Por Aluísio Azevedo (1880)
O velho pôs-se a fumar voltado para o lado da rua e a seguir com a vista no caminho, que lhe nascia à porta. Estava sombrio como nunca.
Faltava a Rosalina ânimo de falar ao pai; finalmente, tomando uma resolução extrema foi-se-lhe encostar ao grosseiro espaldar da cadeira.
O homem de tão preocupado não se apercebera disso; um beijo da filha despertou-o, porém, não o comoveu. Refratário à ternura, continuava secamente a fumar.
Rosalina, cujo coração pulsava cada vez mais impetuosamente, passou-lhe um braço em volta do pescoço, e com a mão livre messando-lhe os cabelos; entre o receio e o desejo, mais medrosa que terna:
— Estou triste!
— Por quê? Interrompeu indiferentemente o pescador.
Ângela ouvia com interesse este diálogo.
— Tenho medo de pedir-lhe uma coisa...
— E por quê tens medo? Insistiu o velho, sempre a fitar maquinalmente a estrada.
— Porque vai ralhar comigo.
— Então, queres pedir-me alguma tolice?...
— Não senhor!...
— Então pede...
— Promete não se zangar?...
— Sim !
— E quando souber que tenho um namorado? Disse abaixando os olhos Rosalina, porém, agora mais terna do que medrosa.
Ao ouvir as últimas palavras da filha, Maffei tirou vagarosamente o cachimbo da boca e voltou-se, cravando nela os olhos vivos e interrogadores.
A rapariga estremeceu empalidecendo, sentia-se já arrependida do que houvera arriscado e com dificuldade conseguiu dizer vacilante.
— Não senhor! não tenho!
— Com que, tens um namorado?! repisava entre-dentes o pescador, ruminando a frase.
Rosalina conservava o olhar baixo e, perturbada, alisava com a unha do polegar da mão direita a costura do corpinho.
— Com que, tens um namorado?!... repetia o velho.
— Porém — disse trêmula e sem levantar os olhos Rosalina — ele me quer tanto! E eu estou afeita a vê-lo... e abaixando mais a voz, quase a falar consigo, continuava — que era um bom moço, trabalhador, e que tudo era para bem, ele queria esposá-la, que...
— Quem é? interrompeu asperamente Maffei. — É... é... Miguel Rizio...
Um raio não produziria o efeito desta revelação. A fisionomia do velho alterou-se apopleticamente; firmado nas plantas, levantou-se como impelido pelas molas da cólera e descarregou com bruta excitação na mesa, o punho cerrado e nervoso.
Foi um avermelhar de olhos, um crispar de lábios, um contorcer de nervos, mais rápidos que o relâmpago. Estava transformado.
— Miguel Rizio! um miserável!...
E ria-se ironicamente.
Rosalina, toda trêmula, tinha a cabeça baixa e o olhar arrependido; apertava-se-lhe naquele momento o coração, como se tivesse cometido um crime; dos lábios semi-abertos, fugia-lhe um rosear frouxo e trêmulo, como um cardume de mariposas.
O vulto sombrio e preocupado do velho começou a passear automaticamente de um para outro lado da casa.
Tinha na fisionomia o sobressalto do marinheiro em perigo, nos movimentos umas ligeiras crispações, que lembravam o balanço do navio.
Era uma capitão no seu tombadilho; as sombras do passado e do futuro, as vagas do grande oceano que o embalava; a confissão da filha, o vendaval.
E assim passeava sem se dirigir a ninguém; falava sem se voltar para Rosalina, parecia conversar com Deus, ou com o demônio! Saíam-lhe da boca as palavras escandecidas e ásperas como as pedras de um vulcão.
— E necessariamente ele vinha cá!... E eu ignorava que a minha casa era freqüentada por um Miguel Rizio!...
E voltando-se depois para afilha, como se falasse a um marinheiro, exclama em tom de ordem:
— Não quero casar-te com um maltrapilho daquela laia! Entendes?! Ele bem o sabe, que me evita, o miserável!... Tenho-te reservado — nome e posição! — Somente de ti depende a minha e a tua felicidade, pelo menos enquanto fores bela! Nada tenho a recear daquele mendigo, porque partimos depois de amanhã para Nápoles! Veremos se o maldito lazarone vai lá perseguir-nos! E quanto a ti - bradou ele com mais força, apresentando a cara defronte da de Rosalina - quero que não o tornes a ver!... Entendes?!...
— Sim, senhor - fez timidamente Rosalina.
CAPÍTULO X
Ir para Nápoles!
Viver na grande capital, com opulência, beleza, mocidade, saúde, alegria, admiradores; isto é, realizar o mais dourado dos sonhos, a mais sonhada das esperanças, o desejo mais querido e a mais brilhante expectativa do coração de uma mulher bela e vaidosa.
Tal era o quadro que Maffei descortinara aos olhos fascinadores da filha, tal era a cornucópia abundante, cuja fortuna sufocava de alegria o coração, ainda terno de Rosalina.
Do fundo da sua obscuridade, sentia a formosa filha do pescador as convulsões da pérola nas profundezas do oceano.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.