Por Adolfo Caminha (1896)
O secretário do Banco Industrial conhecia o Rio de Janeiro de um extremo ao outro e gozava mesmo de muito boas relações na sociedade fluminense, não tanto quanto mandara dizer em carta a Evaristo, mas gozava. Além do desembargador Lousada, seu vizinho tinha outros amigos de alta posição na Corte, e era verdade que a princesa surpreendera D. Branca com uma jóia no seu trigésimo aniversário. A herdeira do trono ficara estimando a esposa do secretário desde uma célebre noite no Cassino Fluminense. Essas relações, porém, não excediam às praxes aristocráticas, guardando-se, de lado a lado, o máximo respeito, como convinha à fidalguia imperial da ilustre senhora.
Também era verdade que Luís Furtado uma vez — primeira e última — conferenciara com o imperador no Paço e este lhe prometera rendosa comissão à Europa; mas decorriam semanas e não se realizava a imperial promessa.
Entre políticos, banqueiros e titulares, havia sempre um que era amigo de Luís: o deputado Ismael Pessegueiro, de Alagoas, moço muito bem preparado, conservador até à raiz do cabelo, baixote na estatura e no falar; o visconde de Santa Quitéria, diretor do Banco Luso-Brasileiro, cuja fortuna se avaliava em muitos contos de réis fora à casa de residência - vistoso palacete que só se abria nas grandes festas; o comendador Pinto, outra fortuna considerável, português, que se fizera a custo de muito trabalho e que encanecera no Brasil..., e outros personagens de elevada hierarquia.
Quanto a jornalistas e poetas, conhecia-os quase todos; um por um, desde o redator-chefe do Comércio do Rio ("O Times brasileiro", na opinião de Furtado), até o Valdevino Manhães, diretor da Revista Literária e autor de muitos livros, de muitíssimas obras, entre as quais o poema herói-cômico Juca Pirão, paródia ao "I-
Juca-Pirama", de Gonçalves Dias.
Evaristo já os conhecia também — de longe uns, outros mais familiarmente. O Valdevino Manhães, ou o "Dr. Condicional", estava no número destes; fora-lhe apresentado uma noite, no jardim do Teatro Sant'Ana. Baixo, pequenino, metidinho a critico, um bigodinho quase imperceptível, sempre de lunetas — era conhecido por Dr. Condicional, porque nunca dizia as coisas em tom afirmativo: tinha sempre um mas..., um talvez..., um se..., quando criticava obras alheias. Ninguém para ele era escritor feito, nem mesmo os consagrados: todos haviam de ser grandes poetas, grandes romancistas, grandes homens..., se continuassem a estudar. Outra mania de Valdevino Manhães era falar na sua viagem à Europa. — Oh, em Lisboa merecera os maiores elogios, as mais belas referências de quanto jornalista sabe terçar a pena (terçar a pena era uma de suas frases prediletas). O poeta João de
Deus...
E ninguém o interrompia, ninguém dizia palavra enquanto ele comentava João de Deus e o Chiado.
O novo escriturário do Banco Industrial não confiava muito no Valdevino. — "Se todos os literatos do Rio de Janeiro fossem como o autor do Juca Pirão, a literatura brasileira tinha de pedir licença à Câmara para andar de quatro pés" — dizia ele a Furtado.
E Furtado, surpreendido:
— Pois olha: é o critico da moda hoje, no Rio de Janeiro.
— Prefiro o visconde de Santa Quitéria ou mesmo o comendador Pinto, que ao menos têm juízo para ganhar dinheiro...
Foram andando.
Uma tarde conversavam os dois sobre a vida na Corte, sentados à janela, quando o hóspede do secretário lembrou-lhe que era tempo de procurar casa e de instalar-se definitivamente com Adelaide: — uma casinha barata, um cômodo, qualquer aposento, inda que fosse nos "subterrâneos da Cidade Nova".
— Qual instalar-te! Daqui não sairás enquanto formos amigos — respondeu Furtado. — Minha mulher gostou muito de D. Adelaide — vivem muito bem, dão-se perfeitamente... Podemos chegar a um acordo nas despesas...
— Não, isso não! Vocês têm sido muito incomodados... isso não!
— História, homem! Incomodados têm sido vocês naquele quartinho... Mas a Branca falou-me que os do segundo andar estão procurando casa... Uma bela aquisição para vocês o segundo andar.
Evaristo levou o dedo à boca, refletindo, e apertando os lábios:
— É... assim bem...
— Pois então? Esperem um pouco mais... não há vexame... D. Branca aproximou-se, com o braço na cintura de Adelaide.
— Ó Branca - disse Furtado —, não é exato que os estrangeiros de cima vão se mudar?
— É sim. Andam em procura de casa. Por quê?
— O Evaristo, que lembrou-se agora de bater a linda plumagem, inda que fosse, diz ele — para os subterrâneos da Cidade Nova!
— Qual, Sr. Evaristo, qual! Adelaide está muito bem. A Cidade Nova é um lugar infecto, um horror! Esperem pelo segundo andar.
— E o aluguel? — perguntou, interessado, o rapaz.
— Oitenta mil-réis, filho! oitenta mil-réis... não é dinheiro.
— Não é dinheiro, para os capitalistas...
— Oitenta mil-réis, nunca foi dinheiro.
— Eu, por mim, não me mudava... — ousou discretamente Adelaide.
Evaristo arregalou os olhos:
— Oh! então já vais gostando do Rio!
— Não desgosto...
— O Sr. Evaristo quer conversar — disse, rindo, a esposa de Furtado. — Vamos a tocar um pouquinho de piano...
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.