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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Descobri os olhos. Era noite.Um dos mascarados raspou um fósforo, acendeu cinco velas numa serpentina de bronze, pegou na serpentina, aproximou-se de um móvel que estava coberto com uma manta de viagem, e levantou a manta.Não pude conter a comoção que senti, e soltei um grito de hor ror. O que eu tinha diante de mim era o cadáver de um homem.

IV

Escrevo-lhe hoje fatigado e nervoso. Todo este obscuro negó cio em que me achoenvolvido, o vago perigo que me cerca, a mes ma tensão de espírito em que estou para compreender a secreta verdade desta aventura, os hábitos da minha vida repousada su-bitamente exaltados -tudo isto me dá um estado de irritação mór bida que me aniquila.

Logo que vi o cadáver perguntei violentamente:- Que quer isto dizer, meus senhores? Um dos mascarados, o mais alto, respondeu: — Não há tempo para explicações. Perdoem ter sido engana dos! Pelo amor de Deus,doutor, veja esse homem. Que tem? Está morto? Está adormecido com algum narcótico?

Dizia estas palavras com uma voz tão instante, tão dolorosamente interrogadora queeu, dominado pelo imprevisto daquela situação, aproximei-me do cadáver, e examinei-o. Estava deitado numa chaise-longue, com a cabeça pousada numa almofada, as pernas ligeiramente cruzadas, um dos braços curvado descansando no peito, o outro pendente e amão inerte assente sobre o chão. Não tinha golpe, contusão, ferimento, ou extravasamento de sangue; não tinha sinais de congestão, nem vestígios de estrangulação. A expressão dafisionomia não denota va sofrimento, contracção ou dor. Os olhos cerrados frouxamente, eram como num sono leve. Estava frio e lívido.

Não quem aqui fazer a história do que encontrei no cadáver. Seria embaraçar estanarração concisa com explicações científi cas. Mesmo sem exames detidos, e sem os elementos de apreciação que só podem fornecer a análise ou a autópsia, pareceu-me queaquele homem estava sob a influência já mortal de um narcótico, que não era tempo de dominar.

— Que bebeu ele? — perguntei, com uma curiosidade exclusivamente médica.

Não pensava então em crime nem na misteriosa aventura que ali me prendia; queria só ter uma história progressiva dos fados que tinham determinado a narcotização.

Um dos mascarados mostrou-me um copo que estava ao pé da chaise-longue sobreuma cadeira de estofo.

— Não sei — disse ele -, talvez aquilo. O que havia no copo era evidentemente ópio.- Este homem está morto — disse eu.

— Morto! — repetiu um deles, tremendo.Ergui as pálpebras do cadáver, os olhos tinham uma dilatação fixa, horrível. Eu fitei-os então um por um e disse-lhes serenamente: — Ignoro o motivo por que vim aqui; como médico de um doen te sou in útil; comotestemunha posso ser perigoso.

Um dos mascarados veio para mim e com uma voz insinuante e grave:- Escute, crê, em sua consciência, que esse homem esteja morto? — Decerto. — E qual pensa que fosse a causa da morte?- O ópio; mas creio que devem sabê-lo melhor do que eu os que andam mascarados surpreendendo gente pela estrada de Sintra.Eu estava irritado, queria provocar algum desenlace definitivo que cortasse os embaraços da minha situação.

— Perdão — disse um -, e há que tempo supõe que esse homem esteja morto?Não respondi, pus o chapéu na cabeça e comecei a calçar as lu vas. F... junto da janela, batia o pé impaciente. Houve um silêncio.

Aquele quarto pesado de estofos, o cadáver estendido com re flexos lívidos na face, osvultos mascarados, o sossego lúgubre do lugar, as luzes claras, tudo dava àquele momento um aspecto profundamente sinistro.- Meus senhores — disse então lentamente um dos mascara dos, o mais alto, o que tinha guiado a carruagem -, compreendem perfeitamente, que se nós tivéssemos morto este homem sabíamos bem que um médico era inútil, e uma testemunha importuna! Des-confiávamos, é claro, que estava sob a acção de um narcótico, mas queríamos adquirir a certeza da morte. Por isso o trouxemos. A respeito do crime, estamos tão ignorantes como ossenhores. Se não entregamos este caso à polida, se cercámos de mistério e de violên cia a sua visita a esta casa, se lhes vendamos os olhos, é porque re ceávamos que as indagações que se pudessem fazer, conduzissem a descobrir, como criminoso ou como cúmplice, alguém quenós temos em nossa honra salvar; se lhes damos estas explicações... — Essas explicações são absurdas! — gritou F... -Aqui há um crime; este homem estámorto, os senhores, mascarados; esta ca sa parece solitária, nós achamo -nos aqui violentados, e todas es tas circunstâncias têm um mistério tão revoltante, uma feição tão criminosa, que não queremos nem pelo mais leve acto, nem pela mais involuntária assistência, ser parteneste negócio. Não temos aqui nada que fazer; queiram abrir aquela porta.



(continua...)

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