Por Coelho Neto (1906)
Imediatamente a criada abriu o portão e, sorrindo, afastou-se dando-lhe passagem. Ele seguiu-a à varanda, entrou numa saleta luxuosa, que um alto tapete forrava. Pesados reposteiros coavam a luz filtrando suave claridade confidencial.
Duas cegonhas de bronze flanqueavam a otomana de damasco amarelo, vivamente ensangüentado a flores de púrpura. Pelas paredes, floridas a ouro, sobre aveludado fundo carmesim, acumulavam-se retratos, grandes quadros pendiam mostrando paisagens tristes — campos de trigo esfumados pela crepúsculo e gados que recolhiam e uma gravura idílica em que havia uma redouça, entre flores, unindo um jovem casal amoroso no mesmo balouço. O silêncio era absoluto como se tudo dormisse naquela casa. A criada reapareceu em passos surdos, como uma sombra.
— Pode subir. A senhora espera-o lá em cima.
Guiou-o ao longo de um corredor forrado de esparto e mostrou-lhe a escada. — Sobe! convidou Violante.
Paulo sentiu viva emoção ouvindo a voz da irmã e foi com o coração aos esbarros que galgou a escada iluminada par uma clarabóia de vidros policrômicos.
— Entra e espera um instante na sala.
Dirigiu-se para o suntuoso salão atapetado.
O lustre cintilava a um raio de sol. O mobiliário era rico, adaptado à volúpia — moles divãs orientais sabre pelegos que formavam macia alfombra, de cores quentes; grandes almofadões de seda com borlas, fundas poltronas. Os consolos altos, esguios, com espelhos finos, eram todos dourados e rebrilhavam.
Cortinas escuras temperavam a luz, quebrando a violência do sol que entrava por quatro janelas abertas sobre balcões. Na mesa do centro, incrustada de marfim, dentro duma linda jarra de porcelana, morriam rosas. Aroma tépido e voluptuoso impregnava o recinto. Os rumores da rua chegavam abafados, ensurdecidos, como se viessem de muito longe.
— Espera um instantinho. Estou arranjando o cabelo. Vou já. — Não te incomodes.
E, de pé, os braços cruzados, pôs-se a examinar os quadros, as estatuetas das peanhas. Uma sandália cor-de-rosa jazia no meio do salão embarcada. Sobre um dos divãs uma saia de rendas amarrotada parecia uma grande e estranha flor, murchando em abandono.
— Como vais?
— Vai-se indo. Estás num palácio!
— É. A casa é boa. Grande demais.
— Moras só? — Sozinha.
Abriu a porta e apareceu deslumbrante, num penteador de rendas que a envolvia como em frocos de espuma. Os cabelos soltos cobriam-lhe as costas até a cinta. Nos braços, que as largas mangas deixavam nus, cintilavam pulseiras.
— Não repares, — disse sorrindo, como vexada. — Apareço assim para não te fazer esperar. Saí do banho. Senta-te. — Sentou-se muito encolhida, cruzando as pernas com desembaraço e Paulo viu-lhe as sandálias de veludo, um pouco da perna bem feita, carnuda. — Como vai mamãe?
— Como sempre.
— E Felícia?
— Felícia... Felícia está maluca. Despediu-se hoje.
— Maluca?
— Meteu-se com o espiritismo e anda a ver coisas. Fala com o filho.
— Que filho? Ela tem filho?
— Tinha. Era marinheiro. Morreu na revolta.
— Mas doida mesmo? — Varrida.
Houve um silêncio. Os dois olhavam-se embaraçados.
— E tu? perguntou por fim Violante.
Paulo deu d'ombros.
— Por aqui, lutando sempre. De repente: Por que não vais ver mamãe?
— Tenho vergonha. Ela fala em mim?
— Se fala em ti...!
— Coitada!
— E tu não estás arrependida, Violante?
— Eu? — acenou com a cabeça negativamente. — Arrependida, por quê? Esta vida tem as seus aborrecimentos, tem; mas a gente não é obrigada a aturar um homem de que não gosta. Serve? muito bem; não serve? adeusinho. Sempre é outra coisa. Não nasci para o casamento... — e fez um momo de enjôo.
— Afinal... com quem saíste?
— Com um moço. Não conheces. Podia ter casado com ele — era bonito, rico e adorava-me; não quis. Não imaginas — uma fúria de ciúme. Eu não tinha licença de abrir uma janela. Sofri horrores! Hoje vivo tranqüila, nada me falta e tenho o melhor que é minha liberdade. Vou aonde quero, faço a que me dá na cabeça. Os outros... — encolheu os ombros com desprezo esticando um beicinho. — Não me importo com o mundo. Sei que falam, que não me poupam: que sou isto e aquilo, mas se eu fosse pedir aos tais um pedaço de pão viravam-me as costas. Conheço essa gentinha... Oh! se conheço! Um dos que mais falaram de mim não me deixa com recados e bilhetinhos... o tal boticário que queria casar comigo. Deus me livre! São todos muito honestos, por trás da cortina vão fazendo das suas. Eu não os incomodo nem os envergonho — quando passo por eles finjo não os ver. Não nasci para mãe de família, essa coisa com que os chamados homens de bem enchem a boca. Cada qual para o que nasceu. Nem todas as mulheres têm vocação para freira.
— Lá isso...
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.