Por Eça de Queirós (1888)
homem». Craft, madrugador, sahia cedo dos Olivaes a cavallo, e vinha assim ás vezes almoçar de surpreza com os Maias; por vontade de Affonso jantaria lá sempre; - mas ao menos as noites passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo emfim, como elle dizia,
encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem sentado, no meio de idéas, e com boa educação.
Carlos sahia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquella revoada de clientella que lhe dera esperanças d'uma carreira cheia, activa, tinha passado miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe tres doentes no bairro; e sentia agora que as suas carruagens, os cavallos, o Ramalhete, os habitos de luxo, o condemnavam irremediavelmente ao dillettantismo. Já o fino dr. Theodosio lhe dissera um dia, francamente: «você é muito elegante p'ra medico! As suas doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem é o burguez que lhe vae confiar a esposa dentro d'uma alcova?... Você aterra o pater-familias!» O laboratorio mesmo prejudicara-o. Os collegas diziam que o Maia, rico, intelligente, avido de innovações, de modernismos, fazia sobre os doentes experiencias fataes. Tinha-se troçado muito a sua idéa, apresentada na Gazeta Medica, a prevenção das epidemias pela inoculação dos virus. Consideravam-no um phantasista. E elle, então, refugiava-se todo n'esse livro sobre a medicina antiga e moderna, o seu livro, trabalhado com vagares d'artista rico, tornando-se o interesse intellectual de um ou dous annos.
N'essa manhã, em quanto dentro proseguia grave e silenciosa a partida de xadrez, Carlos no terrasso, estendido n'uma vasta cadeira india de bambu, á sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma Revista ingleza, banhado pela caricia tepida d'aquelle bafo de primavera que avelludava o ar, fazia já desejar arvores e relvas...
Ao lado d'elle, n'uma outra cadeira de bambu, tambem de charuto na boca, o sr. Damaso Salcede percorria o Figaro. De perna estirada, n'uma indolencia familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao terrasso as rosas das roseiras de Affonso, sentindo
por trás, atravez das janellas abertas, o rico e nobre interior do Ramalhete - o filho do agiota saboreava alli uma d'essas horas deliciosas que ultimamente encontrava na intimidade dos Maias.
Logo na manhã seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fôra ao Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos, tendo ao angulo, n'uma dobra simulada, o seu retratosinho em photographia, um capacete com plumas por cima do nome - DAMASO CANDIDO DE SALCEDE, por baixo as suas honras - COMMENDADOR DE CHRISTO, ao fundo a sua adresse – Rua de S. Domingos, á Lapa; mas esta indicação estava riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais apparatosa - GRAND HOTEL, BOULEVARD DES CAPUCINES, CHAMBRE N.º l03. Em seguida procurou Carlos no consultorio, confiou ao creado outro cartão. Emfim, uma tarde, no Aterro, vendo passar Carlos a pé, correu para elle, pendurou-se d'elle, conseguiu acompanhal-o ao Ramalhete.
Ahi, logo desde o pateo, rompeu em admirações extaticas, como dentro d'um museu, lançando, diante dos tapetes, das faienças e dos quadros, a sua grande phrase - «chic a valer!» Carlos levou-o para o fumoir, elle aceitou um charuto; e começou a explicar, de
perna traçada, algumas das suas opiniões e alguns dos seus gostos. Considerava Lisboa chinfrin, e só estava bem em Paris - sobre tudo por causa do genero «femea» de que em Lisboa se passavam fomes: ainda que n'esse ponto a Providencia não o tratava mal. Gostava
tambem do bric-a-brac; mas apanhava-se muita espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo, não lhe pareciam commodas para a gente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguem o pilhava sem livros á cabeceira da cama; ultimamente andava ás voltas com Daudet, que lhe
diziam ser muito chic, mas elle achava-o confusote. Em rapaz perdia sempre as noites, até ás quatro ou cinco da madrugada, no delirio! Agora não, estava mudado e pacato; emfim, não dizia que de vez em quando não se abandonasse a um excessozinho; mas só em dias
duples... E as suas perguntas foram terriveis. O sr. Maia achava chic ter um cab inglez? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade que quizesse ir passar o verão lá fóra, Nice ou Trouville?...
Depois ao sahir, muito serio, quasi commovido, perguntou ao sr.
Maia (se o sr.Maia não fazia segredo) quem era o seu alfaiate.
E desde esse dia, não o deixou mais. Se Carlos apparecia no theatro, Damaso immediatamente arrancavase da sua cadeira, ás vezes na solemnidade d'uma bella aria, e pisando os botins dos cavalheiros, amarrotando a compostura das damas, abalava, abria
d'estalo a claque, vinha-se installar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha corada, camelia na casaca, exhibindo os botões de punho que eram duas enormes bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Gremio, Damaso abandonou logo a
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.