Por Inglês de Sousa (1891)
A tarde estava muito fresca. A viração, vinda do Amazonas, acentuava-se, enrugando as águas do Canumã em pequenas vagas de prata e fazendo oscilar a humilde embarcação de pesca. As arvores da beirada balançavam-se graciosamente sobre as ribanceiras em saudações corteses aos atrevidos nautas que visitavam aquelas paragens despovoadas. As cigarras e os tananãs, sentindo avizinhar-se a noite, cantavam em notas melancólicas as saudades da vida efêmera que se desprendia do minguado corpinho. O unicorne denunciava a sua presença nas várzeas da beira do rio, cortando o ar com as vibrações da voz sonora e potente acordando o jaburu meditativo e tristonho na sua roupagem negra. Araras de tornaviagem enchiam o céu com a gritaria estridente que ia perder-se, num rumor longínquo e monótono, nos taperebás da serra, e cruzavam-se com os papagaios sertanejos voando alto, em bandos compactos; governando o impulso do vôo com os staccati do canto arquejado. No meio dos gapós a saracura e o galo-d'água gemiam um dueto amoroso, com o acompanhamento da orquestra desenxabida das lontras que vinham gozar do último calor do sol morrente; e no capinzal da beira os cururus enfatuados e bulhentos assustavam as tímidas rolas aninhadas na espessura da canarana, no aconchego da folhagem macia, e que se punham a dar gritozinhos aflitos, cedendo à fascinação irresistível. Com a despedida do dia as ciganas grasnavam à porfia, numa confusão de vozes discordantes, maltratando-se a bicadas, lutando por um mesmo ramo de árvore, donde pudessem, empoleiradas, mergulhar na água duvidosa do rio a profundeza escura do olhar corvino, em busca de um indício de carne morta. Frutos maduros se desprendiam das árvores ribeirinhas, caindo na água com um ruído sonoro que provocava uma avançada geral das tartarugas famintas, nadando entre duas águas. Enormes pirarucus vinham por sua vez, graves e solenes, gozar a fresca da tarde, aspirando com delícia e em grandes rabanadas a brisa do Amazonas. O sol já se escondia por trás da serra, desprendendo uma luz suave coada através das clareiras, dourando as cristalizações das rochas, e resvalando sobre a toalha do rio, salientava as cabeças silenciosas dos grandes jacarés imóveis, como tocos de pau, perdidos na correnteza, e cujos olhos ardentes e ferozes cravavam-se na montaria com fixidez de mau agouro. A canoa avançava lentamente.
Padre Antônio remara toda a tarde, subindo vagarosamente o Canumã, vencendo a custo a correnteza que o arrastava para o lago, como se uma força oculta o quisesse desviar da arriscada tentativa. Depois do jantar, que foi mesmo a bordo, ao cair da noite de treze de agosto, tratara de procurar um lugar em que ele e o companheiro pudessem repousar os membros fatigados. O problema, pensava, não era de fácil solução.
Era preciso amarrar a canoa em lugar que a abrigasse de alguma ventania noturna ou dessas rápidas tempestades dos países quentes, terríveis e imprevistas, despedaçando as florestas e convulsionando os rios. Ao mesmo tempo convinha não esquecer os perigos de terra, não menos de temer naquele trecho do Canumã, de aspecto tão diverso do que lhes oferecera ao desembocar no lago de que tira o nome. As ribanceiras eram altas, corridas a prumo, como se o Canumã, à semelhança do Amazonas, se ocupasse em devorar as margens, ameaçando espraiar-se até a raiz da cordilheira que padre Antônio divisava ao longe, enquadrando o vale numa cercadura azul. A beira do rio parecia coberta de aningais cerrados e doentios, que se compraziam num solo inconsistente e úmido, e defendiam-se da correnteza com uma larga faixa de densa canarana, dum verde cambiante. A noite enchia o céu, entenebrecendo o horizonte, depois dum rápido crepúsculo. Padre Antônio amolecia o remo, olhando para todos os lados, hesitando. Amarrar a canoa muito perto da terra, além de a sujeitar ao risco do desmoronamento das ribanceiras, era expô-la ao ataque das onças, protegidas pela escuridão do mato e pela frouxidão do solo. Fundear ao largo sem um mará que a garantisse contra a correnteza, impedia aos viajantes o sono repousado em terra, ao menos que não se aventurassem por entre as canaranas nos domínios da cobra e do jacaré. Não havia remédio senão continuar a viagem até que encontrassem um bom porto para o desembarque.
— Ali! exclamou de repente o Macário, lobrigando à última claridade do crepúsculo uma língua de terra que num trecho de cerca de três braças entrava pela água dentro, forçando a correnteza a desviar-se e formando um remanso. Por efeito do desabamento da ribanceira a margem abaixava-se numa pequena praia. Não havia mais hesitação possível. A noite já os impedia de viajar livremente.
Padre Antônio aproou a montaria para a beira.
— Desça e amarre a canoa, ordenou.
Macário arregaçou as calças até os joelhos, resmungou, tirou fora os sapatos e atirou-se à água. Mas imediatamente soltou um grito estridente, titubeou e foi cair de ventas sobre a terra mole da pequena praia improvisada.
O sacristão de Silves, repimpado sobre um montão de folhagem com que procurava evitar a umidade do solo, agitava-se como se o diabo lhe tivesse entrado no corpo por fenômeno de incubação. Eram murros no ar, sacudidelas de braços, cabeçadas no espaço, exclamações de ódio e rancor que lhe saíam em atropelo dos lábios espumantes para permitir a entrada repentina na cavidade bucal de alguma atrevida muriçoca, doida por chupar-lhe o véu do paladar, e logo após expectorada, nadando em saliva, numa grande careta de enjôo. Era um espetáculo estranho e fantástico, que o padre observava da montaria em que ficara, esse do Macário, sentado à beira do rio, junto a uma grande fogueira, com a frente aureolada por um enxame de insetos alados, e a vociferar imprecações de toda sorte, sacudindo os braços, as pernas, o tronco, num movimento desordenado e contínuo, como se estivesse atacado da dança de S. Guido. Dir-se-ia um feiticeiro que no silêncio da noite e da solidão, entregava-se aos mistérios da sua arte diabólica, invocando os espíritos familiares para os lançar contra a humanidade, ou algum pobre tapuio louco que se ensaiasse para o religioso sairé, dançando ao som de instrumentos imaginários.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.