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#Contos#Literatura Brasileira

A Partida

Por Coelho Neto (1897)

A boca, de lábios cerrados, lívida, era como o leito seco de uma torrente que o sol exauriu e estalou.

Não se movia e, tão rígido, tão frio estava que só a ilusão do amor podia ainda emprestarlhe vida. A pequenita continuava a rebuscar anêmonas cantando.

- Ides debalde a Endor com o vosso filho, disse comiserado o patriarca, acrescentando: Burac pode sarar enfermos, mas só Elias ressuscitava os mortos.

- Quereis dizer que ele está morto!? Exclamou a mulher tremendo. Se, ainda ontem, o embalei nos braços... Se ainda estou com peitos cheios de leite, manando copiosamente como as ribeiras das colinas.

Ai! de mim... Bem que eu não queira cantar a cantiga tristonha!! Foi o canto triste que o fez fugir dos meus braços. Ai de mim! Adormeci-o para sempre. E agora? Quem terá piedade da minha solidão? Era ele só...

Nasceu em noite de luar, finou-se em manhã de névoa. E hei de o deixar na terra justamente quando o inverno chega! Ai! de mim...a saudade mudará o leite dos meus peitos em lágrimas para os meus olhos. Pobre de mim! Coitada de mim! E a moça deixou-se cair à beira do caminho apertando nos braços o corpo do filho morto. A pequenita continuava a rebuscar anêmonas.

Maria inclinou-se compadecida sobre o cadáver e duas lágrimas da sua piedade rolaram na fronte gélida do defunto.

Logo abriram-se os olhos da criança. Eram azuis, cor do céu; renasceram-lhe as rosas das faces, os bracinhos inertes estenderam-se e, lindo, com o esplendor da vida, o pequeno sorria afogando a cabeça no colo materno. O espanto emudecera, imobilizara a moça.

Súbito, ergueu-se com um grito d’alma, pôs-se a rasgar a túnica na pressa de amamentar o filho.

Os peitos saltaram túmidos. O pequeno abocou avidamente e a mãe, sentindo-o sugar, contente e com lágrimas, ajoelhou-se e, d’olhos no céu, ficou como petrificada.

Maria chorava por vê-la chorar venturosa e, com as suas lágrimas na terra, a pequenita não teve mãos para colher as flores que nasciam, brotando como acima d’água borbulham, às mil, as bolhas de ar.

CAMINHANDO

Maria caminhava em silêncio, pensando naquela mãe que, repentinamente, passara da maior desventura à maior felicidade pelo prestígio das lágrimas misericordiosas.

- O pequenito dormia e a pobre mãe tinha-o por morto. Foi bastante que eu lhe tocasse para que logo abrisse os olhos. - É que o despertaste, disse o patriarca sem aludir ao prodígio que testemunhara.

Ele ia notando, com discreta reserva, todas as maravilhas que se realizavam à passagem da Virgem; ribeiros que sustavam o curso oferecendo o leito enxuto para a travessia; árvores que se cobriam de flores, carregavam-se de frutos vergando generosamente os galhos; vozes que murmuravam; veios límpidos que rebentavam das pedras e, durante os curtos sonos da donzela não lhe passavam despercebidos anjos que rondavam em torno dos bosques pisando, de leve, os caminhos aveludados.

A mais e mais se lhe firmava n’alma a certeza de que as palavras que ouvira em sonho haviam sido pronunciadas por um mensageiro do céu.

Aquela era, em verdade, a eleita da Divina Graça, a Virgem pura de Judá, da qual devia nascer o Messias das gentes.

Ele acompanhava-a, não como esposo e sim como servo, adorando-a de joelhos quando a via adormecida.

Ela ignorava tudo. Sabia apenas que era mãe porque sentia no seio os movimentos do Ser Perfeito, no qual concentrava todo o seu amor.

Já lhe crescia o colo, pesando, arredondado e túrgido. O amor preparava o alimento para aquele que se nutria de mistério.

- As mães sofrem tanto pelos filhos!... O amor das mães é como a rosa que cresce entre espinhos. Praza aos céus que meu filho não sofra enquanto for pequenino.

As crianças não falam, não atinam a indicar onde lhes punge a dor, de sorte que a gente não sabe como as há de aliviar quando sofrem. - As mães adivinham.

- São tão fracas as criancinhas que tudo é perigo em torno delas. Tremo quando penso no meu pequenino filho que vai nascer, tão franzino e tão pobre. Onde o agasalharemos nós? - Entre os nossos braços, como os pássaros resguardam o ninho entre os ramos. - E o frio?

- Temos o nosso calor. - E a fome? - Os peitos maternos são dois celeiros sempre cheios. - Haveis de amá-lo, senhor, e ajudar-me enquanto ele carecer de nós? - Por ti, por Ele, por todos, disse José enlevado. Chegavam a um bosque de tamareiras, onde havia uma cisterna cercada de musgo.



(continua...)

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