Por Franklin Távora (1878)
Usais de um direito que pertence à justiça – o de interrogar – respondeu Cosme Bezerra com afetada serenidade que lhe era muito custosa de manter. Mandais distribuir armas e dinheiro pelo povo a fim de derrubar as autoridades legais, e vos admirais de ter a justiça em vossa porta.
- O que se diz é o contrario, retorquiu Coelho, sem diminuir sua arrogância. Diz-se que nós os portugueses, e os que nos acompanham, nós os fiéis súditos d’el-rei nosso senhor, não temos nem dinheiro nem armas com que rebater a rebelião da nobreza.
- Pouco importa às justiças saberem se tendes dinheiro. Falei-vos em dinheiro, porque em dinheiro se fala pelas ruas da vila, Sr. negociante.
- Chamai-me mascate, já que não quereis chamar-me sargento-mór, título que não podeis tirar-me. - Título que a nós deveis.
- Devo-o a el-rei, não a vós.
Não vim a praticar convosco. Vim a saber se de feito tendes armas defesas que destinais aos populares por vós comprados para executores ostensivos de vossos tenebrosos desígnios.
Se tenho armas! Exclamou Coelho. Se eu armas tivesse, não as deixaria passar senão depois de morto, das minhas para as vossas mãos. De armas precisamos nós para defender a verdadeira autoridade, vilamente ultrajada por uma nobreza que na rebeldia supõe consistir a sua maior força e o seu primeiro brasão.
Em nome da lei, mascate! Gritou Cosme em tom de quem impunha silencio. Sois apontado como perturbador da ordem, protetor de rebeldes, e um deles. À frente de todos os motins que há dois meses perturbam o sossego desta vila, todos vos vêem comprando os venais, desencabeçando os ignorantes, encaminhando para o mal, que é o vosso alvo, os desordeiros por habito e condição. Os homens bons estão já cansados de aturar as vossas provocações, a autoridade de ser desrespeitada, as famílias fracas de receber insultos e violências dos malfeitores a que estendeis a mão cheia de ouro. É tempo de espezinhar a cascavel que tanta peçonha mortal tem vazado de sua boca imunda; e como o melhor meio de aniquilar a cobra é atacá-la em seu próprio covil, pareceu à autoridade competente que a vossa casa seja corrida, e de vosso crime se tire a devassa, se chegar à certeza de que sois criminoso.
O direito, que vos arrogais, de violar o meu asilo domestico, nem o achais na lei, nem eu o reconheço senão como filho do vosso violento natural, de todos conhecido. O testemunho de que não sou criminoso está em sujeitar-me ao vosso desatino. Outro fora eu, que já me teríeis pago a vossa ousada. Correi, correi à minha casa. Este procedimento condiz com a fidalguia de que rezam os vossos encardidos pergaminhos. Quanto a dizerdes que sou rebelde e amotinador, cego seja para sempre aquele que ousar afirmar que primeiro se insurgiram contra a legalidade os mascates que os nobres.
Cosme voltou as costas ao negociante, como quem não levava em conta suas acerbas ironias e rudes exprobrações.
A verdade, porém, é que elas o feriam, como pontas de punhais acerados no coração. Os beleguins cumpriram o seu dever, e o próprio juiz, não podendo vencer o despeito hostil e apaixonado, encaminhou-se ao interior da habitação.
A esse tempo Bartolomeu, que ainda não pudera descer, chegou-se a Coelho e lhe disse à puridade:
- Quer sair, patrão? Atiro-me daqui ao soldado, que ali está de guarda na porta, e quando ele menos esperar, estará sufocado entre as minhas mãos. Então vosmecê poderá descer com seus caixeiros, ganhar a rua e desaparecer por trás dessas moitas de jerobebas que cobrem os fundos da igreja. Eu lhe guardarei as costas. Pode ir descansado. Pensas que eu poderia realizar o que estás indicando? Olha. A rua está cheia de gente. A casa está cercada. Ali embaixo vários soldados espreitam quem entra e quem sai. Mas porque me ausentaria eu? Que crimes cometi para fugir?
- É que as armas, que estão lá embaixo... tornou o barcaceiro a meia voz.
Duvido que as encontres tu mesmo que comigo as viste, quanto mais ele. e se queres ter a prova do que te digo, vai à escada por onde há pouco descemos ao subterrâneo.
Sem dizer palavra, o barcaceiro encaminhou-se ao gabinete, atravessou-o e chegou ao ponto indicado. Desciam o juiz, beleguins e soldados. Verificou então por seus próprios olhos o que lhe dissera o negociante. A escada fazia uma volta para a direita e ia dar na loja, não no esconderijo. Bartolomeu ficou um instante confuso. Lembrava-se que por ali descera para o subterrâneo, por uma volta que a escada fazia à esquerda: mas, essa tinha desaparecido como por encanto, sem deixar o menor vestígio por onde se pudesse descobrir o segredo.
Quando Cosme volveu à sala, Coelho foi a seu encontro, e com expressão de mal disfarçado ódio, lhe disse: Não achastes nem uma adaga, nem um arcabuz no meu armazém. Voltastes em branco. Pois bem. eu vos asseguro, senhor Cosme Cavalcanti, que dentro em pouco tempo a nobreza de Goiana há de saber para quanto prestam as armas dos mascates, que as têm e de fina tempera.
- Ah! Eles as têm?
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.