Por Eça de Queirós (1887)
Detestei logo o Doutor Roxo. Em sua casa sofri vida dura e claustral; e foi um inefável gosto quando, no meu primeiro ano de Direito, o desagradável eclesiástico morreu miseravelmente de um antraz. Passei então para a divertida hospedagem das Pimentas, e conheci logo, sem moderação, todas as independências, e as fortes delicias da vida. Nunca mais rosnei a delambida oração a São Luís Gonzaga, nem dobrei o meu joelho viril diante de imagem benta que usasse auréola na nuca; embebedei-me com alarido nas Camelas; afirmei a minha robustez, esmurrando sanguinolentamente um marcador do Trony; fartei a carme com saborosos amores no Terreiro da Erva; vadiei ao luar, ganindo fados; usava moca; e como a barba me vinha, basta e negra, aceitei com orgulho a alcunha de Raposão. Todos os quinze dias, porém escrevia à Titi, na minha boa letra, uma carta humilde e piedosa, onde lhe contava a severidade dos meus estudos, o recato dos meus hábitos, as copiosas rezas e os rígidos jejuns, os sermões de que me nutria, os doces desagravos ao Coração de Jesus à tarde, na Sé, e as novenas com que consolava a minha alma em Santa-Cruz no remanso dos dias feriados...
Os meses de verão em Lisboa eram depois dolorosos. Não podia sair, mesmo a espontar o cabelo, sem implorar da Titi uma licença servil. Não ousava fumar ao café. Devia recolher virginalmente, à noitinha; e, antes de me deitar, tinha de rezar com a velha um longo terço no oratório. Eu próprio me condenara a esta detestável devoção!
- Tu lá nos teus estudos costumas fazer o teu terço? - perguntara-me, com secura, a Titi.
E eu, sorrindo abjetamente:
- Ora essa. É que nem posso adormecer sem ter rezado o meu rico terço...
Aos domingos continuavam as partidas. O Padre Pinheiro, rnais triste, queixava-se agora do coração, e um pouco também da bexiga. E havia outro comensal, velho amigo do Comendador
Godinho, fiel visita das Neves, o Margaride, o que fora delegado em Viana, depois juiz em Mangualde. Pico por morte de seu mano Abel, secretário da Câmara Patriarcal, o doutor aposentara-se, farto dos autos, e vivia em ócio, lendo os periódicos, num prédio seu na Praça da Figueira. Como conhecera o papá, e muitas vezes o acompanhara ao Mosteiro, tratou-me logo com autoridade e por você.
Era um homem corpulento e solene, já calvo, com um carão lívido, onde desatacavam as sobrancelhas cerradas, densas e negras como carvão. Raras vezes penetrava na sala da Titi sem atirar, logo da porta, uma notícia pavorosa. “então, não sabem? Um incêndio medonho, na Baixa!” Apenas uma fumaraça numa chaminé. Mas o bom Margaride, em novo, num sombrio acesso de imaginação, compusera duas tragédias; e dai lhe ficara este gosto mórbido de exagerar e de impressionar. “Ninguém como eu, dizia ele, saboreia o grandioso...”
E, sempre que aterrava a Titi e os sacerdotes, sorvia gravemente uma pitada.
Eu gostava do Doutor Margaride. Camarada do papá em Viana, muitas vezes lhe ouvira cantar, ao violão, a xácara do Conde Ordonho. Tardes inteiras vagueara com de poeticamente, pela beira da água, no Mosteiro, quando a mamã fazia raminhos silvestres à sombra dos amieiros. E mandoume as amêndoas mal eu nasci, à noitinha, em sexta-feira da Paixão. Além disso, mesmo na minha presença ele gabava francamente à Titi o meu intelecto, e a circunspecção dos meus modos.
- O nosso Teodorico, D. Patrocínio, é moco para deleitar uma tia... Vossa Excelência, minha rica senhora, tem aqui um Telêmaco!
Eu corava, modesto.
Ora, foi justamente passeando com ele no Rossio, num dia de agosto, que eu conheci um parente nosso, afastado, primo do Comendador G. Godinho. O Doutor Margaride apresentou-mo, dizendo apenas: - “o Xavier, teu primo, moço de grandes dotes”. Era um homem enxovalhado, de bigode louro, que fora galante e desbaratara furiosamente trinta contos, herdados de seu pai, dono de uma cordoaria em Alcântara. O Comendador G. Godinho, meses antes de morrer da sua pneumonia, tinha-o recolhido por caridade à Secretaria da Justiça, com vinte mil-réis por mês. E o Xavier agora vivia com uma espanhola chamada Cármen, e três filhos dela, num casebre da Rua da Fé.
Eu fui lá num domingo. Quase não havia móveis; a bacia da cara, a única, estava entalada no fundo roto da palhinha de uma cadeira. O Xavier toda a manhã deitara escarros de sangue pela boca. E a Cármen, despenteada, em chinelas, arrastando uma bata de fustão manchada de vinho, embalava sorumbaticamente pelo quarto uma criança embrulhada num trapo e com a cabecinha coberta de feridas.
Imediatamente o Xavier, tratando-me por tu, faiou-me da tia Patrocínio... Era a sua esperança, naquela sombria miséria, a tia Patrocínio! Serva de Jesus, proprietária de tantos prédios, ela não podia deixar um parente, um Godinho, definhar-se ali naquele casebre, sem lençóis, sem tabaco, com os filhos em redor, esfarrapados, a chorar por pão. Que custava a tia Patrocínio estabelecerlhe, como já fizera o Estado, uma mesadinha de vinte mil-réis?
- Tu é que lhe devias falar, Teodorico! Tu é que lhe devias dizer... Olha para essas crianças. Nem meias têm... Anda cá, Rodrigo, dize aqui ao tio Teodorico. Que comeste hoje ao almoço?... Um bocado de pão de ontem! E sem manteiga, sem mais nada! E aqui está a nossa vida, Teodorico! Olha que é duro, menino!
Enternecido, prometi falar à Titi.
Falar à Titi! Eu nem ousaria contar à Titi que conhecia o Xavier e que entrava nesse casebre impuro onde havia uma espanhola, emagrecida no pecado.
E para que eles não percebessem o meu ignóbil terror da Titi, não voltei à Rua da Fé.
No meado de setembro, no dia da Natividade de Nossa Senhora, soube pelo Doutor Barroso que o primo Xavier, quase a morrer, me queria falar em segredo.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.