Por Eça de Queirós (1870)
Experimentei eu também os sobressaltos da paixão — e nunca vi, nunca soube que estasimaginações, que estas atracções nascessem de uma verdade da natureza, da lógica dascircunstâncias, da irreparável acção do coração. Vi sempre que saíam de um pequeno mundo efémero, romântico, literário, fictí cio, que habita no cérebro de todas as mulheres.Vejoo daqui a sorrir... Não se admire de me ver falar assim. Lembra-se daquelas conversações tão íntimas e tão sérias na rua de.? Lembra-se do terraço de Clarence-Hotel, em Malta, quando a Lua silenciosa cobria o mar? Não se recorda das minhas ideias então edaquelas imaginações que eu denominava gloriosamente os meus sistemas? Não se lembra que me chamava então filósofo louro? O filósofo sentiu, chorou, sofreu, teve por isso omelhor estudo. Que maior ensino que as lágrimas? A dor é uma verdade eter na, que fica, enquanto as teorias passam. Não imagina o que tenho aprendido da vida desde que sou desgraçada! Não imagina quantas ideias rectas e precisas saem das incoerências do pranto!Por isso hoje não creio em certas fatalidades, com que as mu lheres pretendem esquivar-se às responsabilidades. Não creio no que se chama teatralmente as fatalidades da paixão. A vontade é tudo; é um tão grande princípio vital como o Sol. Contra ela as fa-talidades, as febres, o ideal, quebram-se como bolas de sabão.
Respondem-me chorando: a fatalidade! Mas, meu Deus! to memos um exemplo — aaventura trivial, a comum, o que se pode ria chamar a aventura-tipo, o que se vê todos os dias, em qualquer rua, no primeiro número par ou ímpar... a aventura que nós aco tovelamosno passeio, que toma connosco neve na Confeitaria Ita liana, e que se enterra ao pé de nós no Alto de S. João.
A cena é simples, de três personagens. Eu, por exemplo, sou a mulher. Meu marido éum homem honesto e trabalhador. Cansa -se, luta, prodigaliza-se: logo de manhã sai para o seu escritório, ou para o seu jornal, ou para o seu oficio, ou para o seu ministério; cerceia oseu sono, almoça à pressa, quebra o seu descanso. Todo ele é atenção, vigília, trabalho, sacrifício. Para quê?
Para que os nossos filhos tenham uns bibes brancos, e uma ama asseada; para que asminhas cadeiras sejam de estofo e não de pau; para que os meus vestidos sejam de seda e talhados na Marie, e não de chita e cosidos pelas minhas mãos, de noite, a um can deeiroamortecido.
Meu marido é um homem honesto, simpático, sério, afável. Não usa pó-de-arroz, nem brilhantina, não tem gravatas de apa rato, não tem a extrema elegância de ser moço de forcado, não es creve folhetins; trabalha, trabalha, trabalha! Ganha com o seu cansaço, com os seus tédios, em horas pesadas e longas, o jantar de todos os dias, o vestuário de todas as estações. A sua consolação sou eu, o centro da sua vida sou eu, o seu ideal e o seuabsoluto sou eu! Não faz poemas românticos, porque eu sou o seu poema íntimo, a musa dos seus sacrifícios; não tem aventuras porque aí sou a sua esposa; não tem viagens gloriosas pelos desertos nem o prestígio das distâncias, porque o seu mundo não é maior do que oespaço que enche o som da minha voz; não ganhou a batalha de Sadova mas ganha todos os dias a terrível e obscura batalha do pão dos seus filhos...É justo, é bom, é dedicado. Dorme profundamente porque o seu cansaço é legítimo e puro; gosta da sua robe de chambre porque tra balhou todo o dia. Julga-se dispensado de trazer uma flor na boutonniére porque traz sempre no coração a presença da minha imagem.Pois bem! Que faço eu?
Aborreço-me.Logo que ele sai, abro um romance, ralho com as criadas, pen teio os filhos, tomo a bocejar, abro a janela, olho.
Passa um rapaz, airoso ou forte, louro ou trigueiro, imbecil ou medíocre. Olhamo-nos.Traz um cravo ao peito, uma gravata com plicada. Temo cabelo mais bonito do que o do meu marido, o talhe das suas calças é perfeito, usa botas inglesas, pateia as dançari nas!Estou encantada! Sorrio-lhe. Recebo uma carta sem espírito e sem gramática. Enlouqueço, escondo-a, beijo-a, releio-a, e desprezo a vida.
Manda-me uns versos — uns versos, meu Deus! e eu então esqueço meu marido, osseus sacrifícios, a sua bondade, o seu tra balho, a sua doçura; não me importam as lágrimas nem as deses perações do futuro; abandono probidade, pudor, dever, família, conceitos sociais, relações, e os filhos, os meus filhos! tudo — ven cida, arrastada, fascinada por umsoneto errado, copiado da Grinalda! Realmente! É a isto, minhas pobres amigas, que vós chamais — fatalidade da paixão!E, no entanto, como corresponde ele a este sacrifício terrível?
Como tem uma aventura, não pode ocultar a sua alegria, toma ares misteriosos, provoca as perguntas; compromete-me; deixa-me para ir esperar os touros em intimidadesignóbeis; mostra as minhas cartas em cima da mesa de um café, ao pé de uma garrafa de conhaque; jura aos seus amigos que me não ama, e que é — pa ra se entreter; e se meu maridoo chicotear nomeio do Chiado, como é vil, cobarde, vulgar e imbecil, irá queixar-se à Boa Hora!
Et voilá D. Juan!Não! É necessário demolir pelo ridículo, pela criatura, pelo chicote e pela polícia correccional, esse tipo indigno que se chama o conquistador. O conquistador não tematracção, nem beleza, nem elevação, nem grandeza como tipo — e como homem não tem educação, nem honestidade, nem maneiras, nem espírito, nem toilette, nem habilidade, nem coragem, nem dignidade, nem limpeza, nem ortografia...Perdoe-me, meu primo, estas exaltações. Sou impressionável, vou como se costuma dizer — atrás da frase. Esqueço às vezes as minhas dores modernas, para me lembrar dasminhas velhas indignações.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.