Por Eça de Queirós (1925)
– V. Exª – tinha eu observado – devia, muitas vezes, durante as férias, vir passear aqui e sentir-se inspirado...
O Conde, que por causa da frescura da noite se estava cuidadosamente agasalhando no seu cachené, parou e disse, com aquele gesto grave que tanto impressionava a Câmara:
– Não o conte em Lisboa, Zagalinho, mas uma noite, aqui compus versos!
Eu não me atrevia a pedir-lhe que mos recitasse, mas, sem dúvida, a claridade da Lua no meu rosto revelou um desejo tão intenso de os ouvir, que o Conde, sempre bom, me tomou o braço e disse:
– Era uma noite de apetite: eu andava aqui a passear, a pensar, fumando o meu charuto, – que a tia Amália tinha horror ao fumo do tabaco –quando, de repente, a Lua ergueu-se por detrás dos salgueiros e um rouxinol pôs-se a cantar... e sem saber como, fiz uma quadra. Não a repita! Lembra-me perfeitamente:
Deus existe! Tudo o prova,
Tanto tu, altivo Sol,
Como tu, raminho humilde
Onde canta o rouxinol!
Não pude conter um bravo, respeitoso mas sentido.
– O pensamento é bonito, mas não o diga em Lisboa, Zagalinho. Se os jornais soubessem que fiz versos... Que gostinho para a oposição...
Eu exclamei, rindo:
– Que gostinho para a oposição, mas que glória para o ministério...
Ele acrescentou:.
– Enfim, são rapaziadas. Todos nós, mais ou menos, em rapazes, fomos poetas e republicanos... Antes isso que andar a beberricar genebra nos botequins e frequentar meretrizes... Mas quando se entra na verdadeira vida política, é necessário pôr de lado esses sentimentos ternos...
Eu então citei, com respeito, alguns dos nossos homens de estado, que foram, são ainda, poetas de alta imaginação.
– Pois sim... – interrompeu o Conde. – Mas lá têm o seu lugar marcado na formação do Ministério... Um poeta não pode ser Ministro do Reino, mas pode muito bem ser Ministro da Marinha.
Grande verdade política!
Quando entrámos, eu atrevi-me a pedir a S. Exª que escrevesse aquela formosa quadra no álbum de minha esposa, que trouxera comigo, esperando obter, no Porto e em Braga, autógrafos de alguns poetas e prosadores das províncias do Norte.
O Conde tomou o álbum, sorrindo, e retirou-se para o seu aposento. Qual não foi, na manhã seguinte, a minha alegria, quando ele mo restituiu, e li ao abrir a página:
Deus existe! Tudo o prova,
Tanto tu, altivo Sol,
Como tu, raminho humilde
Onde canta o rouxinol!
Estes versos, que eu escrevi quando me verdejavam na alma as ilusões da mocidade, poderia escrevê-los hoje que a experiência da vida me tem demonstrado que fora de Deus, não há senão ilusão e vaidade...
Conde d'Abrunhos.
Quando voltei a Lisboa e mostrei esta página preciosa à minha Madalena – que surpresa, que arrebatamento! Falámos até tarde, essa noite, da bondade do Conde e da vastidão do seu génio.
Se eu me detive neste incidente íntimo de uma existência histórica, foi para mostrar que o
Conde não era um homem destituído de sentimento poético e de imaginação idealista. Naquele cérebro todo ocupado de legislação, de reformas, de economia política, de debates parlamentares, tinha havido um momento, na sua mocidade, em que florescera, como uma violeta isolada mas fresca, a flor delicada do sentimentalismo. E quis também provar que a poesia não é inteiramente unia arte subalterna e própria de espíritos efeminados, pois que um homem de tão robusto génio prático não desdenhou um dia, sob a influencia de uma paisagem romântica, servir-se dela para exprimir um alto conceito filosófico. Estou certo de que os poetas contemporâneos, os Hugos épicos, os delicados Tennysons, os Campoamores de humorística melancolia, se orgulhariam deste colega que eu lhes revelo, e que, se apenas uma vez feriu a lira, fê-lo com tal originalidade, vigor e elevação, que esse simples verso isolado sobe mais alto no céu da Arte do que muitas sinfonias majestosas dos Mussets debochados ou dos Baudelaires histéricos:
Deus existe! Tudo o prova,
Tanto tu, altivo Sol,
Como tu, raminho humilde
Onde canta o rouxinol!
Não farei uma narração detalhada da mocidade estudiosa do Conde. Este estudo não é propriamente uma biografia em que deva seguir, ano a ano, a carreira intelectual do seu vasto espírito. São simples apontamentos, quadros destacados de uma nobre carreira, que servirão para que um mais alto engenho (na frase enérgica do Épico) reconstrua, com suficiente relevo, esta soberba figura histórica.
Desde os onze anos, pois, Alípio Abranhos viveu na companhia de sua tia Amália, e a não ser nas férias do segundo ano, em que a doença da mãe o chamou imperiosamente a Penafiel, não tornou a ver seus pais.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.