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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

A selvagem respondeu:

- Cendi morre sem desabotoar as penas cândidas do seu tapacurá. Quem podia fazê-lo voou para as colinas azuis...

O pajé precipitou-se sobre a índia.

Cendi caiu de joelhos estorcendo-se nas mãos do padre de Tupã; e este, fazendo movimentos vagarosos, cadenciados, lutava tranqüilamente com a resistência de Cendi.

Nas tranças do arvoredo, denegridas pela noite, gritava um passarinho, debatendo-se por certo nas garras de uma coruja.

V

Era treva compacta.

- Cendi, Cendi, onde estás?...

Um índio rebentava a rede espessa de cipós que amarravam uns aos outros os troncos da mata virgem.

- Cendi, Cendi! chamava.

Toda a floresta fazia um amontoado tenebroso. Um grito de doido desespero respondeu ao índio; partiu de lá como se aquelas negruras tivessem voz e falassem.

VI

Nasceu a lua.

Alguns raios começam a furar a folhagem como se a lua quisesse afastar com a mão os raminhos e espiar.

No lugar em que Cendi parara estavam agora o pajé e um guerreiro. Hirtos, cada um ao seu lado da clareira.

- Foi a vontade de Tupã, vociferava o primeiro. Cendi ofendeu a Tupã.

- Embusteiro cala-te! bradou o outro.

- Enganas-te, filho das selvas, eu digo a verdade!

- Não dizes! rugiu o guerreiro.

- Ofendeste também a majestade dos trovões... Prostra-te, Taigaíba!

O guerreiro apertava entre os dedos um pedaço de flecha e sacudia o cocar empenado, prestes a lançar-se sobre o sacerdote do seu culto.

O pajé sorria e a cara parecia-se-lhe com as escâncaras de um inferno medonho.

- Escuta, pajé, disse o índio a modo de sentença, eu suspeitava de ti; as tuas infames sugestões arrastaram os guerreiros ao campo do combate. Eu não acreditei. Ocultei-me. Fiquei. És sábio e não o percebeste; és adivinho e não me descobriste. Pois aqui estou, pajé... Treme, treme, porque o vento não soprará muito por estas balsas antes que estejas por terra!

O pajé ria-se, escancarando as feições diabólicas, remexendo-se as horrendas peles que o adornavam.

O guerreiro, altivo e iroso, media-o desde a pedra encravada no lábio até o grande artelho muito separado...

Avançava. Atirou-se, enfim, ao pajé. Fê-lo dobrar-se para trás, e, quase sem luta, enterrou-lhe no peito o ferro que empunhava.

O pajé repetiu:

- Tupã! Tupã!

E as árvores, ciciando, ficaram a murmurar:

- Tupã... Tupã...

Zombavam do profeta maldito. O guerreiro garganteava, como estertorando:

- Morre e vai-te, pajé!

E o cadáver do pajé foi estatelar-se no chão.

O índio feroz alçou então o braço armado, arrogante. Da ponta do dardo pingaram gotas de sangue sobre o corpo do pajé.

VII

O guerreiro fitava os céus por entre o enredado das folhas. Os olhos fulgurando encaravam duas estrelas que luziam por cima da mata. Dir-se-ia que esperava...

- Aparece, Tupã, que eu quero atravessar-te!...

Este brado varou através dos bosques e foi achoar longínquo.

O arvoredo, ciciando, ficou a repetir: - Atravessar-te!...

As folhas não zombavam já. Tiritavam apavoradas.

O selvagem fitou os céus... Tupã não veio...

- Estás vingada, Cendi!

O passarinho, que piava nas garras da coruja, não se ouvia mais...

O luar passava rasteirinho pela relva e lambia o corpo de Cendi morta... Esse clarão suave enleava-lhe o lindo cadáver num sudário de azul. Os cintos de pureza jaziam desbotoados, perto do corpo.

Cendi os perdera... depois de morta. O índio murmurou entre dentes.

- Covarde!

E baixou os olhos de lá, das estrelas, para Cendi.

- Adeus, sonho do meu amor, adeus, rolinha! Os guerreiros guardar-te-ão o corpo no invólucrode barro de igaraçaba... Mas eu irei contigo!...

VIII

Um rumor levantou-se ao longe. Taigaíba escutou.

Este barulho era seu conhecido. Ouvira-o já cem vezes, cem vezes isto fora para ele um hino de alegria. Então, porém, não passava de uma canção fúnebre que o atraía. Ele obedeceu:

- É a batalha que se aproxima!...

E embrenhou-se na mataria, gritando possesso:

- Taigaíba ao combate! À morte! à morte!...

1882

Raul Pompéia

QUASE TRAGÉDIA

Conto da Lua-de-Mel

(continua...)

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