Por Adolfo Caminha (1893)
Provisoriamente instalada no seu bucólico e nemoroso retiro da Aldeota, longe de tudo que lhe arreliava o juízo, a um bom quilômetro das rabugices de D. Terezinha e do mau hálito de João da Mata, outra foi com efeito a vida de Maria do Carmo. O viver simples e sossegado de mestre Cosme e da tia Joaquina, o aspecto úmido da mata resplandecendo num fundo verde-claro e onde variados matizes da flora agreste punham efeitos surpreendentes, o bom leite puro e fresco bebido pela madrugada à porta do curral, e, à tardinha, quase ao anoitecer, o violão de mestre Cosme gemendo saudades de um país remoto e abençoado, a liberdade que se bebia ali na larga convivência da natureza, tudo isso robustecia-lhe o corpo e a alma, inoculando-lhe no sangue um conforto viril, ressuscitando-lhe o quase extinto amor à vida, à alegria, à mocidade, e às apagadas reminiscências do bom tempo em que ela, ainda inocente, em Campo Alegre, ia esperar o papai que voltava da vazante!
Que mudança na sua vida, que transformações desde 77! Antes nunca tivesse saído da Imaculada Conceição para se meter numa escola sem disciplina e sem moralidade, sem programa e sem mestres, e onde uma rapariga, filha de família, é expulsa da aula porque outra de maus costumes escreveu obscenidades na pedra!
Mil vezes a Imaculada Conceição com os seus claustros, com as suas capelas, com o seu silêncio respeitoso, com a sua disciplina austera; ao menos não teria voltado à casa dos padrinhos, àquela maldita casa de hipócritas, e não teria dado espetáculos com o Sr. Zuza.
Ah! o Zuza... Vinha-lhe um forte desejo de vingar-se do estudante, de caluniálo, de culpá-lo pela sua desgraça. Àquela hora o que não estariam dizendo dela na cidade?...
Pensava essas coisas no seu pobre quartinho de taipa abrindo para a natureza, enquanto a tia Joaquina fazia rendas.
Dentro de um mês era notável a influência do campo na sua saúde. Criara novas cores, novo sangue, muito solícita agora nas preocupações domésticas.
— A menina Maria está criando banha! admirava a tia Joaquina. Sim senhora! — O leite, tia Joaquina, o leitinho é que tem me feito bem.
João da Mata aos domingos, invariavelmente, ia ver a afilhada, afetando grande interesse por seu estado. Dizia-lhe as novidades, os escândalos, dava-lhe lembranças da Lídia Campelo, e, ao retirar-se prevenia: — “Se houver necessidade mandem-me dizer.”
— Vá descansado, seu Joãozinho, vá descansado, que há de chegar o dia...
Mas o estado de Maria do Carmo não inspirava cuidados. O útero revigorava, funcionando com a regularidade precisa duma excelente máquina moderna, por sinal Maria, desde que se mudara para a Aldeota, nunca mais sentira pontadas.
O amanuense exultava, alegre e feliz. A princípio receara um aborto, mas agora tinha a certeza de que triunfavam as qualidades procriadoras da rapariga.
— É, pensava ele, roendo o canto das unhas. Um bom útero é tudo na mulher: equivale a um bom cérebro!
E esquecia-se a filosofar na vida intra-uterina, admirando-se muito de que uma simples gota de esperma pudesse gerar um homem!
CAPÍTULO XIV
A ausência de Maria do Carmo não passou despercebida às rodas de calçada e aos freqüentadores do Café Java, cujo tema quotidiano — a política — não lhe satisfazia o prurido de entrar pela vida alheia a esmiuçar escândalos como quem procura agulha em palheiro.
Nas portas de botica, nos cafés, nas repartições públicas, no mercado, em toda parte comentava-se o desaparecimento da normalista, em tom misterioso e com risadinhas sublinhadas a princípio, depois abertamente, sem rebuços, com uma ponta de perfídia traindo a sisudez convencional da burguesia aristocrata.
Que tinha ido tomar ares a Maracanaú, afirmavam uns acentuando a ironia; outros — que andava adoentada de uma pneumonia “proveniente de arranjos na madre”; outros — que estava proibida de sair à rua e de chegar à janela por desconfianças do amanuense. Alguns, porém, como o José Pereira, comunicavam secretamente, pedindo toda a cautela, que a rapariga tinha sido raptada por um paraense e que se achava depositada no Cocó, em casa de uma tal Joaquina Xenxem, por sinal o Manoel Pombinha, tipógrafo, “os vira passar uma noite embuçados numa capa preta”, caminho do Outeiro.
Na Escola Normal rebentavam suspeitas à flor das discussões que preenchiam o intervalo das aulas.
Quem, a Maria do Carmo? Aquela mesma não era mais moça, não, meu bem... Ela sempre fora muito metida a aristocrata, por isto mesmo caíra nas mãos de um Zuza. Era bem feito! Uma grandíssima orgulhosa com carinha de santa. Aí estava a santidade...
Vinham à baila casos análogos de filhas-famílias que tinham ido para fora da cidade tomar ares e, no fim de contas, iam mas era “desembuchar” onde ninguém pudesse ver...
— Então, já apareceu a rapariga? perguntava-se com interesse.
O Guedes ardia em desejos de saber a verdade nua e crua. Diabo de tantas histórias e ninguém descobria a incógnita do problema.
Aproveitou uma ocasião em que João da Mata jogava a bisca no Zé Gato. O amanuense estava já um pouco atordoado pela cachaça.
— É agora! pensou o redator da Matraca, e formalizou-se, carregando o chapéu para a nuca.
— Então é verdade o que se diz por aí, ó João?
— Sobre os amores secretos do falecido presidente?
— Não, homem, não é essa a ordem do dia. Isso passou. A questão é outra.
— Desembucha!
— Pergunto se é verdade o que corre sobre...
— ... Sobre a Maria do Carmo? Uma calúnia, seu Guedes, uma calúnia! Você bem conhece este povo.
— Eu já tinha dito isso mesmo a alguns amigos: que a D. Mariquinha era incapaz de semelhante procedimento.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.