Por Eça de Queirós (1901)
-Eu! Arregalei os olhos... “Ó Lamartine!” Mas, coitada, é uma excelente rapariga! Agora, pôr outro lado, temos as Rojões, as filhas do João Rojão, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicência morre pôr elas. Depois há a mulher do Dr. Alípio, que é uma beleza. Ó! uma criatura esplêndida! Mas, enfim, é a mulher do Dr. Alípio, e tu renunciaste aos deveres da Civilização... Além disso, mulher muito séria, toda absorvida nos seus dois pequenos, que parecem dois anjinhos de Murillo... E quem mais? Já agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a Melo Rebelo, de Sandofim, muito engraçada, com cabelo lindo... Borda na perfeição, faz doces como uma freira do antigo regime... Havia também uma Júlia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora não me lembro de mais. Mas falta a flor da Serra, que é a minha prima Joaninha, da Flor da Malva! Essa é uma perfeição de rapariga.
-E tu, primo Zé, como tens tu resistido?
-Somos como irmãos, criados de pequeninos, mais acostumados e familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A mãe dela era a única irmã da tia Vicência, e morreu muito nova. A Joaninha, quase desde o berço que se criou em nossa casa, em Guiães. O pai é bom homem, o tio Adrião. Erudito, antiquário, colecionador... Coleciona toda a sorte de coisas esquisitas, campainhas, esporas, sinetes, fivelas... Tem uma coleção curiosa. Ele há muito que deseja vir a Tormes, para te visitar... Mas, coitado, sofre da bexiga, não pode montar a cavalo. E a estrada da flor da Malva aqui é impossível para carruagens...
O meu Príncipe espreguiçara longamente os braços:
-Não, está claro! eu é que hei de visitar teu tio, e a tia Vicência... desejo conhecer os meus vizinhos. Mas mais tarde, quando sossegar. Agora ando todo ocupado com o meu povo.
E com efeito! Jacinto era agora como um Rei fundador dum Reino, e grande edificador. Pôr todo o seu domínio de Tormes andavam obras, para o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se consertavam, outras mais velhas, que se derrubavam para se reconstruírem com uma largueza cômoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheirais.
Na taberna do Pedro, à entrada da freguesia, ia um desusado movimento, de pedreiros e carpinteiros contratados para as obras; e o Pedro, com as mangas arregaçadas, pôr trás do balcão, não cessava de encher os decilitros com uma vasta infusa.
Jacinto, que tinha agora dois cavalos, todas as manhãs cedo percorria as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez latejar e irromper no meu Príncipe o seu velho, maníaco furor de acumular Civilização! O plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeiçoado. Nas janelas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume da serra, decidira pôr vidraças, apesar do mestre-de-obras lhe dizer honradamente que depois de habitadas um mês não haveria casa com um só vidro. Para substituir as traves clássicas queria estucar os tetos; e eu via bem claramente que ele se continha, se retesava dentro do bom senso, para não dotar cada casa com campainhas elétricas. nem sequer me espantei, quando ele uma manhã me declarou que a porcaria da gente do campo provinha deles não terem onde comodamente se lavar, pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Descíamos nesse momento, com os cavalos à rédea, pôr uma azinhaga precipitada e escabrosa, um vento leve ramalhava nas árvores, um regato saltava ruidosamente entre as pedras. Eu não me espantei – mas realmente me pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam alegremente do meu Príncipe. E além destes confortos a que o João, mestre-de-obras, com os olhos loucamente arregalados chamava “as grandezas”, Jacinto meditava o bem das almas. Já encomendara ao seu arquiteto, naquele campo da Carriça, junto à capelinha que abrigava “os ossos”. Pouco a pouco, aí criaria também uma biblioteca, com livros de estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem já não era possível ensinar a ler. Eu vergava os ombros, pensando: - “Aí vem a terrível acumulação das Nações! Eis o livro invadindo a Serra!” Mas outras idéias de Jacinto eram tocantes – e eu mesmo me entusiasmei, e excitei o entusiasmo da tia Vicência com o seu plano duma Creche, onde ele esperava ter manhãs muito divertidas vendo as criancinhas a gatinhar, a correr tropegamente atrás duma bola. De resto, o nosso boticário de Guiães estava já apalavrado para estabelecer uma pequena farmácia em Tormes, sob a direção do seu praticante, um afilhado da tia Vicência, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do Douro no Almanaque de Lembranças. E já fora oferecido o partido médico de Tormes, com ordenado de 600$000 réis.
-Não te falta senão um Teatro! – dizia eu, rindo.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.