Por Raul Pompéia (1881)
A selvagem respondeu:
- Cendi morre sem desabotoar as penas cândidas do seu tapacurá. Quem podia fazê-lo voou para as colinas azuis...
O pajé precipitou-se sobre a índia.
Cendi caiu de joelhos estorcendo-se nas mãos do padre de Tupã; e este, fazendo movimentos vagarosos, cadenciados, lutava tranqüilamente com a resistência de Cendi.
Nas tranças do arvoredo, denegridas pela noite, gritava um passarinho, debatendo-se por certo nas garras de uma coruja.
V
Era treva compacta.
- Cendi, Cendi, onde estás?...
Um índio rebentava a rede espessa de cipós que amarravam uns aos outros os troncos da mata virgem.
- Cendi, Cendi! chamava.
Toda a floresta fazia um amontoado tenebroso. Um grito de doido desespero respondeu ao índio; partiu de lá como se aquelas negruras tivessem voz e falassem.
VI
Nasceu a lua.
Alguns raios começam a furar a folhagem como se a lua quisesse afastar com a mão os raminhos e espiar.
No lugar em que Cendi parara estavam agora o pajé e um guerreiro. Hirtos, cada um ao seu lado da clareira.
- Foi a vontade de Tupã, vociferava o primeiro. Cendi ofendeu a Tupã.
- Embusteiro cala-te! bradou o outro.
- Enganas-te, filho das selvas, eu digo a verdade!
- Não dizes! rugiu o guerreiro.
- Ofendeste também a majestade dos trovões... Prostra-te, Taigaíba!
O guerreiro apertava entre os dedos um pedaço de flecha e sacudia o cocar empenado, prestes a lançar-se sobre o sacerdote do seu culto.
O pajé sorria e a cara parecia-se-lhe com as escâncaras de um inferno medonho.
- Escuta, pajé, disse o índio a modo de sentença, eu suspeitava de ti; as tuas infames sugestões arrastaram os guerreiros ao campo do combate. Eu não acreditei. Ocultei-me. Fiquei. És sábio e não o percebeste; és adivinho e não me descobriste. Pois aqui estou, pajé... Treme, treme, porque o vento não soprará muito por estas balsas antes que estejas por terra!
O pajé ria-se, escancarando as feições diabólicas, remexendo-se as horrendas peles que o adornavam.
O guerreiro, altivo e iroso, media-o desde a pedra encravada no lábio até o grande artelho muito separado...
Avançava. Atirou-se, enfim, ao pajé. Fê-lo dobrar-se para trás, e, quase sem luta, enterrou-lhe no peito o ferro que empunhava.
O pajé repetiu:
- Tupã! Tupã!
E as árvores, ciciando, ficaram a murmurar:
- Tupã... Tupã...
Zombavam do profeta maldito. O guerreiro garganteava, como estertorando:
- Morre e vai-te, pajé!
E o cadáver do pajé foi estatelar-se no chão.
O índio feroz alçou então o braço armado, arrogante. Da ponta do dardo pingaram gotas de sangue sobre o corpo do pajé.
VII
O guerreiro fitava os céus por entre o enredado das folhas. Os olhos fulgurando encaravam duas estrelas que luziam por cima da mata. Dir-se-ia que esperava...
- Aparece, Tupã, que eu quero atravessar-te!...
Este brado varou através dos bosques e foi achoar longínquo.
O arvoredo, ciciando, ficou a repetir: - Atravessar-te!...
As folhas não zombavam já. Tiritavam apavoradas.
O selvagem fitou os céus... Tupã não veio...
- Estás vingada, Cendi!
O passarinho, que piava nas garras da coruja, não se ouvia mais...
O luar passava rasteirinho pela relva e lambia o corpo de Cendi morta... Esse clarão suave enleava-lhe o lindo cadáver num sudário de azul. Os cintos de pureza jaziam desbotoados, perto do corpo.
Cendi os perdera... depois de morta. O índio murmurou entre dentes.
- Covarde!
E baixou os olhos de lá, das estrelas, para Cendi.
- Adeus, sonho do meu amor, adeus, rolinha! Os guerreiros guardar-te-ão o corpo no invólucrode barro de igaraçaba... Mas eu irei contigo!...
VIII
Um rumor levantou-se ao longe. Taigaíba escutou.
Este barulho era seu conhecido. Ouvira-o já cem vezes, cem vezes isto fora para ele um hino de alegria. Então, porém, não passava de uma canção fúnebre que o atraía. Ele obedeceu:
- É a batalha que se aproxima!...
E embrenhou-se na mataria, gritando possesso:
- Taigaíba ao combate! À morte! à morte!...
1882
Raul Pompéia
QUASE TRAGÉDIA
Conto da Lua-de-Mel
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.