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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

À porta da mercearia defronte, felizmente estava um galego que às vezes lhe fazia recados – muitas vezes para a casa do sogro. Entregou-lhe a carta, recomendando-lhe que a entregasse em mão própria, que não esperasse a resposta. E, como conhecia a probidade daquele galego, encanecido no serviço do bairro, acrescentou:

— Tem cuidado, em mão própria, vai dinheiro, uma nota.

O velho guardou a carta nas profundidades do seio, pôr baixo da camisa.

E então, de longe, Godofredo pôs-se a seguir aquela carta.

Viu o homem entrar no prédio do sogro, um prédio de quatro andares, enxovalhado, com uma loja de trastes velhos pôr baixo. Neto morava lá no alto, onde havia um vaso na varanda. E durante uma eternidade esteve de longe vigiando a porta; o galego não descia. Então veio-lhe um terror que o sogro não estivesse em casa. Se só recolhesse à noite, se jantasse fora, não daria sinal de si senão, tarde, à noite! E ele, que havia de fazer? Errar, pelas ruas, à espera que sua mulher saísse? E isto dava-lhe uma sensação terrível de abandono, de desordem, como se para sempre tivesse acabado a regularidade das coisas. De repente, viu o galego. Tinha entregado a carta ao senhor Neto. E descera logo, não esperara mais nada. Então, Godofredo, aliviado, continuou caminhando ao acaso, e pouco a pouco os seus passos, instintivamente, fizeram o caminho de todas as manhãs, o caminho do escritório. Desceu o Chiado. Na rua do Ouro parou um momento a olhar uma pistola, na vitrine do Lebreton. E a idéia da morte atravessou-o. Mas não queria pensar nisso, agora, nem no seu duelo .Logo às sete horas, quando se recolhesse, achasse a casa vazia, então pensaria no duelo, em ajustar contas com o outro. E foi andando ao acaso. Um momento pensou em ir ao Passeio Público; mas receou encontrar o Machado. E foi pelo Terreiro do Paço, pelo Aterro, quase até Alcântara. Ia como um sonâmbulo, sem reparar na gente que acotovelava, nem na beleza da tarde de verão, que morria num esplendor de ouro vivo. E não pensava em coisa alguma: era uma ondulação de idéias, em que passavam toda a sorte de coisas, as recordações do seu namoro com Ludovina, dias de passeio que tinha feito com ela, depois a maneira como ela estava recostada no braço do outro, e com o vinho do Porto defronte: e a cada momento voltavam-lhe fragmentos das cartas dela. “Meu anjo, por que não hei-de eu Ter um filho teu?” Era a mesma coisa que ela lhe dissera com os lábios unidos ao dele, de noite, no calor do leito... E regozijava-se agora de não ter um filho daquela infame.

Ia escurecendo, ele pensava em voltar: uma grande fadiga tomava-o, de todas aquelas emoções, aquela grande caminhada, no ar mole daquele dia de julho. Entrou um momento num café, bebeu um grande copo de água: e ficou sentado, com a cabeça apoiada à parede, abandonando-se, no prazer daquele curto repouso. O café estava numa penumbra. Um crepúsculo quente envolvia a cidade: todas as janelas abertas respiravam, depois da grande calma do dia: uma ou outra luz ia-se acendendo, e via-se passar gente encalmada, com o chapéu na mão. E ele sentia um prazer, naquela penumbra, e naquele repouso: parecia que a sua dor se dissipava, se dissolvia, naquela inação do corpo, entre as sombras do anoitecer. E vinha-lhe um desejo de ficar ali para sempre, sem jamais se acenderem as luzes, sem que ele jamais tivesse de mover um passo na vida. E a idéia da morte invadiuo, dum modo sereno e insinuante, como o sopro duma carícia. Desejou verdadeiramente morrer. Naquele abatimento em que o seu corpo caíra, todas as amarguras que ainda tinha a passar, as coisas cruéis que tinha a penar, a volta à casa solitária, o encontro com o Machado, os passos a dar para procurar testemunhas – lhe pareciam outros tantos esforços, intoleráveis como penedos, que as suas pobres mãos jamais poderiam erguer: e seria delicioso encostar a cabeça ao muro, e ficar ali, naquele banco, morto, liberto, fora de toda a dor, tendo saído da vida, com a silenciosa tranqüilidade da luz que finda. Um momento pensou no suicídio. E não o aterrava, nem o fazia estremecer a idéia de se matar. Somente o procurar uma arma, o dar um passo, para se atirar ao rio, eram ainda esforços, que lhe repugnavam, naquele desfalecimento de toda a vontade. Quereria morrer ali, sem se mover. Se uma palavra bastasse, uma ordem dada baixo ao seu coração para que parasse e arrefecesse, diria essa palavra, tranqüilamente... E talvez ela chorasse, e lhe sentisse a falta. Mas o outro?

(continua...)

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