos pedem a Deus e não alcançam o que pedem, como diz Cristo: Pedi e recebereis? E como afirma absoluta e universalmente que todos os que pedem recebem? A dúvida não pode ser mais apertada, mas é da casta daquelas que se fundam na falta de inteligência, ou errada apreensão do texto. Ponderai e reparai bem no que dizem as palavras, e no que não dizem: Petite et accipietis: Omnis enim Qui petit accipit. Não diz Cristo: Pedi e recebereis o que pedi, senão: Pedi e recebereis. Nem diz: Todo o que pede recebe o que pede, senão: Todo o que pede recebe. E que é o que recebe? O que Deus sabe que lhe está melhor. Se pedis o que vos convém, recebeis o que pedis, mas se pedis o que vos não convém, recebeis o não se vos dar o que pedíeis. Deste modo, todo o que pede recebe: Omnis qui petit, accipit, porque, ou recebe o que pede, ou recebe o que havia de pedir, se soubera o que pedia. Quando um homem pede o que lhe não convém, se soubera o que pedia, havia de pedir que lho negassem, e porque só Deus sabe o que nos convém, supre com a sua ciência a nossa ignorância, e por isso nos responde, como aos Zebedeus, com um não, e nos nega o que pedimos.

O mesmo Cristo declarou a sua proposição e a fez evidente com três exemplos familiares e caseiros, que se eu os trouxera havíeis de dizer que eram baixos, tão altiva é a nossa rudeza, e tão humana a sabedoria divina: Quis outem ex vobis patrem petit panem, nunquíd lapidem dabit illi? Aut piscem, nunquid pro pisce serpentem dabit illi? Aut si petierit ovum, nunquid porriget illi scorpionem? Se um filho, diz Cristo, pedir pão a seu pai, dar-lhe-á uma pedra? Se lhe pedir peixe, dar-lhe-á uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo, darlhe-á um escorpião? Pois esta é a razão por que Deus, que nos trata como filhos, nos diz muitas vezes de não e nos nega o que pedimos, porque pedimos pedras, porque pedimos serpentes, porque pedimos escorpiões. Cuidamos que pedimos o necessário, e pedimos o inútil; cuidamos que pedimos o proveitoso, e pedimos o nocivo: isto é pedir pedras. Cuidamos que pedimos sustento, e pedimos veneno; cuidamos que pedimos o que havemos de comer, e pedimos o que nos há de comer; cuidamos que pedimos com que viver, e pedimos o que nos há de matar: e isto é pedir serpentes e escorpiões. Quando somos tão néscios ou tão meninos que não distinguimos o escorpião do ovo, nem a serpente do peixe, nem o pão da pedra, Deus que é pai, e tão bom pai, por que nos não há de negar o que tão ignorante e tão perigosamente pedimos? Oh! ditosos aqueles a quem Deus assim despacha, porque sabe que não sabem o que pedem: Nescitis quid petatis!

E por que vos consoleis dobradamente, não tenho nenhumas invejas aos que o mundo chama bem-despachados; sabei e saibam eles que Deus, assim como tem um não para as mercês, também tem um sim para os castigos. Entre os homens, o melhor despacho das petições é: como pede. No tribunal de Deus muitas vezes é o contrário. Deus nos livre de um: como pede, de Deus, quando os homens não sabem o que pedem. Caminhavam pelo deserto os filhos de Israel, e enfastiados do maná, e lembrados das olhas do Egito, pediram carne. Levou Moisés a Deus a petição, não porque ele a aprovasse, mas importunado do povo. E que responderia Deus? Pedem carne? Sou muito contente: faça-se assim como pedem. Não só lhes darei carne, senão muita, e muito regalada. No mesmo ponto, à maneira de chuva, começaram a cair sobre os arraiais infinitas aves de pena, que assim fala o texto: Pluit super eos sicut pulverem carnes, et sicut arenam maris volatilia pennata (SI. 77, 27). Ora, grande é a paciência e liberalidade de Deus! A uns homens tão ingratos, desprezadores do maná do céu, assim lhes concede o que pedem? A um apetite tão desordenado, tanto favor? A uma petição tão descomedida, tanta mercê? Esperai um pouco pelo fim, e logo vereis. Muito contente o povo com a chuva nunca vista das aves de pena, começam a matar, a depenar, a guisar de vários modos; assentam-se às mesas com grande festa. E que sucedeu? Adhuc escae eorum erant in ore ipsorum, et ira Dei ascendit super eos (SI. 77, 30 s): Ainda tinham o comer na boca, quando veio a ira de Deus sobre eles. Comiam das aves, e como se foram serpentes ou escorpiões, cada bocado era outro tanto veneno, e caíam mortos. Eis aqui o fim do: como pedem. Parecia favor, e era castigo; parecia mercê de Deus, e era ira de Deus: Et ira Dei ascendit super eos. Por este e outros exemplos, disse altamente Santo Agostinho: Multa Deus concedit iratus, quae negaret propitius: Deus, irado, concede muitas coisas, as quais havia de negar se estivera propicio. Se Deus estivera propicio ao povo, havia-lhe de negar o que pedia; concedeu-lho, porque estava irado contra ele. Cuidais que esse despacho tão venturoso e tão invejado é mercê? Esperai-lhe pelo fim, e vereis que é castigo.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...56789...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →