Por Eça de Queirós (1874)
Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto estava perturbado.
— Tio Francisco... – começou Macário.
— Basta. Estamos a doze. Receberá o seu mês por inteiro. Vá.
As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e idiota. Macário afirmou-me que era assim.
Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria da Praça da Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No entanto estava tranquilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha relações e amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da família, o seu tacto comercial, o seu belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as portas dos escritórios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga relação comercial da sua casa.
— De muito boa vontade, meu amigo – disse-me ele. – Quem mo dera cá. Mas, se o recebo, fico de mal com o seu tio, meu velho amigo de vinte anos. Ele declarou-mo categoricamente. Bem vê. Força maior. Eu sinto, mas...
E todos a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas, receavam «ficar de mal com seu tio, meu velho amigo de vinte anos».
E todos «sentiam, mas...».
Macário dirigiu-se então a negociantes novos, estranhos à sua casa e à sua família, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente livre da amizade de vinte anos do tio. Mas, para esses, Macário era desconhecido, e desconhecidos por igual a sua dignidade e o hábil trabalho. Se tomavam informações, sabiam que ele fora despedido de casa do tio repentinamente, por causa de uma rapariga loura, vestida de cassa. Esta circunstância tirava as simpatias a Macário. O comércio evita o guarda livros sentimental. De sorte que Macário começou a sentir-se num momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, o tempo passava, sorvendo, pinto a pinto, as suas seis peças.
Macário mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas, como fora sempre de temperamento recolhido, não criara amigos. De modo que se encontrava desamparado e solitário – e a vida aparecia-lhe como um descampo. as peças findaram. Macário entrou, pouco, na tradição antiga da miséria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: começou por empenhar. Depois vendeu. Relógio, anéis, casaca azul, cadeia, paletó de alamares, tudo foi levando pouco a pouco, embrulhado debaixo do xale, uma velha seca e cheia de asma.
No entanto via Luísa de noite, na saleta escura que dava para o patamar: uma lamparina ardia em cima da mesa; era feliz ali naquela penumbra, toda sentado castamente: não a via de dia porque trazia já a roupa usada, as botas cambadas e não queria mostrar à fresca Luísa, toda mimosa nas suas cambraias assentadas, a sua miséria remendada: ali, àquela luz tênue e esbatida, ele exaltava a sua paixão crescente e escondia o seu fato decadente. Segundo me disse Macário – era muito singular o temperamento de Luísa . Tinha o caracter louro como o cabelo – se é certo que o louro é uma cor fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus brancos dentinhos, dizia a tudo «pois sim»; era mais simples, quase indiferente, cheia de transigências.
Amava decerto Macário, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza débil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se queria: e às vezes, naqueles encontros noturnos, tinha sono.
Um dia, porém, Macário encontrou-a excitada: estava com pressa, o xale traçado à toa, olhando sempre para a porta interior.
— A mamãe percebeu – disse ela.
E contou-lhe que a mãe desconfiava, ainda rabugenta e áspera, e que decerto farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjuração.
— Porque não me vens pedir à mamã?
— Mas, filha, se eu não posso! Não tenho arranjo nenhum. Espera. É mais um mês talvez. Tenho agora aí um negócio em bom caminho. Morríamos de fome.
Luísa calou-se, torcendo a ponta do xale, com os olhos baixos.
— Mas ao menos – disse ela – enquanto eu te não fizer sinal da janela, não subas mais, sim ?
Macário rompeu a chorar, os soluços saíam violentos e desesperados.
— Chut! – dizia-lhe Luísa. – Não chores alto!...
Macário contou-me a noite que passou, ao acaso pelas ruas, ruminando febrilmente a sua dor, e lutando, sob a nudenta friagem de Janeiro, na sua quinzena curta. Não dormiu, e logo pela manhã, ao outro dia, entrou como uma rajada no quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente:
— É tudo o que tenho. – E mostrava-lhe três pintos. – Roupa, estou sem ela. Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome.
O tio Francisco, que fazia a barba à janela, com o lenço da Índia amarrado na cabeça, voltou-se e, pondo os óculos, fitou-o.
— A sua carteira lá está. Fique – e acrescentou com um gesto decisivo – solteiro.
— Tio Francisco, ouça-me!...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Singularidades de uma Rapariga Loura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16623. Acesso em: 29 jun. 2026.