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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Seguiu-se uma algazarra de cães. Veio abrir um preto, munido de um tição, que trazia sempre em movimento, para conservá-lo aceso.

— Boa noite, tio velho! disse Manuel.

— D'es-b'a-noite, branco! respondeu o negro.

E, segurando a brida do cavalo, conduziu com este o cavaleiro até a casa.

Raimundo e o guia seguiram atrás. De longe, avistaram logo uma parede rebocada, disforme, que ao luar se afigurava um lago entre árvores. Mais perto, o lago se transformou num sobrado e os viajantes descobriram uma porta, em cujo esvazamento se desenhara o vulto varonil do Cancela, que detinha dois formidáveis rafeiros.

— Ora viva! gritou o dono da casa. E, voltando-se para os cães, que insistiam em ladrar: Safa, Rompe-Nuvens! Arreda, Quebra-Ferros!

Os cães rosnaram amigavelmente, e o fazendeiro, com sua voz forte, de pulmões enxutos, gritou para Manuel:

— Então sempre veio!.. Pois olhe, cuidei que desta vez fizesse como das outras!... Enfim, como vai essa católica?

— Assim, assim, um pouco moído da viagem... disse Manuel, entregando o cavalo ao preto e apertando a mão do Cancela. Como lhe vão cá os seus?

— Bons, louvado Deus. Ainda estão na Ave-Maria, mas não devem tardar.

Efetivamente, do interior da casa um coro abafado de vozes, que rezava cantando.

Raimundo aproximou-se, depois de apear.

— Este é o Mundico de que lhe falei! declarou Manuel, empurrando o sobrinho para a frente.

O rapaz espantou-se com a rústica apresentação, e muito mais, quando o roceiro, em vez de cumprimentá-lo, pôs as mãos nas cadeiras e começou a passar-lhe uma revista de cima a baixo, como quem examina uma criança.

— Com os diabos! exclamou, soltando uma risada. Você e seu compadre falaram-me em um menino!...

— Há doze anos!

— Olha o demo! Pois, seu Mundiquinho, aperte esta mão, que é de um antigo amigo de seu pai, e não repare se não encontrar por aqui o bom trato da cidade! Isto cá sempre é roga! mas vá como o outro, que diz: “Mais vai pouca de bom coração, que muito de sovina!...”

E conduziu os hóspedes à varanda, menos o guia, que se tinha aboletado já pelos ranchos dos pretos.

— Homem! vocês vão se assentando nessas redes! O Pedro! vê cachimbos!

— Trazer a cana e o café. Ou querem antes vinho?

— Qualquer coisa serve.

— Temos aqui conhaque! ofereceu Raimundo, apresentando um frasco que trazia a tiracolo.

— Pode fartar-se com ele! desdenhou Cancela. É coisinha que não me entra cá no bico!

Encheram-se três copinhos de cana-capim.

— Vá lá à nossa! E venham despir-se para cear!

E conduziu-os a um quarto, destinado exclusivamente a hóspedes.

A casa compreendia a antiga fazenda Barroso, onde noutro tempo morou e morreu a sogra de José da Silva, e uma parte nova, feita de pedra e cal, cujo cuidado de construção revelava a prosperidade do rendeiro.

A “casa nova”, como chamavam a última parte, compunha-se de um grande avarandado, no qual, fazendo as vezes de cadeiras, viam-se redes armadas em todos os cantos. No centro, que é o lugar de honra nas fazendas do Maranhão, havia um quarto espaçoso e arejado, e o mais eram paredes sem pintura e tetos sem forro, potes de barro vermelho, vassouras de carnaúba encostadas por aqui e por ali, selins estendidos no parapeito da varanda; a respeito de mobília, nada mais do que uma mesa tosca e bancos compridos de pau. O paiol da farinha era por baixo do sobrado, onde se encontravam enormes baús, forrados de couro, com umas setenta redes destinadas aos hóspedes. A adega ao lado do paiol. De fora ouvia-se o grunhir preguiçoso dos porcos no chiqueiro, e do fundo do quintal, soprado pelos ventos da noite, vinha um cheiro bom de jasmins de Caiana, lírios do Peru, resedás e manjeronas.

Quando os três voltaram do quarto, já a filha e a mulher do fazendeiro tinham vindo da reza. Manuel apareceu enfronhado comodamente num paletó de brim pardo e um par de tamancos. Raimundo não mudara de roupa, apenas banhara o rosto e as mãos e penteara os cabelos. A mulher do Cancela punha a mesa para a ceia; a filha correra a esconder-se no quarto, espiando as visitas por detrás da porta, com vergonha de aparecer.

— Anda pra cá, Angelina! gritou o roceiro. Pareces um bicho do mato! Nunca viste gente, rapariga?!

Foi ter com ela e obrigou-a a sair do esconderijo.

— Ora vamos! direito! Não estejas a esconder o rosto, que não tens de que o esconder!... Vamos!

Angelina apareceu, com muito acanhamento, e foi cumprimentada.

— Então! ralhou o pai. É com a cabeça que se responde?... Ah, que estas cada vez mais matuta!... Que mal te fez este pobre cabeção para o maltratares desse modo?... Olha que o rompes, estonteada!

Angelina, muito contrafeita, abaixara o seu rosto moreno, agora mais corado sob o frouxo do riso da encalistração que a dominava.

— Então, de que tanto ris, sua feiosa?...

(continua...)

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